Arsénio Mota e a Bairrada

50 Anos EscritaConheci pessoalmente Arsénio Mota por volta de 1990. É verdade que já então o lia: sabendo-o da Bairrada (nasceu na freguesia de Bustos, concelho de Oliveira do Bairro, em 1930), recortava as crónicas mais saborosas que redigia para o Jornal de Notícias a par de textos sobre comunicação social que publicava nos Cadernos de Jornalismo, na cidade do Porto.

Do primeiro encontro guardo sobretudo a imagem do homem afável mas um tanto austero, o olhar atento e perscrutador, a segurança de quem fala sem alardes de superioridade, apenas ao alcance dos que trazem no bojo da existência uma cultura despida de superficialidade e dos artificialismos da retórica. Um homem ouro de lei, que passou a cumular-me de gentilezas. Carteou-se algumas vezes comigo – que tão pouco tenho para dar-lhe! – e ofereceu-me praticamente tudo o que ia publicando. Procurou, até, envolver-me num ou noutro projecto com a sua parceria. Coisas que não tiveram seguimento. Honrado com tais convites, faltou-me «pedalada» para o acompanhar: ou porque o tempo escasseava, ou porque minguavam os conhecimentos que ele generosamente sobrevalorizava. Hoje perdura uma amizade feita de sinceridades que não temem o confronto nem a divergência ocasional de alguns pontos de vista.

Um dia, a caminho de Febres (Cantanhede) onde ia ser evocada a obra poética de Carlos de Oliveira, lembro-me de o ouvir estabelecer, recorrendo aos frutos, uma curiosa tipologia sobre a personalidade das pessoas. Umas seriam como o pêssego: moles por fora e duras por dentro; outras, como a noz: duras por fora e moles (coração de manteiga) por dentro. E mais não disse. Mas é à noz que se assemelha: por detrás da rigidez dos princípios, duma postura cronometrada da gestão do tempo e do rigor que coloca em tudo em que se envolve, está o homem que cultiva a amizade como valor superlativo. Escrever para crianças, como Arsénio Mota o faz, transformando cada livro num objecto estético, é aliás uma forma superior de amizade e generosidade

Mas não é da obra literária que vou ocupar-me. É do incansável labor em prol da cultura da Bairrada que quero dar testemunho. À minha frente, um texto da sua lavra espelha bem a exigência que sempre coloca no rude ofício da escrita: «Caiu na verdade em desuso a regra de ouro, aplicável às línguas de prata, que mandava abrir o bico só quando se tinha algo de novo a dizer». E agora? Não sendo novidade o que vou dizer, talvez o seja para uns tantos que desconhecem o seu contributo para retirar a Bairrada da letargia cultural que a apoquentava há mais de meio século.

Conhecendo bem o animoso grupo da Plêiade Bairradina, que no período de entre as duas guerras do século XX derramou a cultura regionalista com um brilho nunca antes conseguido, Arsénio Mota terá sonhado reeditar, por volta de 1988, uma nova plêiade, congregando pessoas que para lá da proximidade geográfica manifestassem preocupações culturais ou até algumas afinidades literárias e estéticas.

A primeira pedrada no charco lançara-a em 1987, com a crónica «Bairrada sem literatura», publicada no Jornal de Notícias. O escritor recusava associar a Bairrada apenas à terra do leitão assado e do vinho maduro. Costumava então dizer: a Bairrada tem escritores, mas os seus escritores têm muito pouco a Bairrada. Por isso se dispôs a provar – e conseguiu-o – que a região tinha uma literatura que a exprimia e, mais do que isso, que a Bairrada estava dentro da literatura. Fervilham as iniciativas, sucedem-se os encontros de escritores e jornalistas, organizam-se palestras, criam-se prémios literários, publicam-se livros, folheia-se avidamente a imprensa regional de outras épocas, evocam-se figuras marcantes como António de Cértima, Acúrcio Correia da Silva, Manuel Alves, José Francisco Moreira e António Barata, entre outros. O grande motor e dinamizador dessas iniciativas foi sempre Arsénio Mota.

Faltava criar uma tribuna na imprensa para divulgar os valores culturais regionais. Também aí foi decisivo, aparecendo a coordenar o suplemento Terra Verde, distribuído com o Jornal da Bairrada. Colabora em todos os números, em alguns deles com vários textos. Pela sua variedade e qualidade, os 24 exemplares publicados são já hoje um repositório seguro de temas culturais bairradinos

A AJEB – Associação de Jornalistas e Escritores da Bairrada, fundada em 1990 e a cuja direcção presidiu durante quatro mandatos, terá sido a sua menina dos olhos, uma espécie de hífen cultural, traço de união entre os diferentes projectos idealizados. Por razões sobejamente conhecidas – Arsénio Mota fez chegar aos associados um pungente «Testemunho para Memória» –  a associação está hoje moribunda, se é que não pode dizer-se, parafraseando o poeta, jaz morta e arrefece. Um dia a memória histórica se encarregará de mostrar aos vindouros quem a serviu de forma competente, com zelo e dedicação sem limites, e quem foram também os seus principais coveiros.

Num momento em que a Bairrada parece deixar-se embrulhar, novamente, em espesso manto de silêncio cultural, é proibido esquecer o que Arsénio Mota fez por ela, e também pela terra onde nasceu, à qual dedicou três monografias. Ambas lhe devem muito. Resta saber se uma e outra têm feito o que devem para merecer Arsénio Mota.


(Texto publicado em Arsénio Mota – 50 anos de escrita, Serafim Ferreira (coord), Porto, Campo das Letras, 2005 (1.ª edição), pp. 59-61).