Academia Nobel, assédio e literatura

sexual-harassment-work-sleazy-businessman-harassing-shocked-female-coworker-eps-vector-illustration-no-transparencies-70960868Este ano não vamos ter Nobel da Literatura. Tudo por causa de escândalos sexuais que abalam a Academia Sueca. Negócios de saias, a avaliar pelas autoras da denúncia. Uma tragédia, já que pelo menos desde Shakespeare, sem mulheres – mas quase sempre com um rei… – não há tragédia que vingue.

Confesso o meu alívio, à mistura com alguma ignorância. Pelo menos em 2018 não vou correr o risco de ver anunciado um Nobel de quem nunca tinha ouvido falar, como já aconteceu com os casos recentes de Patrick Mondiano e Alice Munro. Já agora, digam lá se conhecem ou já leram algum destes escritores: Sully Prudhomme (não, não tem nada a ver com Michel Preud’homme, o que voava entre os postes das balizas de futebol), Giosuè Carducci, Rudolf Eucken, Henrik Pontoppidan, Carl Spitteler ou Ivan Bunin. Não conhecem? Eu também não, mas desde já informo que receberam o Nobel da Literatura no século XX.

É mais provável que conheçam alguns destes, diria mesmo todos: Marcel Proust, James Joyce, Kafka, Zola, Tolstoi, Nabokov, Graham Greene, Jorge Luis Borges, ou Philip Roth. O que têm em comum estes nomes é que nenhum deles mereceu os favores dos sapientes jurados. Se isto tem algum significado, talvez seja o de a academia sueca se enganar algumas vezes em relação às obras que avalia. Tantos nomes galardoados que acabaram por não resistir à pátina do tempo! Se neles fosse reconhecível a excelência literária, por certo não teriam caído no alçapão sem fundo do anonimato. Não se teriam dissolvido, ao fim de alguns anos, na indiferença generalizada dos amantes da leitura.

A academia sueca, fragilizada com algumas demissões, pretende agora envolver mais pessoas no processo de escolha do Nobel da Literatura. Ora parece-me que o que esta gente está mesmo a precisar é de ser dinamitada (prestemos justiça ao seu fundador). Assim sendo, avanço com o meu modesto contributo: arranjem um lugar no júri, o mais rápido possível, para António Lobo Antunes. Se bem se lembram, ele disse há tempos numa entrevista, respondendo à pergunta “Preocupa-o como vai ser lembrado daqui a 20 ou 50 anos?”, esta coisa extraordinária: “Tenho a certeza de que serei lido para sempre”.  Não é coisa pouca. Este dom profético, muito diferente dos palpites erráticos das pitonisas da academia, iria ajudar a diminuir de forma considerável a margem de erro em relação a escritores galardoados, que alguns anos depois se perdem em denso nevoeiro ou mergulham para sempre no rio tortuoso do esquecimento.

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Temos, por agora, a academia enrodilhada em silêncio. Tudo por causa de um escândalo que mistura violação de confidencialidade (divulgação antecipada de nomes premiados) com uso indevido de fundos e assédio sexual. Olha os tais do Norte, racionais, certinhos e alinhados, sempre prontos a apontar o dedo aos preguiçosos do Sul, a quem acusam de só quererem copos e mulheres, putas e vinho verde. Atrevo-me a dizer que este desvio à norma (e nem é preciso calcular, com rigor estatístico, o desvio padrão ou a variância) só pode estar relacionado com leituras que lhes contaminaram e baralharam os miolos: talvez os Sonetos Luxuriosos de Pietro Aretino, algumas histórias eróticas de Boccacio, outras tantas do Divino Marquês, os Escritos Pornográficos de Boris Vian, Hombres, de Paul Verlaine, As Proezas Amorosa de um Jovem D. Juan, de Apollinaire, o Manual de Civilidade para Meninas, de Pierre-Félix Louys, porventura Alfred de Musset, uns trópicos do Henry Miller, ou até mesmo uma ou outra incursão na literatura portuguesa do género: a poesia erótica e satírica de Bocage, outra tanta do Abade de Jazente ou, para alardear conhecimentos mais actuais, alguma produção de poesia sobre o corpo, de Natália Correia ou Maria Teresa Horta.

Sugiro aos ilustres membros da academia sueca, sobretudo aos mais propensos a colocar as mãos onde não devem (fala-se em senhoras apalpadas, por se aproximarem, de forma imprevidente, de certas mãos atrevidas) que leiam com proveito e tirem as devidas conclusões deste poema de Vasco Graça Moura:

FANNY

fanny, a grande
amiga de minha mãe,
ossuda, esgalgada,
de cabelo escuro e curto,
e filha de uma inglesa,

tinha um sentido prático
extraordinário e era
muito emancipada, para
os costumes da foz
daquele tempo.

uma vez, estando
sozinha no cinema, sentiu
a mão do homem a
seu lado deslizar-lhe
pela coxa. prestou-se a isso e

deixou-a estar assim,
com toda a placidez. mas abriu
discretamente a carteira de pelica,
tirou a tesourinha das unhas
e quando a mão no escuro

se imobilizou mais tépida,
apunhalou-a num gesto
seco, enérgico, cirúrgico.
o homem deu um salto
por sobre os assentos e

fugiu num súbito
relincho da
mão furada.
fanny foi sempre
de um grande despacho,

na sua solidão muito
ocupada num escritório. um dia
atirou-se da janela
do quinto andar
e pronto.

Vasco Graça Moura,
Poemas com Pessoas (1997)
in Poesia 1997/2000,
Lisboa, Quetzal, 2000.

 

Diálogo imaginário entre Fernando Pessoa e sua mãe

Acho este trecho de diálogo ficcionado, entre Fernando Pessoa e sua mãe, uma delícia. Pertence ao excelente romance de António Breda Carvalho, Morrer Na Outra Margem.

Ler isto fez-me recuar à adolescência, a um tempo em que estudava pouco. Ler por obrigação, eis a maçada. Bom mesmo era ler coisas que davam asas ao pensamento. Então lia à noite, num quarto colado ao de minha Mãe. Para a iludir, munia-me de um foco de iluminar, que colocava debaixo das mantas. Uma ginástica danada, segurar ao mesmo tempo no foco, no livro e nas mantas, de modo a poder ler, a respirar e não permitir que a luz se esgueirasse para o exterior. A Mãe adormecia. Eu desfalecia, braços cansados de tanto procurar aquele equilíbrio instável do foco, do livro e das mantas. Continuava a ler, agora com a luz do quarto ligada. Às tantas a Mãe acordava, apercebia-se da claridade, espreitava os ponteiros do relógio e dizia (quase) sempre a mesma coisa: – Parece impossível, Carlos! Já viste que horas são? Daqui a um bocado são horas de levantar, de apanhar a camioneta para Aveiro. Ou queres faltar às aulas?… Aí, desistia da leitura, apagava a luz e procurava engatar no sono. Mal podia imaginar, ignorando o que eram os heterónimos pessoanos, que ao contrário dele, não arrastava comigo tantas vidas interiores e tantas pessoas que tanto baralhavam a cabeça de sua mãe.Morrer na Outra Margem

– Estás doente, filho?

– De quê, mãe?

– Sei lá, da cabeça. Escreves e pensas tanto, embora disfarces sem conseguir enganar-me.

– Se penso, então estou doente dos olhos.

– Não percebo o que queres dizer, filho. Como é isso possível? Pensar é estar doente dos olhos? Pensar como tu pensas é estar doente da cabeça, foi sempre assim. Deixa-te de doidices, ou de filosofias, se preferes, que ainda agora acordaste.

– O Alberto é que dizia que pensar é estar doente dos olhos.

– Qual Alberto?

– O Caeiro.

– É médico?

– Médico é o Ricardo Reis, mas este está no Brasil. O Alberto foi pastor.

– De almas? – Coloca a mão sobre a testa tépida do filho, desconfiada.

– De rebanhos.

– Rebanhos na cidade…. Estás mesmo doente dos olhos… ou dos pensamentos. – E condescendente, aconselha: – Acho que o melhor é ficares na cama. O teu mal é sono.

– Mãe, o meu mal é falta de dinheiro para realizar os meus sonhos literários.

– A literatura, meu filho, é que é a tua verdadeira doença.

(António Breda Carvalho, Morrer Na Outra Margem, pp.23-24).

Laureano Barros e Luiz Pacheco: o bibliófilo e o libertino

O Grilo na VarandaVi há dias na RTP-2, com particular agrado, o anunciado documentário sobre a vida e obra do grande bibliófilo que foi Laureano Barros, que em vida reuniu uma das mais importantes bibliotecas privadas portuguesas da segunda metade do século XX. Entre outras coisas com interesse, muito curiosa é a correspondência que trocou com Luiz Pacheco, o editor e escritor libertino que colecionava escândalos.

O Grilo na Varanda reúne essa correspondência de 35 anos. Foi o primeiro livro que levei para a praia e li no Verão passado. A obra assemelha-se a um verdadeiro recife de corais, onde em cada toca se alojam a ironia e a mordacidade, o látego com que Luiz Pacheco fustiga o meio literário português. Depois de tanto insistirem para que escrevesse um romance, qualquer coisa de grande fôlego, é com refinada ironia que ele desabafa ao amigo Laureano: “Andavam a pedir-me há que tempos uma obra de fôlego, esquecendo-se que sou asmático hereditário”.[1] Talvez um dia tenha sonhado escrever esse romance, para se afirmar de vez no silvedo que era o meio literário do seu tempo. A urgência do dia a dia nunca lho terá permitido. Às vezes o homem sonha. A obra é que nem sempre nasce.

Sempre me perguntei como foi possível esta relação improvável, esta deliciosa troca epistolar entre duas pessoas tão diferentes: dum lado, um proprietário abastado, um homem organizado, que apreciava o conforto material; do outro, o editor eternamente falido, um escriba  desalinhado, ácido e irreverente, a pernoitar em tugúrios, prisões e hospitais, sem um chavo na carteira, a viver de cravanços e expedientes (para comer, para pagar a renda da casa, ou até para tirar a máquina de escrever do prego), a praticar o rude ofício da escrita nas piores e mais precárias condições, o crítico literário mais dado a demolir do que a construir, como o são todos os panfletários.

O traço de união para tamanha empatia, capaz de criar laços entre duas personalidades tão distantes e tão distintas, só pode ser este: o amor e a paixão que ambos nutrem pelos livros e pela literatura. Como seria de esperar, as cartas que integram o livro são apenas as de Pacheco para Laureano. As que deste recebeu o autor de Comunidade terão levado sumiço, perdidas na voragem de uma vida aos repelões, como o próprio nómada impenitente confessa: “Há anos, desde que deixei Massamá, que fazia de saltimbanco, por vários poisos em Lisboa, Montijo, Lagos, Condeixa-a-Nova, etc.”.[2]   Numa outra carta, acrescenta: “Em Setúbal, deixei eu muita papelada. E na Parede, há anos, uma caminheta cheia de livros e papéis, entre os quais todo o espólio que salvara do António Maria Lisboa”.[3] Tudo isso e mais a consabida falta de saúde, as fugas e fintas à autoridade dos costumes, à justiça e aos credores, fizeram o resto. Uma vida a tocar as raias do abjeccionismo, que também cultivou.

Ao espírito do matemático que colecionava raridades bibliográficas ficamos a dever o conhecimento de grande parte dos manuscritos de Luiz Pacheco, de que foi fiel depositário. E também o conhecimento da sua compulsão epistolar, da sua existência precária e da sua vida atribulada. Tanto basta para que lhe fiquemos gratos para sempre.

Falemos, então, um pouco mais do homem que ousou viver sem rede de segurança, com filhos dispersos ou entregues à Casa Pia. Do iconoclasta em equilíbrio precário no fio da navalha que foi a sua vida itinerante, passada quase toda ela em quartos alugados: “Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler”.[4]

Assumiu fraquezas e fracassos, a bissexualidade, a atracção por ninfetas e efebos. O Pacheco de costela maldizente desceu aos infernos e ao fundo da noite, tudo fez para os habitar e nada para os evitar, embora capaz de resistir, por largo tempo, ao caruncho do corpo e dos dias. Nada disso o impediu de escrever Comunidade, um dos textos mais perturbantes da nossa literatura. Apesar do feitio arrevesado não lhe granjear muitos amigos, não deixava de ser uma figura de culto. Saramago apreciava-o. Ao ler Teodolito, comenta: “Por que bulas infernais não está este homem traduzido em Espanha?” (Cadernos de Lanzarote – Diário II, pp. 186-187).

Entrevistado quando já vivia num lar, Luiz Pacheco disse coisas desassombradas, mas tão verdadeiras como estas: “Vais no corredor e vês um gajo numa cadeira de rodas ou um gajo com um passinho assim assim e tens de fazer um passinho também assim (…). Um gajo chega à mesa e a conversa é: 13-7, 14-9, que são as tensões arteriais; o da frente não caga há quatro dias, sete dias, dêem-lhe um purgante ou um clister; o outro está com a dentadura na mão, estou a comer a sopa e vejo ao lado um gajo a olhar para a dentadura. Que horas são?”[5]. Eis a lucidez, por mais fria, crua e dura que seja, a contrastar com a hipocrisia de uma sociedade habitada cada vez mais por idosos, mas que os esconde, quase não os vê, ou mal dá por eles.

Diário RemendadoApesar disso, Luiz Pacheco não se considerava um escritor maldito. É isso que nos diz no Diário Remendado: “Quando rebati a idiotice do escritor maldito estava a atacar frontalmente (…) um modus vivendi em que a maioria se deleitava: viver a melhor vidinha possível, considerando a Literatura não um acto de conhecimento e afirmação (desafio, contestação, intervenção, criação pura, total) mas uma mercadoria mais na sociedade de consumo”.[6]

Era assim “o Pacheco”, nome por que era conhecido nas tertúlias das letras: dava-nos páginas impiedosas, daquelas que abanam e abalam. Literatura do mais fino quilate. A aura de libertino que continua colada ao seu nome, assim como a de escritor maldito, continuam a seduzir muita gente. Gente que o admira, mas incapaz de trilhar um só que seja dos ínvios caminhos que percorreu. Todos gostaríamos de ser um pouco “malditos”, não é? O problema é que nos falta a coragem para desafiar as patrulhas da moral e dos bons costumes, para arrostar com as consequências. Salvo raríssimas excepções, somos mais dados ao aconchego conformista, ao não fazer ondas, nada dados à heresia e muito menos à apostasia. Ou, vamos lá, a um grãozinho de loucura. Portanto: pragmatismo resignado, normalizados quanto baste, assim como quem sai de uma cadeia de produção em série. Umas vezes deprimidos, outras nítidos nulos, para tomar de empréstimo um título de Vergílio Ferreira.

Do homem que fazia da insubmissão um estilo literário, do provocador escandaloso e do adversário impiedoso da moral social dominante, há quem diga o melhor e quem diga o pior. Quem o incense e quem o recrimine. Por mim, revejo-me nesta bela síntese de João Pedro George, na introdução a O Crocodilo que Voa: “Era rude? Era torcido? Era cruel? Talvez. Era inconveniente? Rompia em excessos? Descambava nas indelicadezas? Dava respostas chulas? Melhor! Quando à nossa volta o clima mental é lúgubre e estéril; quando o meio literário em que vegetamos não promove o espírito crítico, antes o comércio escuro e as mútuas mesuras (…) abençoado Pacheco!”[7]


[1] O Grilo na Varanda. Luiz Pacheco para Laureano Barros. Correspondência, 1966-2001. Lisboa, Tinta da China, 2017, p. 98.

[2] Idem, p. 185.

[3] Idem, p. 69.

[4] Luiz Pacheco, “Comunidade”, in Exercícios de Estilo. Lisboa, Editorial Estampa, 1973, p. 128.

[5] Entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Luiz Pacheco, Diário de Notícias [DNa], n.º 108, 19.12.1998.

[6] Luiz Pacheco, Diário Remendado (1971-1975). Lisboa, edições Dom Quixote, 2005, p. 182.

[7] O Crocodilo que Voa. Entrevistas a Luiz Pacheco. Lisboa, Tinta da China, (João Pedro George, Introdução), 2015, pp. 12-13.

Pernil de porco e crimes (quase) perfeitos

A rocambolesca história das toneladas de pernil de porco, destinadas a alimentar a revolução bolivariana da Venezuela na época natalícia, continua a dar que falar. Da cabecinha pensadora de um maduro onde costumam poisar passarinhos que estabelecem ligação com o Além e lhe permitem falar com Hugo Chávez, podem sair coisas extraordinárias. Primeiro, teria sido Portugal a sabotar o pernil. Agora, parece que o pernil está na Colômbia. Que ventos, que correntes marítimas adversas, terão desviado da rota original tão apetecível encomenda?  Não sabemos se o presidente da Venezuela alguma vez leu Quem Mexeu no Meu Queijo?, um livro que fornece pistas para lidar com um mundo em acelerada mudança. Se leu, talvez colha ensinamentos para escrever Quem Mexeu no Meu Pernil?, podendo vir a rivalizar – sabe-se lá… – com o prestígio que levou o seu conterrâneo Rómulo Gallegos à ribalta da novelística mundial.

Como tudo o que é sólido se dissolve no ar, pode até dar-se o caso de os famintos venezuelanos nunca chegarem a saborear tão delicioso pitéu. E aí, da cabeça do seu presidente até pode soltar-se a peregrina ideia de que a armada com os pernis foi ao fundo, vitimada por mais um atentado do fundamentalismo islâmico. O que nem seria de espantar, já que em vários capítulos do Corão se proíbe o consumo de carne de porco, tendo por base o que Maomé disse do toucinho. E se em vez de carne de porco estivesse em causa carne de javali, poderiam muito bem os acusados de sabotagem ser os irredutíveis gauleses que dão pelo nome de Astérix e Obélix.

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Se méritos há neste verdadeiro enredo porcino, um deles é a possibilidade que nos oferece de desaguar no romance policial e de questionar a existência, ou não, de crimes perfeitos. Esta história do pernil sabotado fez-me lembrar, de imediato, o livro do escritor galês Roald Dahl, “Borrego para a Matança”, obra de 1953 que cinco anos depois Hitchcock iria transpor para o cinema com o título Lamb to the Slaughter. O livro revela-nos como uma esposa dedicada se pode transfigurar por completo ao tomar conhecimento da infidelidade do marido, mesmo que seja este a revelá-la. Neste caso não havia pernil de porco, mas sim uma perna de borrego congelada, que acabou por se transformar numa arma mortífera:

“Mary Maloney limitou-se a aproximar-se dele e sem parar levantou a perna de borrego congelada bem alto e bateu com ela com toda a força na nuca dele. Era como se lhe tivesse dado com uma moca de aço”.[1]

Consumado o homicídio, a viúva tem artes para dar de repasto, aos quatro polícias que investigam o caso, a própria arma do crime, o borrego entretanto descongelado e assado no forno. Assim digeriram os investigadores, com evidente proveito das papilas gustativas, a prova que serviria para sustentarem a acusação. Digamos que nem tudo foi mau para os venezuelanos. Podem, é certo, desfalecer à fome; mas livraram-se – seguramente alguns – de sucumbir à força de uma violenta pancada desferida na nuca com essa perigosa arma de arremesso em que se pode transformar um pernil congelado.

Este tipo de crimes (quase) perfeitos também está presente na literatura portuguesa. Todos conhecem inícios de livros marcantes e por isso mesmo inesquecíveis. Não resisto a dar-vos conta da minha preferência, no que toca a autores nacionais. Ela vai por inteiro para Fernando Assis Pacheco, escritor, poeta e jornalista cultural. Reparem como abre, de forma magistral, o livro Trabalhos e Paixões de Benito Prada, obra em que pretende esboçar a biografia de um avô da província de Ourense que governou a vida em Portugal a deambular por tudo quanto era feira ou mercado da Beira Litoral:

“Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé. O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado (…). Entretanto o mais novo, regressado já do Pereiro, aonde fora avisar o Padre Mestre, manifestou desejos de capar Manolo Cabra. O do meio olhou muito sério para o Padeiro Velho. Este cuspiu enojado e decretou: “É tudo para os cães. E agora tragam-me lá a roupa do fiel defunto, que já não tem préstimo senão no inferno”. Se perguntassem ao Padeiro Velho o que mais queria naquele momento, teria respondido: “Assar-lhe até a memória”.[2]

Que coisa macabra! Que murro no estômago, logo nos primeiros dias do ano – dirão alguns amigos leitores. Talvez tenham razão. Mas é bom recordar o discutido e controverso comentário de André Gide: “É com bons sentimentos que se faz má literatura”.

O que não quer dizer – acrescento eu – que a boa literatura ande atrelada a maus sentimentos. Aqui, o talento de quem escreve é decisivo. Nem os sentimentos mais sublimes explicam os maus romances, nem os mais sórdidos explicam os bons. Importante é ter a capacidade de representar as pulsões essenciais, é atingir a dimensão profunda das coisas, aquele lugar onde o bem e o mal não podem nunca ter o mesmo peso, ou a mesma cotação.


[1] Roald Dahl, “Borrego para a Matança”, Contos do Imprevisto, Vol. 3 (tradução Mariana Pardal Monteiro), Lisboa, Teorema, 1986, pp. 203-204.

[2] Fernando Assis Pacheco, Trabalhos e Paixões de Benito Prada, Porto, Edições Asa, 1997, pp. 9-10.

Paulo Sarmento, pesquisador de palavras e imagens

“Ofereço-vos o texto que escrevo, ignoro se o entendem”

“Está escuro, diz Elvira, acenda o texto, respondo-lhe”

Maria Gabriela LLansol

Paulo CarvalhoDe uma assentada, Paulo Sarmento (pseudónimo de Paulo Carvalho) brinda-nos com dois livros: Limalhas e As Ruas de Saibro Estão Vazias. Não são as suas primícias literárias, pois o autor já vem derramando, há alguns anos, artigos e crónicas e poesia na imprensa regional, a que se devem acrescentar alguns prémios literários com que foi distinguido.

É preciso dizer que nenhum destes livros é de leitura fácil. Lidamos com diferentes camadas de leitura, que nos obrigam a escavar a epiderme dos textos. Além disso, entrecruzam-se, nas duas obras, uma sólida formação religiosa, uma segura reflexão filosófica e uma evidente leitura e assimilação dos clássicos – alguns textos revelam mesmo um óbvio carácter subsidiário da mitologia grega e das tragédias (Limalhas, pp. 72-77). Também algumas sonoridades, ao que parece, da poesia moderna e até certos laivos do pensamento surrealista. Está lá tudo, mesmo quando o autor recorre à ironia, ou à sátira dos discursos de aproximação ao real: o da literatura, o da filosofia, o da invenção e o da reflexão. Um verdadeiro rio da escrita, cujo caudal engrossa à custa de afluentes culturais variados.

Vamos fornecer algumas pistas de leitura, procurando não obscurecer o que carece de ser iluminado. Fazer incidir alguma luz nestes textos é de certo modo ter presente as advertências do próprio autor a propósito dos que “dissecam, esquartejam a mancha, para criar outras manchas, em geral muito mais extensas e densas do que a mancha original” (Limalhas, pp. 118-119).

Ensaiemos, pois. Para dizer que Paulo Sarmento não faz concessões à escrita suave e calmante que se vai produzindo por aí (e vendendo bem!). Com o pretexto de que a agitação da vida moderna subtrai tempo e espaço à leitura e à reflexão, e fazendo jus à ideia segundo a qual só se assimila o que é fácil e não requer esforço, abundam por aí produtos a roçar a mediocridade, quase um atentado ao comezinho acto de pensar. Não é esse o halo que se desprende da sua prosa. Não se descortina, nestes dois livros, qualquer arremedo de simplificação barata, qualquer estratégia oportunista, do tipo facilitar para vender melhor. Se há complexidade, ela é fruto de uma dimensão interior rica e multifacetada, não obedecendo à vontade deliberada do autor em complicar ou obscurecer o seu pensamento, ou as vivências que pretende retratar.

LimalhasOs textos de Paulo Sarmento são difíceis de classificar enquanto género literário. Se calhar o autor nem está preocupado com isso. Mais que deixar impresso um estilo de escrita, pressente-se que o que mais lhe importa é talvez surpreender-nos com o que é possível retirar das palavras que burila e manipula com evidente deleite, um pouco como o artesão que procura atingir a limpidez do cristal. Em rigor, estes textos não são contos, embora sejam curtos. Serão comentários, pedaços de reflexões, jogos de palavras, fragmentos de imagens, tudo colado e esculpido em letra de forma, tudo amalgamado no cadinho da imaginação e das vivências estéticas. Coisas que se desprendem de um corpo, quando raspadas sensorialmente. Limalhas.

Curioso, ao percorrer alguns textos de Limalhas, é verificarmos a relação íntima que o autor estabelece com as palavras, a forma como as molda e manipula (pelo recurso ao semantismo e ao grafismo), fazendo lembrar autores como José Palla e Carmo e Mia Couto. É esse o excitante jogo semântico a que Paulo Sarmento se entrega. À sua maneira, partilha igualmente desta sensibilidade com as palavras, do manifesto prazer que lhe provoca o convívio íntimo com a língua: “as palavras têm curvas arquejantes, redondas como o mistério, e nas suas copas há frutos verdadeiros” (As Ruas de Saibro Estão Vazias, p. 53).

E parece querer trilhar este caminho a um tempo exigente e aliciante: “o corpo é um copo com um cubo de gelo lá dentro (E assim fica sabendo que o R é antárctico)”. A associação do corpo ao gelo e até a alusão ao machado que “continua a desferir golpes” (Limalhas, p. 114 remete-nos para a feliz metáfora de Kafka acerca do papel da escrita: um machado que tem por função quebrar o mar gelado que há em nós.

O mesmo se passa em Colagem (Impossível), texto construído a partir de palavras quebradas (Limalhas, p. 125). Textos de carácter lúdico e irónico, no sentido em que jogam com a linguagem – a matéria do espírito. E por isso mesmo textos que propendem para o poético, enquanto forma de organizar e tratar amorosamente as palavras.

Outras reflexões suscita a leitura destes livros, verdadeiros baús de propostas e associações. O texto que o autor intitula, ironicamente, de Justificativa do Plagiato (Limalhas, pp. 70-71) aflora o problema da originalidade da obra de arte. Para Paulo Sarmento, se há originalidade ela é tão só o resultado da reutilização de materiais pré-existentes, nos quais o “criador” interfere, ao imprimir-lhes um cunho e uma personalidade próprios. É a forma como reorganiza o que já existe que personaliza o artista e o diferencia dos demais.

Também não é por acaso que certos textos se entrelaçam: “Que raio de mania esta, a da arte. Querer dominar os materiais e a sua plasticidade – e ser material e plástico” (Limalhas, p. 126). Eis uma crítica ao fechamento hermético e elitista de certas vanguardas. Como não é por acaso que o título de um dos livros é também o título de um dos textos do outro. Ou que a epígrafe de Limalhas remeta para Rodin, por Rodin (p. 97) ou apele à associação com A Aurora de Ariadne: “O escultor queria esculpir a perfeição na pedra (…). Pôs-se, então, a pulverizar cada pedaço, no pleno desespero da procura do símbolo incorpóreo” (As Ruas de Saibro, p. 50).

Diferentes momentos (imagens?) que pretendem retratar a busca da perfeição artística. Busca por vezes obsessiva da Beleza, que leva certos criadores a adoptar gestos demenciais (ou de excessiva lucidez?) que conduzem à destruição das próprias obras.

E que dizer da intrigante coincidência, ou acaso, de temáticas que nos reconduzem a esse magnífico contador de histórias que é Luís Sepúlveda? Em As Ruas de Saibro Estão Vazias “assistimos” à execução de Frederic Berg. E enquanto a vida se esvai, assoma no rosto do condenado “um sorriso que não constará dos anais” (p. 41). Também o escritor chileno partilha a mesma preocupação com a memória. Numa visita ao campo de concentração de Bergen Belsen depara com uma frase inscrita numa pedra: “Eu estive aqui e ninguém contará a minha história”. Verdadeiro murro no estômago, que o levou a escrever As Rosas de Atacama, um mural de resistência contra o esquecimento de amigos que foi encontrando na sua vida de andarilho – amigos de uma hora ou de sempre, que tanto podem ser humanos como gatos, ou até barcos. Histórias condenadas ao olvido, se ninguém as contasse.

Ruas de SaibroAmbos parecem igualmente traçar uma idêntica cartografia dos afectos, ou enveredar por uma mesma estética de superação do sofrimento. Em As Ruas de Saibro, lê-se: “com o amor que o vaqueiro tem quando arranca a vida a seu cavalo minado pela doença, deu-lhe a morte” (p. 14). Sepúlveda conta-nos o destino do gato Zorbas, também ele minado, de forma irremediável, pela doença. Diz-nos que o amor “não consiste apenas em assegurar a felicidade do ser que amamos, mas também em evitar-lhe sofrimentos e preservar a sua dignidade”. É comovente a descrição do momento em que reúne os filhos e os convence que Zorbas teria de levar “aquela injecção que o faria dormir”. O amor que nutriam pelo felino levara-os “à mais dolorosa das determinações” (As Rosas de Atacama, pp. 92-95).

Há em Paulo Sarmento muito de dispersão, fragmentação e errância. Cabe, pois, ao leitor a tentativa (que se espera lúdica) de reunir tantas limalhas dispersas. Sem se preocupar com o sentido que o autor possa atribuir ao que escreve. Cada leitor reorganiza um texto outro em função do que lê e do como se lê. Se a literatura serve para produzir sentido, o autor deve preocupar-se mais em ser lido do que em ser compreendido, ou não fossem os leitores a razão de ser dos autores.

A Paulo Sarmento apelamos para que continue a apostar na criação do novo, pois a experimentação é consubstancial ao espaço de liberdade que a literatura deve ser. Que no seu percurso singular continue a urdir as teias que tecem a vida e a morte das palavras. Se possível, refinando (sem obscurecer) o leque de possibilidades que se abrem a quem o lê. Afinal, com algum cuidado e labor, tudo aquilo que é denso e meditado talvez possa ser vertido numa escrita mais clara e acessível, facilitando ao leitor a insubstituível tarefa de “acender” os textos, de abrir neles as desejáveis clareiras de compreensão.


(Texto publicado no Jornal da Bairrada, 28.06.2001, p. 9. A versão refundida que aqui se apresenta foi publicada na revista Escritor (Leiamos), pp. 41-44).

Memória de Idalécio Cação — adeus ao Amigo, não à Gândara

Idalécio 3

A notícia que nunca gostaria de receber chegou rente ao final do ano, a 28 de Dezembro: o Idalécio tinha-nos deixado, quase sem avisar. Se a morte de um amigo é sempre uma mágoa, saibamos ao menos celebrar aquilo que connosco partilhou, para lá da inteira amizade: a obra literária, onde ressuma em cada página a Gândara que o viu nascer. O que resta é agarrarmo-nos às frágeis palavras. São elas a ressurreição possível de tudo quanto nos legou.

Idalécio Cação nasceu em 1933 em Lafrana, freguesia de Alhadas, concelho da Figueira da Foz. Descendente de gente de humilde, habituada ao trabalho árduo nas terras de pão, aos 21 anos passou a residir nos arredores de Aveiro, no pacato lugar da Póvoa do Paço, em Cacia. Desde novo se apaixonou pela literatura, inspirado, talvez, na pequena mas valiosa biblioteca do avô materno, carteiro de profissão. Nos anos 60 aparece ligado ao CETA – Círculo Experimental de Teatro de Aveiro.

São de 1961 as suas primícias literárias, com o livro de poemas Nas Fronteiras do Tédio. Dois anos depois, publica novo livro de poesia, As Evidências e o Prisma. Na recensão a esta obra, o então jovem Vasco Graça Moura mostra saber já distinguir a tarefa crítica da reverência provinciana: atribui ao autor “razoáveis qualidades” mas não deixa de dizer que o livro, de “inspiração acentuadamente neo-realista, não traz nada de novo ao panorama da actual poesia portuguesa”.[1] Embora abespinhado com a crítica, Idalécio Cação acabou por recebê-la com a elegância que sempre o caracterizou: “é nas críticas contrárias mas elucidativas que o poeta irrealizado que ainda sou se penitencia e tenta redimir dos seus pecados líricos”.[2]

Vinte e dois anos depois, numa entrevista concedida ao Jornal de Notícias, ao obter o segundo prémio no concurso de contos com “A outra margem do sonho”, o futuro grande escritor da Gândara assumiria essa sua menor inclinação para a poesia: “Na prosa estou muito mais à vontade, enquanto na poesia reina uma grande confusão. Há mais de uma centena de estilos diferentes. Na prosa consegue criar-se um estilo próprio, como eu já consegui criar o meu”.[3] Essa preferência pela prosa ficaria derramada em diversas publicações, sobretudo em páginas e suplementos literários de jornais como Diário Popular, Litoral, Libertação, Independência de Cantanhede, entre outros. Fundou e coordenou os suplementos literários Sal Gema, do Jornal do Oeste (Rio Maior) e Diálogo, do jornal Beira-Vouga (Albergaria-a-Velha). Manteve ligação estreita com a dinamização dos encontros da imprensa cultural durante o Estado Novo. Era sócio da Associação Portuguesa de Escritores, da extinta Associação de Jornalistas e Escritores da Bairrada (AJEB) e da Associação Cultural Sol XXI. Licenciado aos 44 anos em Filologia Românica, acabaria a leccionar na Universidade de Aveiro.Os_Sitios_nossos_conhecidos

Se na poesia não conseguiu tomar grande altura, a prosa viria a reconhecê-lo como “mestre das letras gandaresas”. Publicou Raízes na Areia (1968), Os Sítios Nossos Conhecidos (1990), Daqui Ouve-se o Mar (1991), O Chão e a Voz (1998), Glossário de Termos Gandareses (2002), Memória de João Garcia Bacelar (2005), Crónicas Gandaresas (2006) e Do Alto Destas Ameias (2008).

Carrego nos pedais da memória, em busca de remotíssimas lembranças. Recordo o prazer de assistir, em 24 de Outubro de 1990, à apresentação de Os Sítios Nossos Conhecidos e de ouvir as palavras que o Dr. Joaquim Correia então proferiu:

“Para quem tem acompanhado o labor literário de Idalécio, não é novidade dizer que a terra é o grande tema das suas narrativas de ficção. A terra ou talvez, se o preferirmos, a aldeia. Mas a aldeia a partir da sua própria experiência de filho dos areais gandareses, onde, como ele confessou ainda recentemente numa entrevista, aprendeu a fazer todos os trabalhos que dizem respeito ao amanho da terra e do pão. A nossa literatura é particularmente rica na temática ruralista. Mas o que é de salientar desde já é que nenhum dos escritores portugueses que abordaram esta temática partiram da experiência singular a que as circunstâncias da vida submeteram Idalécio Cação. É importante reproduzir o que ele dizia nessa entrevista: “eu sei o que custa um bocado de pão, que o trabalhei em todas as suas fases; quando como um prato de arroz, não esqueço que também o ajudei a amanhar nos campos do Mondego, onde o meu pai era seareiro duma courela de doze alqueires de semeadura”.

Esta experiência espelha-se na sua obra e por isso também a autenticidade do seu ruralismo, se nada tem a ver com o ruralismo idílico da tradição pastoril ou mesmo do romantismo de Júlio Dinis ou de Trindade Coelho, também não se limita a ser o ruralismo realista de Aquilino ou Torga, nem mesmo o do neo-realismo ideologicamente programado de Alves Redol ou de Manuel da Fonseca, ou de Fernando Namora, ou de outros. Como escreveu Mário Sacramento, mesmo os neo-realistas mais preocupados com a sorte do povo explorado não foram capazes de o exprimir por dentro, limitando-se a ser a “voz que ouve”, na paradigmática expressão de Políbio Gomes dos Santos, voz sem dúvida condoída, mas sem a experiência verdadeiramente vivida que era necessária para o exprimir por dentro.

É curioso como Idalécio Cação, já em Raízes na Areia, embora utilizando em todos os contos a voz da terceira pessoa, raramente dá a impressão de distanciamento em relação à acção e às personagens, de tal modo se faz a narração empática do narrador com elas, de tal modo a linguagem do narrador, sem perder em fulgor literário (pelo contrário, ganhando-o), se identifica com a das personagens, não só em termos vocabulares, mas até em particularismos sintáticos e em entoações peculiares, sendo assim a sua voz, não a do narrador distanciado do seu objecto mas sim a do aedo, que é a voz do próprio mundo a que dá forma narrativa”.Daqui_Ouve_se_o_mar

Após ler Os Sítios Nossos Conhecidos e Daqui Ouve-se o Mar também concluí estarmos em presença de um grande escritor da Gândara. Um homem de palavra e de palavras. Um homem ouro de lei, que sabia tudo sobre o amanho da terra, do semear e colher em tempo certo, do trato das videiras e da poda das árvores. Parafraseando Carlos de Oliveira em Pequenos Burgueses, apetece dizer, sem favor, que a obra de Idalécio Cação é “uma chuva de luz a encharcar a Gândara do céu à terra”.

 

(Texto publicado no Jornal da Bairrada, 05.01.2017, p. 18).


[1] Independência Literária [suplemento cultural de Independência de Águeda], n.º 23, Agosto, 1963.

[2] Idem, n.º 24, Setembro, 1963.

[3] Jornal de Notícias, 10.06.1985.

Quase Tudo Nada — livro de Arsénio Mota

«Harmonia e Vitalidade, duas constantes em que assenta a Natureza e a Arte, ou, se quisermos, duas regras do amplo ritmo cósmico. Quem lhes escapa?                               Júlio Resende

 

Galardoado com o prémio literário Carlos de Oliveira, este livro de Arsénio Mota [AM] é em tudo diferente dos que anteriormente publicou. Depois de o ler, e ao senti-lo tão luminoso e carregado de sinais, apetece, para o resumir, recorrer a palavras suas: «Depois de longamente viver e aprender, ou seja, depois de muito possuir e experienciar, é possível que ao indivíduo em maré de balanço no final da existência reste apenas a sensação lúcida de que ao homem despido de ilusões somente cabe guardar palavras e pouco mais na sua passagem».[1]

Quase Tudo Nada 1Em Quase Tudo Nada, a narrativa de ficção ocupa-se a desocultar os percursos de uma existência. Assim como quem pretende revisitar o que foi perdendo e não tanto celebrar o que (ainda) tem. A narração é feita na terceira pessoa. É através de Tumim, a personagem central, embora paralela à do autor – contracção de «Tu» (leitor) e «mim» (sujeito escrevente) – que se evoca a passagem do tempo e dos lugares e marcas que ele foi imprimindo em tudo o que o rodeia. Marcas que também talhou em Tumim, uma espécie de diplomas de tudo o que viveu. Marcas e não cicatrizes, porque estas são «monumentos à dor»[2] e o que este livro nos oferece é acima de tudo um hino à vida e não ao sofrimento.

Importa dizer que o mundo em que o narrador se move não o seduz. Ele vai contemplando, do solitário posto de observação, «as lutas vulgares pela conquista de riqueza, poder ou fama como se estivesse colocado num longínquo planeta […] a ver simples micróbios a devorar-se às cegas» (p. 123). Vive cercado cada vez mais de sombras e de silêncios, pois como dizia Torga, «a vida não passa de um progressivo distanciamento de tudo e de todos, que a morte remata. Existir é ir perdendo».[3] Mas, embora cada vez mais apartado do tumulto da vida social, do fervilhar dos interesses mesquinhos e interesseiros, não corta em definitivo as amarras que o ligam ao mundo. É sobretudo através da palavra escrita que mantém o fio de ligação a ele.

Tal como a vida dá muitas voltas e é feita de partidas e regressos, diásporas e peregrinações interiores, assim este livro, para ser digerido e apreciado, nos compele a manuseá-lo em permanentes avanços e recuos. Tarefa que não requer esforço, antes o gesto lúdico de manipular um objecto estético. Afinal, uma outra fisiologia da leitura, que aguça a curiosidade na busca do que vem a seguir e em que o leitor é chamado a conviver de perto com o itinerário de vida do autor, «um fio singelo a desenrolar-se, saindo do novelo, entre todos os outros que com ele se entrelaçaram na vida» (p. 121). A desordem dos capítulos pode aqui ser vista como um equivalente literário do desconcerto do mundo. Ordená-los, dar-lhes uma sequência lógica, é de algum modo porfiar em busca da «harmonia», uma palavra-chave que percorre todo o livro.

O seu conceito de harmonia – cuja busca parece sondar incessantemente, como quem responde ao apelo de um chamamento vital – tem como condições básicas a paz (estar de bem consigo próprio, para poder estar de bem com os outros) e uma «aspiração veemente à liberdade». Devolver à humanidade a liberdade pressupõe coisas tão comezinhas como trabalhar, meditar, pacificar-se interiormente e até alimentar-se de maneira correcta. Tumim insurge-se contra os que comem e bebem o que sabem que lhes faz mal, gostando ele apenas do que lhe faz bem (p. 55). Esta sua consabida frugalidade à mesa assenta numa procura moderada dos prazeres, no sentido mais epicurista do termo. É princípio de sabedoria o homem contentar-se com prazeres simples e naturais, que ao evitarem a dor contribuem para a ausência de problemas (ataraxia).

O narrador serve-se de Tumim para, através dele, expressar a sua vida específica na Terra e as suas interrogações sobre a existência. A vida de Tumim tem muitas vidas dentro, mas nem todas elas são desvendadas. O todo, aqui, é maior que a soma das partes, os oito capítulos que compõem esta obra e que podem ser vistos como outras tantas pedradas que o narrador lança, de forma inteligente, no charco da boa consciência de cada leitor. E cada parte é tão só o que resta da decantação dessa vida na retorta da sensibilidade do autor. Fragmentos apenas, embora talvez os mais impressivos.

Todos juntos formam um arco, onde se inscrevem os verdes anos em meio rural de ambiência bairradina; a emigração, uma espécie de carta de alforria que permitiu a Tumim rasgar horizontes, ir em busca de um achamento interior e de uma afirmação que continuava tolhida no berço; as deslocações ao Porto, que de tão repetidas transformaram a cidade em porto de abrigo e criaram laços que nunca mais desataria; o aprumo cívico perante a polícia política da ditadura, que AM nunca nos contou, por saber que às vezes há mais dignidade no silêncio (soubemo-lo agora, através de Tumim, que vemos a viver de pé, se calhar por se ter cumprido a profecia que o pai lhe contara em miúdo, acerca do caça-rabos); a entrada no período da maturidade, os primeiros sonhos conspirativos e as experiências amorosas, onde discreteia sobre a sexualidade, as mulheres, o amor-paixão e o amor-sentimento; finalmente, o belíssimo capítulo VIII, chave de leitura essencial para compreender toda a espiritualidade que se desprende desta obra. Confissão de um homem profundamente religioso, que um dia descobriu em Amiel o conceito de «religião natural» (hoje tão deliberadamente obscurecido) e passou a fazer dele «ancoradoiro poderoso que não mais deixou de aprofundar» (p. 13). Recorrendo talvez a Hume, entre outros autores.

Com efeito, não parece difícil descortinar nalgumas páginas deste livro influências de David Hume e dos seus Diálogos Sobre a Religião Natural. Isso acontece quando Tumim observa a natureza e o «comportamento dos mais humildes bichos conhecidos» (p. 99) ou quando compara a lufa-lufa dos humanos a «micróbios a devorar-se às cegas» (p. 123). Comparem-se estas frases com as palavras de Hume: «Olhai o universo em vosso redor. Que enorme profusão de seres animados e organizados, sensíveis e activos! […] Mas examinai um pouco mais de perto as existências vivas, os únicos seres para os quais merece a pena olhar. […] Quão hostis e destrutivos são uns para os outros!».[4]

Num extremo do arco da sua existência temos assim o poder encantatório da infância, caldeado com os saberes que só uma vivência rural permite adquirir: tocar o boi na atafona ou em volta do poço de rega, conhecer os segredos da cozedura do pão, dominar a arte de plantar e colher no tempo certo, jogar à bilharda e ao pião, armar costelos e capoeiras, saber os nomes dos pássaros e identificá-los pelo gorjeio ou a plumagem, perceber o que fazem as andorinhas em voo rasante pelos caminhos.

Ao contrário da ciência, a arte não pode prescindir do «eu». Por isso o narrador vai desfiando a história pessoal de Tumim, evocando as origens do menino aprisionado na teia espessa dos medos infantis. Medo de ir ao alpendre mal iluminado procurar achas para a fogueira ou vides para o forno; (p. 105); medo de atravessar a horta escura que dava acesso à adega, onde o mandavam encher a caneca de vinho (p. 106); medo de passar, à noite, junto do cemitério, com a cesta de comida para a ceia do pessoal da loja (p. 113). Medo, em suma, da escuridão, onde abundam morcegos e esvoaçam mochos e corujas de piar agoirento. O escuro, sempre o escuro, matéria de que eram feitos todos os monstros que povoavam a sua imaginação.

Para lá dos medos e fantasmas, expressão de temores antigos que o homem rural aceitava sem reservas, há também lendas e mitos, como a dos sapos que se transformam em pessoas e estas em sapos, histórias de gambosinos e raviolas, coisas que espelham a fantasia e a sabedoria de um povo. AM desdobra também, perante nós, uma galeria de personagens do maravilhoso popular, como a bruxa, o lobisomem ou a moira encantada. O lugar onde Tumim nasceu, cercado pelo isolamento da época e por ambientes nocturnos de medo e soturnidade, era favorável à superstição e à construção dos equívocos que ajudam a diluir o real no fantástico.

No outro extremo do arco da sua existência temos a reflexão madura – misto de interrogação e balanço – de quem não se esquiva à responsabilidade de dignificar a vida enquanto única oportunidade cósmica. Pelo meio, a procura constante da harmonia, que também só pode ser cósmica, já que Tumim acredita numa humanidade «feita da matéria das estrelas, sendo por isso uma forma de vida derivada da vida cósmica» (p. 99). O arco completo deve aqui entender-se como o desenho de toda a evolução do autor, simples amadurecimento do qual parece arredada qualquer conversão (ruptura) de valores morais ou ideológicos. Um amadurecimento que se afigura mais a síntese da harmonização dos contrários que o resultado da sua ruptura. É isso que AM nos diz, quando compara a memória do que foi vivendo às fibras concêntricas do tronco de um pinheiro: simples acumulação de experiências que «desenvolveram a matriz sem a negar» (p. 119).

Fixemo-nos então no extremo do arco que representa a etapa actual da sua existência. Eis o homem em serena retrospecção, instalado no seu posto de vigia, envolto na «macia penumbra da casa», a contemplar o mar e o azul dum céu «varrido de nuvens» e com a «brisa em repouso» (p. 119). A solidão pode não ter cura quando é um mal que nos vem de dentro. Mas a beleza e a serenidade que irradiam desta descrição de um fim de tarde decerto que ajudam a aliviá-la. São verdadeiros soporíferos de deslumbramento, misto de paisagens e oceanos que fazem bem a quem tem alma de poeta e alguma sede de infinito.

Quase Tudo Nada: três termos que podem ser entendidos como a síntese derradeira de uma vida. O Quase nada tem a ver com o célebre poema homónimo de Mário Sá-Carneiro. De facto, para AM a «disciplina do quase» permitiu-lhe «chegar à beira de cada posição para a conhecer e se cumprir» (p. 120). O seu Quase parece não tocar o Tudo por mera renúncia voluntária, condição essencial na busca da harmonia, já que a vida lhe ensinou que «o sofrimento se origina na fogueira dos desejos; portanto, desejar o menos possível é regra máxima da sabedoria» (p. 124). Ao invés, o do poeta do Orfeu não toca o Tudo porque lhe falta o golpe de asa.

Neste sentido, Tudo remete-nos para a força da vida, o período de pujança e maturidade do autor, e não para qualquer ambição desmedida. Já o termo Nada parece remeter para um final, para a natureza fugaz de todas as coisas, porque tudo é efémero. Como refere AM, «a verdadeira liberdade do ser começa precisamente aí, no essencial desapego dos objectos da comum cobiça» (pp. 97-98).

Este livro mostra-nos a aprendizagem da vida e a lenta construção de um homem em diferentes contextos geográficos, sociais, morais e psicológicos. Um homem que se deixa viver, um pouco à semelhança de Sinclair, cuja maturação emocional e espiritual Hermann Hesse descreve no seu «Demian». Fala-nos de caminhos éticos e de valores humanos, procurando partilhar com os leitores a interrogação à vida e o sentido da existência. Aborda a questão da tolerância e da compaixão pelos outros, mostra-nos o que é realmente importante e valioso, como o viver discretamente, deixando o destaque para a sabedoria e a rectidão de carácter. Um homem assim não confunde a realização pessoal com o exercício de qualquer poder. Acalenta sonhos em vez de ambições.

Em nenhum outro livro AM nos desvenda os estados de alma e nos franqueia as portas para mostrar os veludos da interioridade, como neste. Em nenhum outro o descobrimos tão fascinado com o pormenor. Observador atento e de fina sensibilidade, revela-se um amante da natureza, invariavelmente sábia e com quem todos aprendem. Por isso acredita que uma vez perdida a vestimenta física há-de dissolver-se plenamente nela.

Tempo de reencontro. E de serenidade.

(Texto publicado no Jornal da Bairrada, 11.10.2006, p. 20).


[1] Arsénio Mota, Letras sob Protesto, Porto, Campo das Letras, 2003, p. 164.

[2] Luís Sepúlveda, As Rosas de Atacama, Porto, Edições Asa, 2001, p. 104.

[3] Miguel Torga, Diário XII [2ª. Edição], Coimbra, 1977, p. 79.

[4] David Hume, Diálogos Sobre a Religião Natural, Lisboa, Edições 70, p. 122.

O Vírus Entranhado — de Arsénio Mota

Vírus EntranhadoArsénio Mota acaba de juntar, à sua já extensa bibliografia (contos para crianças, crónicas e ensaios, poesia, novela, monografia) mais um livro, a que deu o título de Vírus Entranhado. E nunca, ao lê-lo, nos pareceu tão ajustada a epígrafe: primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Tratando-se de um livro de contos, não é obra de leitura fácil, daquelas que habitualmente nos conduzem à evasão. O que sobra, no final, é a mais espessa inquietação, uma espécie de abalo sísmico interior que nos sacode da anestesia dos sentidos a que nos condenaram as modernas sociedades do consumo e da comunicação.

Atenção, pois. É preciso atender a uma linguagem toda ela carregada de sentidos, imagens e metáforas. Sem escapar – como adverte o autor – à complexa teia comunicacional onde os indivíduos, aprisionados, «se ensurdecem uns aos outros», não é possível atingir o nível mais profundo destes contos. Há que recusar uma leitura calmante dos textos, para assim atingirmos uma verdadeira gramática dos sentidos – e dos sentimentos – que esta obra nos oferece.

Então escavemos. Para lá da superfície lisa de cada texto, há que encontrar as camadas sucessivas de sentidos subjacentes, para assim se recuperar a estranheza e não a familiaridade do que é dito; para que o implícito dos textos se torne explícito e ao mesmo tempo objecto de descrição. Parece ser isso que o autor verdadeiramente nos propõe em “A explicação do buraco” (pp. 97-102), ao denunciar o mundo das aparências e da ostentação material, despido de qualquer beleza interior.

Nestes contos, o tema da comunicação (e dos seus efeitos perversos) está quase sempre (ou sempre?) presente. Comunicação com o outro, que tanto pode ser o interlocutor físico e humano como a realidade circundante, a paisagem, que também se quer ecologicamente humanizada. É isso que acontece com “Ponte franca”, porventura o texto literária e esteticamente mais conseguido. De forma às vezes imperceptível, os contos parecem estabelecer relação uns com os outros, liames de entendimento que desembocam num conjunto estruturado e coerente de significações. As divagações do autor só aparentemente não têm direcção ou objectivo. As palavras de cada texto transportam, no bojo, um evidente arsenal de intenções.

Arsénio Mota ficciona a realidade. Envolve-a em mistério, com incursões no mundo do fantástico, como acontece em “Morse de morte” (pp. 91-95). Através de múltiplos contrastes, desvenda, às vezes de forma um tanto pessimista e desencantada, as lixeiras e a podridão do nosso viver quotidiano, o estilhaçar dos afectos e identidades, dos ruídos ensurdecedores e dos silêncios que comprometem.

No primeiro conto, “O zumbido”, saltam as crostas da miséria do jornalismo, na figura dos que dobram a cerviz à curvatura de interesses arredios à profissão. Um grito de alerta contra as capelinhas instituídas, as prebendas do dia a dia e as várias sinecuras. Como que a lembrar-nos que o jornalista deve procurar a honra e recusar as honrarias, ser capaz de contornar as armadilhas da lisonja e da abdicação. Numa palavra: deve ser livre. E não são livres os que, em vez de fazer jornalismo autêntico, o usam como trampolim para atingir posições ilegítimas e por isso mesmo aviltantes.

Ao recusar a subversão dos valores sagrados do jornalismo, que as novas tecnologias vieram acentuar, há no jornalista-escritor Arsénio Mota uma espécie de desencanto idêntico ao que um dia acometeu Antero. Autor de inúmeras páginas de qualidade na imprensa do seu tempo, acabou por ser também o mais feroz crítico do jornalismo da época. Os jornalistas eram «bonzos, e não apóstolos», os editores «bárbaros» e a opinião pública um «monstro moderno» que se exprime através da imprensa, «sua boca». Também nesse tempo de mudança para o jornalismo – a fase industrial da imprensa, em que Eduardo Coelho faz do Diário de Notícias um jornal para todos – Antero denunciava que o jornal, para durar, seria necessariamente «o espelho lisonjeiro do público e não o seu severo mestre».

Em “Shopping Center” são ainda as palavras gastas, vazias de conteúdo, despidas de significado, que chamam a atenção do leitor. É notório, neste texto, o empobrecimento das relações interpessoais (sem dúvida as mais gratificantes) que acabam por sucumbir às mãos dos novos instrumentos de mediação. Urge, pois, reabilitar a palavra para tornar o futuro mais humano e solidário.

Em “O tesouro da arca” o que ressalta é a denúncia do brilho enganador dos falsos ouropéis. Um brilho que cega e pode ser fatal para quem navega nas águas do materialismo mais interesseiro. Um antiquário, outrora próspero mas por fim arruinado, transforma-se num desconhecido de si mesmo, embora ganhe consciência que a pobreza pode ser mais rica que a abundância, assim nos mostrando que muitas vezes é através do ouro que o homem começa a empobrecer.

“Toda a nudez” é também um conto lapidar, por nos remeter para a questão decisiva das tecnologias da informação no mundo actual: o seu potencial para a vigilância. Ao descrever as células individuais de paredes transparentes que aprisionam os indivíduos, dispostas em torno de um eixo central, Arsénio Mota alude objectivamente às modernas técnicas de vigilância baseadas no panóptico de Bentham e que Foucault desenvolve posteriormente em Vigiar e Punir. Este panóptico assenta numa estrutura de prisão ideal, dotada de uma torre central, onde é possível ver sem ser visto. Assim, o vigiado torna-se vigilante de si mesmo. A tecnologia moderna consistiria nisso mesmo: na capacidade que tem, enquanto dispositivo de visibilidade, de auto-punir, auto-vigiar, auto-censurar.

Por outro lado, a impossibilidade dos presos verem o vigilante representa o aspecto mais importante desta arquitectura: ela exerce um poder sobre os detidos, ao induzir neles um estado permanente de visibilidade. Em síntese, esta tecnologia reúne o poder, o saber e o controle dos corpos e dos espaços. É contra esta forma de disciplinar e normalizar os cidadãos que Arsénio Mota parece insurgir-se, numa recusa clara do “arquipélago carcereiro” de que fala Foucault. Um verdadeiro grito de alerta contra a possibilidade (cada vez mais real) de um controle totalitário dos cidadãos exercido pelas novas tecnologias da informação.

O big brother orwelliano é hoje uma realidade ameaçadora. Por isso, contra a expropriação crescente da individualidade é preciso atender aos avisos do próprio Orwell: «Não deixem que isso aconteça. Isso depende de vós». Arsénio Mota disse um dia: «Sejamos corajosamente do nosso tempo (…) não nos deixando imergir nele em completa abulia, antes discutindo alguns dos seus traços».

Em O Vírus Entranhado é possível detectar alguns dos traços marcantes do nosso tempo. O livro é fértil em descobertas, algumas naturalmente subjectivas e ao gosto da imaginação de cada leitor. Não deixe pois o leitor de as encontrar.

Verá que vale a pena.


(Texto publicado em Bairrada Cultural – Suplemento de Artes e Letras do Jornal da Bairrada/Soberania do Povo, 30.03.2000, p. 12).

Letras sob Protesto — de Arsénio Mota

Capa jpegNo momento em que assinala meio século de actividade de escrita, Arsénio Mota brinda-nos com mais um livro. São já cinquenta anos de labor, recheados de publicações de vária ordem – textos jornalísticos, ensaios, contos e crónicas, traduções, poesia, literatura infanto-juvenil – saídas da pena de um homem culto, autor vivo e produtivo, consciência eriçada do tempo que lhe cabe viver.

Fica desde já a garantia: a voz que se esconde por detrás das palavras pertence ao homem. Não é falsete. Aqui não há meias tintas, fala-se claro e com espessura. O autor sabe da poda, diz abertamente de que lado está, o que defende e aquilo que o constrange. Letras sob Protesto é, a seu modo, um olhar pouco usual sobre as consequências da cultura dos media no panorama literário actual, uma espécie de balanço da instituição literária, pois aflora o estado da arte nas suas diferentes instâncias: questões que se colocam ao autor, meandros da escrita e da leitura, crítica literária e edição, entre outras.

O livro abre com «O texto aberto». Arsénio Mota discorre com propriedade sobre as técnicas da escrita criativa, as diferentes maneiras de cativar o leitor, a arte de manter aceso o lume da expectativa inicial. Diz ele: «O primeiro parágrafo deve apanhar o leitor inadvertido, com a naturalidade do anzol colocado no caminho do peixe que vai de passagem» (p. 13). Mas não basta passar uma história ao papel para que ela seja aliciante. É preciso que o ritmo da narrativa desenhe uma curva ascendente, capaz de amarrar o leitor, de lhe adubar a imaginação enquanto convive com o texto e faz dele seu acompanhante.

Logo a seguir, o autor empenha-se em mostrar que os textos literários actuais reprimem o que é novo e inovador, ao trocarem tudo isso pela escrita conformista do politicamente correcto. O espaço da criação está cada vez mais reduzido pelas lógicas de mercado. Publica-se o que está a dar (…dinheiro, entenda-se). Os mecanismos da escrita estão agora orientados para seduzir ao primeiro contacto. Escrever assim, apenas aquilo que os outros gostam de ler, não é só um acto calculista: limita também o acto criativo e condiciona a imaginação.

É óbvia, nesta abordagem, a crítica à chamada «literatura light», que os seus adeptos preferem apelidar de «escrita pop» (não vá o termo literatura ser excessivo!). Uma escrita que se sente como peixe na água neste tempo de profetas do fim da história e das ideologias. Puro reino do efémero, uma era do vazio e de amnésia generalizada, onde as técnicas de sedução «substituíram os recursos artísticos da retórica». (p. 15). A literatura «light» vai de vento em popa. Não por acaso, Margarida Rebelo Pinto – a principal cultora do género – é a escritora portuguesa que mais vende. E vende tanto – os seus livros saem às fornadas, como pãezinhos quentes… – que um escritor laureado como é Lobo Antunes não resistiu a recordar-lho: «A menina conseguiu, em três anos, o que eu consegui em trinta».

Quando vemos alguém, na casa dos trinta anos, num país com os hábitos de leitura do nosso, já com mais de 500 000 exemplares vendidos, algumas interrogações se levantam: não terá a sua escrita algum mérito, o de pelo menos saber contar uma história?  Será que estamos apenas na presença de um fenómeno sociológico gerado pelo efeito do marketing? Mesmo admitindo que a escritora vá, com mestria, ao encontro das expectativas dos leitores, a verdade é que grande parte dos críticos não descortina nas suas obras qualidades estéticas apreciáveis. Ela chama-lhes, pois claro … impotentes literários! Ao que apelida de «leveza» da sua escrita, outros preferem chamar, com todas as letras, superficialidade. Pode esta escrita ter alguma validade enquanto diversão, assim como quem ordena selos em catálogos, num tempo de quotidianos amargos e sombrios. Certo, certo, é que é tão leve que consegue voar alto nas listas de vendas. Veremos até quando. O futuro vai dizer se estamos ou não em presença de um sucesso com prazo de validade.

Seria curioso, já agora, saber quem a lê e lhe compra os livros. São os que compram e lêem com regularidade? Ou os que nunca hão-de transformar tais actos em rotina ao longo da vida? Dificilmente estaremos em presença de um salto qualitativo no panorama literário português. Refere Arsénio Mota que a época actual «não brilha pela reformulação inventiva» (.p. 15). Talvez possamos então falar, com mais propriedade, de uma tendência editorial pouco interessada com a qualidade do produto que coloca no mercado. Para ir ao encontro do consumidor os livros devem vender sonhos. Quanto mais ligeira for a dose de informação e elevada a dose de evasão, maior será o sucesso.

Esta questão do sucesso e da notoriedade do escritor remete-nos para outros temas caros a Arsénio Mota e também presentes neste seu livro. «Ser escritor» (pp. 17-20) é um breve mas estimulante ensaio sobre o conceito de escritor, a sua notoriedade ou o estatuto marginal que detém no campo das letras. Se nem todo o autor de um livro é necessariamente um escritor, quem lhe confere tal direito? O barulho de uma árvore a tombar com fragor no meio da floresta existe, se ninguém o escutar? A qualidade do que escreve um autor fica garantida mesmo que ninguém o leia?

O sucesso de um autor – não a qualidade – mede-se em termos de público leitor, por muito que isso custe a uns tantos. Quem escreve aspira a ser lido e os que fingem borrifar-se para isso são geralmente os mais sôfregos. A paráfrase de Miguéis, que abre o livro, é bem esclarecedora: escrever é uma acção inútil ou gratuita: é a leitura que a torna útil.  Mas quem são os leitores que definem hoje o sucesso de uma obra? De que matéria são formados? Eles existem em todas as classes sociais e gostam de se reconhecer cada vez mais idênticos aos outros – no pensamento, nas preferências, nos usos e costumes, nos estilos de vida. Por isso repelem o que é diferente, singular, individual. Habituado a consumir produtos culturais estandardizados, o leitor moderno rejeita os que se lhe apresentam mais elaborados. Numa sociedade cujo quadro de valores está orientado para a felicidade no consumo, consumir a qualquer preço é a palavra de ordem.

Isto leva Arsénio Mota a questionar-nos sobre quem qualifica o autor como escritor, após a publicação de uma obra: «os leitores, com os críticos à frente»? E que tipo de leitores, se eles «se repartem pelas diversas qualidades do público»? (p. 18). Será o resultado dessa amálgama uma qualificação fiável? Confrontando-nos com este tipo de raciocínios, deixa ainda no ar a seguinte interrogação: «não haverá por aí obras de real categoria desprovidas de leitores à sua medida»? (p. 19).

«Não escrevas mais, pá», é um texto alagado de ironia subtil, onde transparece algum pessimismo e o lamento do escritor marginalizado e ignorado pela indústria cultural. Escrever para quê e para quem? Porque teima em escrever quem sabe que nunca vai tornar-se um mandarim das letras, e por isso não procura lucro fácil nem glória? Diz Arsénio Mota que  por semana aterram nas livraria mais de cinquenta livros novos. Parece óbvio que o leitor que trabalha, compra diários, semanários e revistas, que é inundado todos os dias pela variada oferta televisiva e exposto às mensagens publicitárias do cartaz e do outdoor, acaba por se perder nesta densa floresta de palavras e imagens: «tanta escrita a jorrar excede em muito a capacidade real de leitura da gente» (pp. 21-22). Como o tempo não abunda, «a leitura das obras originais anda a ser substituída por leituras de comentários produzidos sobre as obras originais» (p. 22).

O caudal esmagador de informações produzidas pelos media deixa o espírito humano desarmado, condena-o a ser superficial. Uma sociedade da informação não é, necessariamente, uma sociedade informada. O indivíduo inundado por este fluxo de mensagens contraditórias e desordenadas, sem qualquer hierarquia de valores, vê reduzida a estruturação do seu pensamento. Os media introduziram uma densidade de tipo novo na tela da sua cultura. Os estragos são notórios, pois a força de uma cultura está ligada à probabilidade de associações que um saber fragmentário não consente.

O autor sabe tudo isto, mas não larga a freima da escrita, precisa dela como do ar que respira: «Cansas-te a escolher uma a uma as letras, as sílabas, as palavras que colocas em linha com a minúcia escrupulosa de quem enfia pérolas esplêndidas num colar» (p. 21). Não haverá em tal frenesim um acto de puro masoquismo? É que o calvário do escritor não termina aqui! Se deseja publicar, dá de caras com editores que não mexem uma palha para lhe promover os livros, pois crêem que é o autor que vende e não os filhos que ele próprio gera. E para vender tem de se transformar em «marca», o livro já não vende por si mesmo mas pelo marketing que o promove. Hoje compra-se o autor repetidamente publicitado, em vez da obra: «pegamos em Saramago ou Lobo Antunes, Eugénio ou Ramos Rosa, como quem escolhe cozido à portuguesa e linguado frito, com vinho da Bairrada ou do Dão» (p. 28).

Se o autor tem nome na praça, pode acontecer que os editores lhe trabalhem o livro, tracem uma estratégia de marketing ou cuidem de aspectos promocionais. Hoje são os media que regem a cultura dos nossos dias. Eles filtram,  seleccionam elementos particulares, valorizam umas ideias e desvalorizam outras. Em suma, polarizam o campo cultural. Aquilo que não passa nos media perde toda a influência e importância. Aparecer na imprensa ou na televisão e ser entrevistado nas revistas do social é assim tão ou mais importante que o trabalho solitário e minucioso da escrita. Tudo serve para ir ao encontro do leitor. Mas pobre do autor que vive cercado em anonimato: tem de correr por sua conta e risco, palmilhar sozinho os ínvios caminhos do mercado. E no fim da via-sacra acontece, às vezes, não saber ao menos quantos exemplares da obra foram vendidos. Pode até nem receber, a tempo e horas, aquilo que lhe é devido. Um problema, sem dúvida, de propriedade intelectual, já que no plano da cidadania todo o escritor deveria ter direito ao ganha-pão, pelo serviço público que presta.

Pasme agora o leitor com esta verdadeira pedrada no charco, capaz de ofender os deuses – sim, os deuses ofendem-se com a dúvida – do Olimpo literário: Arsénio Mota afiança que ao lermos um autor estrangeiro consagrado podemos estar a comer gato por lebre. Assim mesmo. A paternidade literária pode andar arredia do escritor que nos entusiasma: «Talvez as páginas que leu com enlevo não tenham saído verdadeiramente do cérebro do seu autor favorito!» (p. 95). Descubra o leitor os intrincados meandros desta produção literária que atinge foros de um lamentável processo de fagocitose intelectual. E se pensa que não pode ser ludibriado de forma tão rasteira, atente bem nisto: há tempos, circulou  na Internet um texto atribuído a Gabriel Garcia Márquez. Atormentado por um linfoma, o escritor colombiano despedia-se dos amigos e da vida. A carta, muito bela e cheia de humanidade, tocou toda a gente, de tal modo que alguns homens de cultura da nossa praça não resistiram a comentá-la e a transcrevê-la na imprensa diária de grande tiragem. Foi-se a ver … e a carta era falsa! Toda a gente foi enganada. E o que mais surpreendeu o escritor foi que os seus fiéis leitores tivessem, por um momento, acreditado que semelhante texto fosse seu. Só espero não morrer de vergonha – acrescentou, com evidente ironia. Este exemplo ajuda a perceber como qualquer autor consagrado se pode «alimentar» dos autores anónimos e marginalizados, a quem Arsénio Mota chama, com propriedade, os forçados das letras.

O livro esboça, também, uma espécie de requiem à crítica literária actual. Ora se insurge com a crítica que «passa a deslado de quaisquer comentários» a obras inovadoras, como se estas fossem «pechisbeques insignificantes» (p. 61), ora lamenta que ela se exerça «com a frieza aparente de cientistas vestidos de bata branca» (p. 59). O que parece incomodar Arsénio Mota é uma interpretação literária que tende a considerar a obra autónoma em relação ao criador, ao relegar da análise estética a ética que lhe subjaz. Ao separar o sujeito do objecto, a análise textual procede como o cientista que isola o objecto para melhor aquilatar da matéria que o enforma (por isso se fala tanto em «dissecar», em «esquartejar» o texto). Pode analisar-se a obra literária silenciando a voz humana que a comanda? Tanta «objectividade», tanto bisturi da crítica a esquartejar o texto – esquecendo que os textos falam e têm por detrás um criador que é humano – ajudam à compreensão da obra? Por muito brilhantes (mas também quase sempre densas e obscuras) que sejam as tipologias e classificações académicas, a compreensão do texto literário fica diminuída se lhe escapa a componente humanista e as circunstâncias histórico-culturais em que nasce e é produzido.

Ao contrário dos que desdenham por completo de toda a crítica literária – uns dizem que ela não existe, outros que os críticos gostam de cuspir na sopa que os alimenta… – Arsénio Mota considera o seu papel insubstituível, enquanto veículo pedagógico de esclarecimento para potenciais leitores e capaz de nos restituir o prazer do texto. Aspira a uma crítica literária não manietada pela lógica do mercado e não submetida a cânones académicos, que mais parecem servir para agradar aos mestres do que para iluminar e esclarecer leitores. Na verdade, há por aí críticos que transformam os textos em algo bem mais trabalhoso e enfadonho que os próprios livros que comentam. Empenham-se na desconstrução do texto e na arqueologia do saber com tal apego, para nos dar a substância última da matéria literária, que reduzem a quase nada as possibilidades de compreensão de quem os lê (é aquilo a que Fernando Venâncio chama «magia negra foucaultiana»).

O que anima Arsénio Mota é o desejo de uma crítica exercida com regularidade nos órgãos de comunicação social, feita por jornalistas competentes, frontal e isenta, «sem olhar a amiguismos, sem fretes a editoras» (p. 63) e não a que se tornou domínio de raros especialistas de linguística. É preciso «descativar a crítica literária dos feudos universitários que algum dano lhe têm feito» (p. 62). E que os críticos joeirem tudo, dando-nos a ver as pepitas reluzentes, pois sem o brilho da publicidade permanecerão invisíveis ao olhar. No mar dos sargaços literário também há peixes de águas profundas que precisam de vir à tona. Só com eles é possível resgatar a polifonia de vozes silenciada pela lógica de ferro do mercado da cultura. Neles residirá a esperança de alguma inovação estética e a originalidade possível, ao arrepio das fórmulas do sucesso garantido.

Um dos méritos de Letras sob Protesto é o de todos os temas suscitarem dúvidas e interrogações, serem textos pouco recomendáveis a espíritos amolecidos, num tempo em que a fuga ao acto de pensar é uma das marcas distintivas do homem contemporâneo. Arsénio Mota corre os riscos próprios de quem se expõe de peito aberto à intempérie, ao indagar os porquês do sucesso rápido e a razão pela qual os holofotes da publicidade incidem apenas em meia dúzia de escritores. Arrisca-se a que lhe chamem preconceituoso, por aparentemente se preocupar com quem vende muito; ou até elitista, quando se refere às elites culturais que dantes qualificavam uma obra, ou quando fala em «indispensáveis elites de leitores» (p. 39), capazes de apoiarem os autores marginais, essa «multidão que de norte a sul se espelha em livros, revistas e jornais, pelo prazer, que é pulsão, de escrever e publicar, recebendo, quando recebe, os três tostões de mel coado da praxe» (pp.145-146). É neles que deposita a esperança de renovação da literatura e por isso lhes presta comovente homenagem, em Autor, eterno amador.

Elitista, Arsénio Mota? O que o preocupa verdadeiramente, em todo o livro, são as consequências nefastas, para a literatura, de um certo credo populista e igualitário que por aí campeia e dá lustro à mediocridade reinante. É no que tem dado o preconceito contra as elites: uma visível e notória incapacidade de produzir a excelência.

Na sua cruzada cívica contra o desgaste acentuado dos humanismos (o homem-massa, segundo Ortega Y Gasset, é a antítese do humanista culto) o autor vê nesta sociedade, em que o jogo e o espectáculo são hipervalorizados, um momento de crise e não de solidificação da cultura. Uma sociedade onde a concepção de vida é norteada pelo êxito fulgurante e pelo mito da eterna juventude, e em que a prática quotidiana dos media consiste em colorir, artificialmente, os fenómenos culturais com um valor emocional, só pode estar a gerar, no seu ventre, o fermento da mudança. Do que se trata, então, é de congeminar saídas e enfrentar a crise, orientando-a num sentido não alienante e embrutecedor.

Como lidar então com os media? Como utilizá-los? Em proveito de quê e de quem?  Arsénio Mota parece  defender que eles devem estar em sintonia com a importância real dos acontecimentos, das ideias e produtos culturais, em vez de se preocuparem com o critério do maior número. A partir do momento em que qualquer ideia ou conhecimento são importantes eles devem ser acessíveis, para lá de qualquer lógica de mercado. Fazer isto é sobretudo uma questão de vontade, não de possibilidade.

Letras sob Protesto é a denúncia da simplificação acelerada da literatura e das leituras massificadas. Ergue-se contra a homogeneização dos gostos, a submissão do acto criativo a cálculos de rentabilidade imediata. Só uma nova cultura crítica – como nos propõe Arsénio Mota, fazendo uso dessa antiga arma de precisão que é a lucidez – poderá salvar a instituição literária da teia de enredos em que se deixou aprisionar.

O livro faz o que pode para que a atitude crítica não adormeça, pois o autor sabe que tal adormecimento é estrume do melhor para os totalitarismos que sempre espreitam. Confiar no darwinismo cultural quando se fala em literatura – e sobretudo quando o mercado impera – é um tanto arriscado: uma obra literária não vinga e resiste apenas porque tem qualidade. Não basta aos autores anónimos que se acantonem num qualquer espaço autónomo, onde confluem os que não aceitam ou não querem entrar nas regra do jogo que o mercado lhes dita. É preciso criticar, em vez de ignorar. Com a consciência que não será fácil criar condições para que o «público em geral» aceda, de ânimo leve, aos chamados produtos culturais de qualidade.

O que aqui se deixa são apenas algumas iguarias do prato suculento que em boa hora Arsénio Mota nos serviu. O leitor pode e deve digeri-lo até ao fim, sem risco de empanturrar, como quem se delicia com o que não lhe é dado saborear todos os dias. Sim, porque a literatura – tal como dizia Natália Correia da poesia – também é para comer. Ou não vagueassem por aí os subalimentados do sonho e do espírito, padecimentos de que todos, em maior ou menor grau, sofremos um pouco.

 

O neo-realismo nos suplementos culturais da imprensa regional — os casos de “Companha” e “Independência Literária”

1. Objectivos

Reconhecida a importância da imprensa cultural na formação do neo-realismo, este trabalho procura corresponder a dois objectivos essenciais: i) identificar a presença de escritores, autores ou simples colaboradores dos suplementos culturais Companha (do semanário aveirense Litoral) e Independência Literária (do semanário Independência de Águeda) que tenham dado expressão do neo-realismo, fazendo-lhe alusão ou divulgando-o nas referidas publicações. ii) relevar problemáticas com ele relacionadas, resultantes do confronto com as propostas estético-literárias de movimentos que o precederam – como é o caso da Presença –  de outros que com ele se cruzam, como o Surrealismo e o Existencialismo, ou até da franca oposição – quanto à visão do mundo, à noção de função da arte e ao papel do artista na sociedade contemporânea – de alguns movimentos de vanguarda e contracultura que emergem e ensaiam novas perspectivas de criação durante a década de 60 do século passado, à revelia do social e às vezes da própria obra realizada, como acontece com o experimentalismo, o concretismo ou o novo romance.

Referindo-se às vanguardas, diz Natália Correia: “Toda a arte de vanguarda, quando aparece, sofre o baptismo de sangue neste campo de batalha onde implacavelmente se define a solidez de que é formada cada uma das linhas. Tudo o que é surpreendentemente novo soa, em contraste com os valores pré-existentes que denuncia, de forma dissonante”. Ao considerar que a diversidade de opiniões é a razão de ser de qualquer meio artístico, Natália Correia não concebe um ambiente artístico e literário “que não seja agitado por ondas de concorrência e de apaixonada controvérsia que provoquem a fermentação das potencialidades existentes”.[1]

Para alcançar tal desiderato devemos ter em conta os mal-entendidos gerados em torno destas correntes de opinião. Todas elas foram, a um tempo, “vítima e carrasco, simultaneamente, como se passa com todos os movimentos literários, hoje executor e amanhã executado, injusto no presente, injustiçado no futuro [já que há] na teoria do neo-realismo, como em todas as teorias de movimentos artísticos emergentes, uma defesa e apologia do que surge e um ataque ao que se pretende ultrapassar”.[2] Para tal reputação terão contribuído as mais variadas polémicas, com “muito de um desperdício que um pouco mais de serenidade e um pouco menos de ideologia teriam evitado”.[3]

Uma vez que o suplemento Companha se resume apenas a quatro exemplares, enquanto o suplemento Independência Literária editou trinta, a que devem acrescentar-se mais dois da segunda série, optou-se por proceder a uma análise mais exaustiva de alguns textos inseridos na primeira destas publicações.

 2. Anos 60 em Portugal: relance político e cultural

Pareceu-nos pertinente dar breve nota do panorama político, social e cultural dos anos 60 do século XX português, o qual vai servir de pano de fundo para contextualizar a análise dos suplementos culturais Companha, que aparece em Setembro de 1959, e Independência Literária, cujo primeiro número vê a luz do dia em Outubro de 1961.

A nível político, no final dos anos 50 recrudesce a luta da oposição democrática. A mobilização popular em torno da candidatura de Humberto Delgado galvaniza o País. Se ganhasse, Salazar teria o destino traçado: “obviamente demito-o” – sentenciou o “general sem medo”. A recepção apoteótica que teve no Porto, cidade-símbolo de tantas lutas pela liberdade, significou um primeiro momento de viragem na arrancada democrática que viria a desaguar na revolução de Abril de 1974.

A década de 60 começa com um rude golpe para a credibilidade do regime e um renovado alento para as hostes oposicionistas: a grande evasão de presos políticos da aparentemente inexpugnável prisão-fortaleza de Peniche. Os anos seguintes seriam marcados pelas lutas académicas e associativas de 1962 (Lisboa) e 1969 (Coimbra), mostrando que os estudantes tinham perdido o medo e o respeito pelos mitos do regime. O aumento exponencial da emigração – sobretudo para França, mas também para a Venezuela, a que deve acrescentar-se a ida de muitos jovens para a pesca do bacalhau, como forma de fugirem à guerra – teve consequências inevitáveis a nível económico, social e das próprias mentalidades. O início e o agravamento da guerra colonial ajudavam a isolar uma ditadura que tinha escapado à democratização europeia do pós-guerra e à sua dinâmica descolonizadora. O ano de 1961 não dá descanso a Salazar: em Goa surgem problemas com a União Indiana; os movimentos rebeldes africanos encetam acções de guerrilha e manobram no campo diplomático. A reacção não se faz esperar: rapidamente e em força para as colónias. Assim se fez à guerra, com partida do cais de Alcântara, o primeiro contingente de tropas para Angola. Muitos não regressariam. Outros sim, só que alguns vinham diferentes.

O aparecimento de Independência Literária coincide, no plano político, com o crescente isolamento internacional de Portugal. Em Janeiro de 1961, primeiro ano da sua publicação, é assaltado e ocupado o paquete Santa Maria – rebaptizado de Santa Liberdade – com o intuito de despertar a atenção mundial para a situação política de opressão que se abatia sobre os portugueses. Em Fevereiro, militantes anticoloniais angolanos tomam de assalto o quartel da PSP e a delegação da Emissora Nacional. Na resposta, as forças repressivas da ditadura massacram milhares de angolanos dos musseques de Luanda. Em Março são chacinados colonos nas fazendas do Uíje e muitos outros batem em retirada. Com o alastrar das greves e movimentos insurrecionais, o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral da ONU discutem a situação das colónias portuguesas. Em Abril dá-se o golpe de estado palaciano de Botelho Moniz, para tentar afastar Salazar, e são enviadas as primeiras tropas portuguesas para o norte de Angola, gesto que assinala o início da guerra colonial que vai perdurar até 1974. Em Agosto é atacado e invadido o enclave português do forte de S. João Baptista de Ajudá, na República de Daomé. Em Novembro Palma Inácio desvia um avião da TAP e lança sobre Lisboa panfletos anti-Estado Novo. Nesse mesmo mês a PIDE assassina o escultor e militante comunista José Dias Coelho.

A assinalar o clandestino e perigoso combate que as forças da oposição democrática travaram contra o Estado Novo, temos ainda a malograda tentativa de assalto ao quartel de Beja (1962), o assassínio de Humberto Delgado pela polícia política do regime (1965), a extinção, pelo governo de Salazar, da Sociedade Portuguesa de Escritores após a sua sede ter sido vandalizada pela PIDE e pela Legião Portuguesa (1965), o assalto à agência do Banco de Portugal da Figueira da Foz por uma brigada oposicionista chefiada por Palma Inácio (1967), bem como grandes manifestações de estudantes universitários junto à embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, em protesto contra a guerra do Vietname, pretexto indirecto para criticar a guerra colonial portuguesa (1969).[4] Entretanto, em 1968 Salazar tombava da cadeira. Metáfora dum país em queda, a semear esperanças nas hostes oposicionistas. Muitos acreditaram que o regime tinha os dias contados. Puro engano. Tombariam ainda muitos sonhos de redentoras alvoradas, durante seis penosos anos, até ser possível viver “o dia inicial, inteiro e limpo” eternizado em verso por Sophia.

2.1 Imprensa: tempos de estagnação e tempos de mudança

Antes da década de 60, as tentativas para publicar jornais literários ou não passavam disso mesmo ou definhavam rapidamente, por falta de leitores. Apesar disso, Mário Braga dá conta, em comunicação ao I Encontro dos Orientadores das Secções Culturais da Província, que decorreu na Figueira da Foz nos dias 28 e 29 de Setembro de 1963 e no qual esteve presente, em representação da revista Vértice, que na década de 1940-50 chegaram a publicar-se, simultaneamente e só em jornais de província, mais de quarenta páginas e suplementos culturais, tendo alguns deles desempenhado “um papel de muito relevo no breve surto de actividade intelectual que então animou o país”.[5]

Num país pequeno e com grande percentagem de analfabetos (49% em 1940 e 40,4% em 1950, o que colocava Portugal no “último lugar europeu”[6]) tornava-se difícil operar uma verdadeira reforma das mentalidades e atingir níveis mais elevados de desenvolvimento económico, social e cultural. Viviam-se tempos em que para muitos sectores populacionais carenciados era difícil suportar os custos da instrução, a que se deve acrescentar uma ténue predisposição para mandar os filhos à escola, fruto de uma cultura pouco valorizadora do sistema escolar formal. Em tal contexto, não era fácil encontrar colaboradores assíduos e suficientemente cultos para evitar palanfrórios sem sentido e apostar decisivamente na cultura. Mas é também nesses espaços geográficos mais afastados dos centros urbanos que os suplementos culturais mais razão têm de existir. Valem, essencialmente, “não só pelo que representam de renovação em ambientes retrógrados ou desactualizados, mas também e principalmente por serem veículos de consciencialização cultural”.[7]

Assistia-se, na opinião de António Sérgio, a uma invasão dos periódicos pela “produção caudalosa de escrevinhadores que não pensam, mas que o público admira porque é inculto (…) já que o anti-intelectualismo é que está na moda, no barroco período que atravessa o Mundo”.[8] Afinando pelo mesmo diapasão, Maria Archer considera inviável, no Portugal dos anos 50, o aparecimento de um jornal de letras digno desse nome. E explica porquê: “O público desinteressou-se das nossas folhas desse género, porque as encontra desactualizadas e com sabor a chá de Tolentino. Letras amputadas do pensamento; artes espartilhadas num neoclassicismo oficial; ciências impedidas de discutir a sério religião, pedagogia, psicofisiologia, etc.; enfim, um jornal deste modo ordenado e dirigido torna-se um armazém de artigos e crónicas insossas”.[9] Reflexos de um País pouco habituado ao diálogo, em que a imprensa surgia como “actividade semeada de obstáculos, travões, arbitrariedades e pressões da mais variada espécie”, em que a república das letras se caracterizava pelas capelinhas do elogio mútuo, num ambiente em que “escasseiam os capazes de acção e sobejam os pregadores de rótulos, os críticos de café e as eternas vítimas de perseguições”.[10]

Já nos anos 60, no momento em que era anunciado o I Encontro dos Suplementos e Páginas Culturais da Imprensa Regional, alvitrou-se ser necessário criar uma organização, à escala nacional, capaz de assegurar uma boa e regular colaboração a distribuir pelos vários suplementos. Apesar dos seus directores não estarem obrigados a publicar tais trabalhos – houve mesmo quem visse nessa proposta de colaboração centralizada uma política de dirigismo cultural semelhante à do Estado Novo – reconhecia-se não haver qualquer inconveniente em que os mesmos artigos vissem a luz do dia em diferentes publicações, “pois a massa dos leitores é totalmente diferente de jornal para jornal”. Essa colaboração, centralizada, devia incluir o serviço de gravuras ou mesmo a realização de gráficos ou inquéritos para averiguar a audiência dessas páginas junto do público. O apelo era feito à Sociedade Portuguesa de Escritores, que deveria “recomeçar ou activar os trabalhos de um projecto que muito oportunamente encetou”.[11] A ideia de permutar colaborações ou transcrever – à semelhança do que já acontecia nos cineclubes – textos publicados noutros suplementos, agradava aos que sentiam na pele a falta de colaboração para os suplementos culturais de que eram responsáveis. António Augusto Menano confessa, por essa altura, o problema que o aflige: “estou sozinho. Aos amigos, que me vão enviando e obtendo colaborações, se deve o facto de ainda não ter morrido Hoje e Amanhã que, se não sai todas as semanas, à pobreza o deve”.[12]

 Em 1964, no II Encontro das secções culturais dos jornais de província, que decorreu em Cascais nos dias 13 e 14 de Junho, Manuel Ferreira – então representante da Sociedade Portuguesa de Escritores – manifestou a ideia de que a cultura “não se pode fazer apenas em determinadas linhas ao nível superior, mas o seu trabalho terá que aproveitar todas as linhas de força da cultura nacional.[13] Pressente-se, nesta abordagem aos problemas da produção e difusão cultural, o aflorar dum tema sempre polémico: o que consiste em renunciar, ou não, “a um elitismo que perpetua a dimensão de classe: o olhar da superestrutura para a base, do intelectual para o povo”.[14] Curiosamente, em 1969 Mário Sacramento confidenciará no seu diário, após ter dirigido em Guimarães o V Encontro da Imprensa Cultural: “os homens que tudo julgam resolver puxando o topo para a base queriam que os escritores andassem a jogar o berlinde com eles pelos jornais da província”.[15]

Imersos nesta “atmosfera de descrença que parece respirar-se em toda a parte”[16], quem se abalançasse à publicação de um jornal de letras ou de um simples suplemento literário e artístico bem merecia ser “promovido a herói nacional”.[17] Para a maior parte dos jornais de província, existir – confessava Santos Simões, coordenador de “Letras e Artes”, do Notícias de Guimarães – “já constitui um acto de heroicidade”.[18] David Cristo e Arsénio Mota, respectivamente nos suplementos Companha e Independência Literária, acabariam por protagonizar esse heroísmo. Souberam erguer-se em haste de coragem a favor da divulgação cultural, apesar das dificuldades que tinham de enfrentar e contornar: a proverbial falta de colaboradores qualificados, o cepticismo e o desinteresse de muitas redacções dos jornais aos quais estavam subordinados os suplementos, as dificuldades económicas e também de natureza técnica e tipográfica, bem como os problemas com a censura. Muitas vezes, para o suplemento estar na rua a tempo e horas, “o coordenador tem a ingrata tarefa de o escrever pelo menos em 50%”.[19]

David Cristo e Arsénio Mota abalançaram-se de forma temerária nesta ingente tarefa, certamente depois de verificadas as condições mínimas de partida que pudessem garantir o sucesso das respectivas publicações. Ambos desejavam sentir o pulsar da vida literária e artística e incutir, sobretudo nos talentos das gerações mais jovens, o gosto pela cultura autêntica, dar a conhecer os seus trabalhos, os seus projectos ou os seus sonhos. Acrescente-se que Arsénio Mota era, à data, um jovem que acabava de roçar o batente dos trinta. O espírito de iniciativa e a natureza criadora de que já então dava mostras, fizeram dele “um orientador sério de um dos bons suplementos culturais que entre nós se publicam […]. Do seu trabalho em prol da Cultura diz melhor do que nós o faríamos o suplemento Independência Literária, que dirige, não como amador, mas com rara capacidade profissional”.[20] A função principal das secções culturais da província era, para si, a de uma “clivagem da mineral indiferença pela vida cultural do público leitor pelos órgãos da imprensa provinciana”.[21]

A nível cultural e mais especificamente no campo dos media, a partir da segunda metade da década de 50 assistimos a momentos de viragem, a sinais de mudança no jornalismo português. Há uma subtil e lenta renovação dos quadros, numa época em que os candidatos a jornalistas esbarravam com redacções fechadas e em que apenas a colaboração esporádica, ou os contactos privilegiados com gente da direcção ou da redacção podiam representar uma oportunidade de emprego. Eram tempos em que num mesmo edifício conviviam jornalistas, revisores, linotipistas e tipógrafos. Em que a rotina era pontuada “pelo ritual do envio diário das provas para a Censura, a espera pela sua devolução, a eventual ‘negociação’ entre o chefe de redacção e os censores, a integração dos cortes, se tivessem sido feitos, a substituição à última hora por outras peças, quando a matéria tinha sido demasiado adulterada”.[22] Esse processo de sujeição dos jornais à Censura gerava também mecanismos de autocensura: “O jornalista só escrevia o que achava susceptível de ‘passar’; as chefias, preocupadas com a feitura do jornal, só deixavam passar o que não tivesse hipótese de ficar retido (a atrasar o jornal) nos serviços de censura; a Direcção só permitia o que não levantasse problemas à saída do jornal e, por último, a prova seguia o caminho que a censura deliberasse”.[23]

Os sinais de viragem – não propriamente no domínio da censura – surgem em 1956 com as emissões experimentais da RTP, que decorrem entre 4 e 30 de Setembro para os frequentadores da Feira Popular, em Lisboa. As emissões regulares começam em Março de 1957 e, apesar de rigorosamente vigiadas, com elas a informação começa a identificar-se, cada vez mais, com a evolução tecnológica. Entretanto, nas redacções dos jornais generaliza-se o gravador portátil, assiste-se à introdução da máquina de escrever e ao telex, que na década de 50 não existiam ou tinham um uso bastante limitado. A composição social das redacções também se altera: aparecem mais jovens licenciados, ou com frequência universitária. Esse arejamento do jornalismo português vai também beneficiar com a entrada em cena de novos empresários, sensíveis aos ventos da modernização que sopram nos inícios da década de 60: é o caso de António Ruella Ramos no Diário de Lisboa e de Francisco Pinto Balsemão no Diário Popular.

É neste contexto de mudança que surge uma maior preocupação com a cultura e se rasgam clareiras para os suplementos culturais nos anos 50 e 60. Assim, no que à imprensa diz respeito, vamos assistir, para lá do aparecimento das revistas literárias e de suplementos de jornais diários, entre outros, “Vida Literária e Artística” (Diário de Lisboa), “Quinta-Feira à Tarde” (Diário Popular), “Cultura e Arte” (Comércio do Porto), “Das Artes e das Letras” (Primeiro de Janeiro), “Suplemento Literário”[24] (Jornal de Notícias), “Diálogo” (Diário Ilustrado, vespertino criado em 1956), à emergência de suplementos culturais distribuídos com os periódicos da então chamada imprensa regional da província. Esses suplementos acabaram por representar um “campo propício para o desabrochar de vocações críticas e contribuíram, de modo determinante, para a formação de muitos dos que se iam iniciando na vida literária”.[25]

Supl. iário Lisboa, p. 9

Como é sabido, já no século XIX o jornalismo ajudara a minorar as dificuldades económicas de alguns escritores, ajudando outros a sair do anonimato. À custa de artigos e folhetins que faziam publicar na imprensa, muitos acabaram por obter recursos económicos e notoriedade numa altura em que não era fácil o contacto com os leitores e a edição de livros estava longe de sustentar quem os publicava. Alexandre Herculano editou uma História de cunho popular na revista O Panorama, que albergou também, em folhetins, Lendas e Narrativas. As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis, seriam publicadas inicialmente em folhetins no Jornal do Porto. Por essa altura, as actividades de jornalista e de escritor conviviam de forma pacífica na mente dos portugueses. Era o tempo em que Camilo escrevia na Gazeta Literária do Porto e Eça publicava, na Revista Ocidental, em 1875, a primeira versão de O Crime do Padre Amaro.  Era o tempo de Júlio César Machado, em que o folhetim de imprensa ganhava pergaminhos de manifestação cultural de primeira grandeza. Ou o de António Pedro Lopes de Mendonça, que travou em 1853, nas páginas dos jornais O Português e A Revolução de Setembro, uma notável polémica com Alexandre Herculano sobre questões – simbolizadas na construção dos caminhos de ferro – tão candentes como a identidade nacional, o conceito de Pátria ou a descentralização do país.[26]

Nos anos 60 do século XX raras eram as localidades com algum desenvolvimento económico-social que não dispunham de um jornal regional. Cada um desses jornais procura ser porta-voz dos anseios do concelho ou da região em que se insere e um lídimo defensor dos seus interesses. Apesar de haver suplementos culturais sem a qualidade desejada, numa perspectiva literária e jornalística, cumpriam pelo menos a função de noticiar junto dos leitores as várias iniciativas do campo cultural, como realizações teatrais ou a edição de livros, além de servirem de iniciação aos mais novos. A sua crescente importância tinha a ver com a forma como (não) era tratada a cultura nos jornais noticiosos ou de opinião. Foi a “menorização da cultura no corpo principal dos jornais” que esteve na base da criação dos suplementos literários e culturais.[27] Tratava-se de ir ao encontro das preocupações quotidianas do seu público, num registo que a informação de larga audiência não pode fornecer. Isto num tempo em que não existia, tão vincada como hoje, a ameaça do audiovisual que tende a ocupar o espaço da informação imediata e directa. A imprensa tinha sabido resistir à rádio e à televisão, disputando com elas a complementaridade e não a concorrência.

Se o coração do jornal regional tem que bater pela região, não é menos verdade que um jornal não é só aquilo que quem o faz pretende que ele seja: é também aquilo que o público leitor, a dado momento, exige que ele lhe dê. Os suplementos da imprensa regional mostram a evolução e as novidades que vão surgindo no campo das letras e das artes em geral e suprem, também, uma lacuna: publicam a crítica de livros, quase sempre menosprezada nos jornais literários –  e por maioria de razão em todos os outros – durante os anos 50. Mas, como reconhecia António Augusto Menano em 1963, num inquérito promovido por Independência Literária destinado a carrear informação para debate no anunciado e então designado I Encontro dos Orientadores das Secções Culturais da Província, estes jornais deviam cumprir uma tarefa bem diferente da que cumpre a maioria dos periódicos regionalistas. Em seu entender, à imprensa regional não bastava noticiar doenças, casamentos, anseios ou esperanças locais. Importante seria fornecer ao “leitor popular” uma formação cultural “indispensável para construir um público leitor directamente interessado em algo mais do que o futebol. Não cumpre esclarecidamente a sua função um jornal de província que ignora a cultura”.[28]

Não deixa de ser curiosa esta alusão ao futebol como factor de alienação popular. Uns meses antes, o escritor Manuel Ferreira vinha a terreiro com um texto significativamente intitulado “Vento ruim nas culturas regionais”, no qual se insurge contra a cada vez mais notória função alienante do futebol. Depois de se ter instalado nas pequenas colectivdades, tudo passou a ser diferente: “A sala de exposições e conferências tornou-se a sala dos dias grandes da vitória. A dependência da biblioteca em arrecadação de botas. O convívio, o diálogo, as palavras de sonho e de esperança […] deram lugar à discussão azeda, à crítica estéril e impiedosa dos desafios que se perderam […] o futebol passou nas associações modestas, mas tão úteis, como o vento impiedoso da desagregação”.[29]

Tal como o futebol, também o folclore cumpriria essa função de alienação popular. Fernando Lopes Graça considerava mesmo os ranchos folclóricos “meras contrafacções” da cultura popular genuína.[30] Assistia-se, no início dos anos 60, a uma “desbocada supervalorização de todas as manifestações folclóricas” como forma de manter o povo “alapado no seu primitivismo secular”.[31] Como é sabido, a etnografia (folclore) funcionou como legitimação política do nacionalismo do Estado Novo e da sua doutrina em geral. O texto inserido em Independência Literária procurava resistir a um modelo específico de cultura popular, imposto precisamente por aqueles que lhe devotavam um desprezo ostensivo e dessa forma acentuavam, ainda mais, a distância entre o povo e as elites.[32]

Em nome de um ambíguo conceito de arte e cultura popular, procedia-se à adulteração “dos motivos populares autênticos, pela sua estilização (ou esterilização?) até ao irreconhecível, que reclamando-se do folclore nacional, o corrompe e cristaliza em formas artificiais”.[33] Estas denúncias nos jornais de província aconteciam num tempo em que grande parte da imprensa – com poder e associada ao poder – ajudava ao culto da ignorância  e a uma deplorável confusão de valores, conduzindo inevitavelmente “ao delírio do futebol, ao ópio do fado e a essas tristes exibições de mau gosto, incultura e boçalidade que são os programas radiopublicitários”.[34] Contra este estado de coisas vão opor-se os neo-realistas. Ao “etnografismo domesticado e  propagandístico” do Estado Novo vão contrapor uma concepção de etnografismo que se insere “numa dinâmica cultural revolucionária”, assente num “enraizamento interligado com uma cultura universalista de emancipação do homem”.[35] Como por aqui se vê, a imprensa cultural funcionava como instrumento de resistência e espaço privilegiado de difusão de uma cultura popular autónoma, à revelia da que era propagandeada pelo poder constituído.

O aparecimento de páginas ou suplementos literários em jornais de província obedecia, em regra, aos seguintes objectivos: abrir as suas colunas não apenas à informação regional, mas também à formação cultural; estar aberto a todas as colaborações e não apenas a um feixe de opiniões convergentes em torno de um qualquer movimento literário ou artístico; finalmente, dar a vez e a voz aos jovens, no convencimento de que a verdadeira capacidade dos mais velhos consiste em saber dar lugar aos novos. O aparecimento de revistas ou jornais tem sempre a ver com o aparecimento de um grupo, tendência ou vanguarda; com a tentativa de promover a satisfação cultural do público ou, até, com a vontade de “criar um espaço de divulgação para os escritores inéditos ou esquecidos”.[36]

Era isso que sintetizava exemplarmente António Augusto Menano, quando começou a publicar-se, na Figueira da Foz, o suplemento literário do jornal Mar Alto: “Não compete às páginas dos jornais de província erguer gritos demagógicos, condenando, endeusando ou obnubilando conforme o bel-prazer de quem nelas colabora. Não cremos ser essa a nossa tarefa; antes, pelo contrário, trazer às nossas colunas o nome ou a colaboração de todos os que, consagrados ou desconhecidos, entendem que a cultura é a dimensão de um povo, e que a sinceridade, a temporalidade, o talento e, sobretudo, a honestidade são a recomendação da obra e do artista. Razão pela qual não somos um movimento e as nossas colunas estão abertas à colaboração de todos”.[37] Digamos que cumprir esse desiderato significava não se assumir como jornal de partido nem permitir que alguém tirasse partido do jornal. António Augusto Menano estava apostado num debate cultural que fosse ao encontro de um público necessariamente heterogéneo, o que pressupunha não ceder à tentação de deslizar para qualquer tipo de ortodoxias políticas, literárias ou estéticas e saber renunciar ao espírito de capelinha, às tribunas só para os amigos.

Importa também referir o importante papel de divulgação e difusão cultural desempenhado por jornais e revistas dos anos 60 como o Jornal de Letras e Artes ou O Tempo e o Modo, na divulgação de novas vanguardas e propostas literárias. Aí podemos encontrar, sobretudo no jornal dirigido por Azevedo Soares (cuja publicação se iniciou em 1961), abundantes textos informativos e artigos críticos sobre o neo-realismo, o existencialismo, o formalismo, o estruturalismo ou o Nouveau Roman, moda romanesca oriunda de França que contribuiu para “informar as tendências de ‘ensimesmamento’ literário dos anos 60 e 70 em Portugal”.[38]

O Tempo e o Modo p. 14Também outros periódicos (como o Comércio do Funchal, onde pontificava Vicente Jorge Silva, o Jornal do Fundão, dirigido por António Paulouro, Flor do Tâmega, de Amarante e Notícias da Amadora), apelidados na década de 60 de “jornais provincianos”, prosseguiam um notável esforço de valorização das actividades literárias e artísticas em geral, mau grado as notórias dificuldades com que se debatiam.[39] O mesmo se diga, bem longe do continente, de publicações como A Voz de Moçambique, Notícias, de Lourenço Marques, um jornal de referência dessa época, fundado pelo capitão Simões Vaz, ou de outros sonhos jornalísticos mais ou menos fugazes, porque cercados pelo poder político ou económico, como A Voz de Moçambique (onde colaboravam Rui Knopfli e Eugénio Lisboa), a Voz Africana ou o diário Tribuna, que Ilídio Rocha ajudou a fundar.[40]

2.2 Imprensa e censura

Analisar a imprensa de uma época permite captar a dimensão ideo­lógica e política da sociedade desse tempo. Há mesmo quem a considere “o indicador mais digno de fé e o mais negli­genciado”.[41] A prova de que a historiografia de há muito reconhece o valor da im­prensa periódica como fonte histórica está nas preocupações com que aconselha a sua preservação. É que “ao assumir feição memorialista no instante em que aparen­temente morre, o jornal adquire a pátina documental que o torna tão digno de consideração como as demais fontes históricas”.[42]

A imprensa, enquanto arquivo do quotidiano, reflecte as tendências de uma época, permite estudar comparati­vamente a forma como certos factos são narrados em diferentes jornais, analisá-los enquanto órgãos de expressão de um partido político e, até, identificar a clientela dos seus leitores com determinadas famílias políticas.[43] Mas a sua leitura requer também preocupações especiais, como adverte Henri Berr, ao salientar que a imprensa periódica nos oferece “uma prodigiosa [mas também] uma perigosa do­cumentação: espelho de múltiplas facetas em que a imagem da vida aparece singu­larmente confusa”.[44]

O papel activo da imprensa na vida social e política e no processo de forma­ção da opinião pública, a sua função de porta-voz de grupos de interesses e de in­formação e orientação em momentos conturbados da vida nacional, são aspectos a não desprezar. Como referia Foucault, a história, o discurso – e, portanto, também o discurso jornalístico – é uma representação das relações de força e de poder de um tempo, de uma época. António Pedro Pita, ao debruçar-se sobre o neo-realismo, mostra que as páginas de literatura e arte dos jornais regionais, assim como das publicações de circulação nacional, permitem, a partir de 1933, “rastrear a ocorrência de teses fundamentais do materialismo histórico [já que] constituem, para a geração que desencadeou o neo-realismo, os meios de definição de uma estratégia sistemática”.[45]

É sobretudo em épocas de tensão e crise que gover­nos e grupos de pressão sentem maior apetência pelo controlo da imprensa e demais publicações periódicas, aproveitando-se da sua função ideológica “de elo social no sentido do restabelecimento da ordem social pré-exis­tente, ou no sen­tido da sua mudança”.[46] No Estado Novo existia uma orientação selectiva da censura. Como tal, não era preciso dissolver ou suprimir, por sistema, as publicações afectas à oposição. O facto de uma publicação não ser suspensa, ou suprimida, não permite concluir que tivesse adoptado uma atitude de colaboração com o salazarismo. Isto porque o regime “não proibiu ou dissolveu sistematicamente as publicações afectas à oposição. Estas sobreviveram ao longo dos anos trinta, isoladas ou reduzidas a um público intelectual e puderam até debater o significado social da arte ou o pacto germano-soviético”.[47] Eram coisas que aparentemente não criavam fissuras no regime.

Havia, porém, coisas que a imprensa não podia divulgar, como dizer, simplesmente, que os mendigos vagueavam pelas ruas. O regime tinha abolido teoricamente o conflito e por isso qualquer tentativa da sua exposição pública era logo cerceada. Aliás, dizia Salazar, “politicamente só existe o que o público sabe que existe”. E também dizia que “o jornal é o alimento espiritual do povo e deve ser fiscalizado como todos os alimentos”.[48] Era isso que propugnava um jornal do distrito de Aveiro, o Lutador,[49] que se dizia ao serviço da Pátria. Ao comentar o II Encontro da Imprensa Regional das Beiras, que decorreu na Figueira da Foz nos dias 20 e 21 de Junho de 1969, acaba por concluir que “a Censura tem merecimento quando os seus agentes reúnem uma formação moral e intelectual válida”.[50]

O Estado Novo garantia a sua propaganda nessa imprensa, ao obrigá-la a não recusar a inserção das célebres notas oficiosas enviadas pelo governo. E, como também estava instituída a censura à imprensa estrangeira entrada em Portugal que contivesse “matéria cuja divulgação não seria permitida em publicações portuguesas”, ficamos esclarecidos sobre o caudal de informação “plural” a que os leitores de periódicos portugueses tinham acesso. Os próprios livros passavam pelo crivo da censura. Embora formalmente isso só tenha acontecido em 1943, já antes se assistia ao confisco das obras e à sua retirada do mercado. A extensão destes atropelos é, porém, muito mais vasta. Da imprensa ao cinema, do teatro à música e à literatura, nenhum domínio da informação e da criação artística era descurado pelo Estado Novo. Salazar, aliás, mostrava conhecer bem as trincheiras onde se acantonavam os seus adversários políticos. Em 1938, numa alocução aos legionários, dizia abertamente onde está o “inimigo”: “está no ensino, está ainda na imprensa, está ainda no teatro, e no cinema”.[51]

Vale a pena relembrar que em Maio de 1965 se deu um dos maiores atentados à cultura e à liberdade: o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores, cuja sede foi assaltada e destruída com o pretexto da atribuição do Grande Prémio de Novela a Luandino Vieira, à data no Tarrafal a cumprir 14 anos de prisão. Entretanto, a PIDE prendeu membros do júri que haviam atribuído o prémio, mesmo os que votaram contra ou não votaram: João Gaspar Simões, Augusto Abelaira, Fernanda Botelho, Manuel da Fonseca e Alexandre Pinheiro Torres. No rescaldo dos acontecimentos viria a ser suspenso o Jornal do Fundão. Um texto de Alexandre Pinheiro Torres provocou “a suspensão do jornal por seis meses, uma multa pesada e um regime especial de censura: o envio dos textos, das páginas de composição, títulos e ilustrações para a direcção da censura, em Lisboa, em vez de serem mandados, como era costume, para a delegação de Castelo Branco”.[52]

Entre o que pensava Salazar da imprensa e o que sobre a matéria estava consagrado na Constituição de 1933, que no seu artigo 8.º garantia “a liberdade de expressão do pensamento sob qualquer forma”, está bem patente o desencontro entre as práticas e as representações do regime fascista. Aliás, no próprio dia em que entrava em vigor a Constituição, entrava também em vigor a lei especial que regulava a “liberdade de expressão” (Decreto-Lei n.º 22469), que iria perdurar até 1972, estabelecendo a censura prévia à imprensa e a outras publicações, “sempre que em qualquer delas se versem assuntos de carácter político ou social”.[53] Não basta dizer que Salazar governou com uma Constituição. O que interessa é saber se a respeitava e fazia cumprir escrupulosamente, ou se, ao invés, a prática política transformava muito do seu articulado em letra morta. Como bem sabemos, o regime comportava-se, um pouco prosaicamente, ao estilo olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço. Este caminho juncado de escolhos e atentados à liberdade fica exemplarmente espelhado na resposta que Mário Sacramento dá quando lhe perguntam: qual a missão que entende que a Imprensa deve desempenhar? A resposta é particularmente lúcida e objectiva: “há que atender, primeiro, à que pode desempenhar. E, depois, à que os interesses que a financiam lhe circunscrevem”.[54]

É tendo em conta toda esta panóplia de constrangimentos que devemos analisar a história dos suplementos culturais da imprensa regional.

3. Suplemento Companha (semanário Litoral)

 Foi em Setembro de 1959 que o semanário Litoral [55] começou a publicar o suplemento cultural Companha. Uns tantos amigos do jornal decidiram “elegê-lo para tronco de novos viços, irmanados na esperança de que o tronco, pelo “vergônteo vigor de seiva e pela altura que ambicionava atingisse robustez própria, alcançando culminâncias tais, que o velho suporte lhe ficasse quase inútil e distanciado na modéstia do seu inicial escopo”. Em nota de abertura, o director do suplemento afirmava não ignorar “as responsabilidades impostas pelo sentido da palavra Cultura” e prometia um suplemento “incondicionado a outras normas que não sejam as duma intransigente honestidade e as dum amplo arejamento mental”.[56]

Companha, p. 18Dedicado às Artes, Letras e Ciências, viria a ter uma duração efémera. Conhecem-se 4 números, publicados entre Setembro e Dezembro desse ano. Não foi possível identificar, em qualquer documento escrito, a razão para tão curta vida. Tudo aponta para divergências entre alguns colaboradores e a direcção do jornal quanto ao rumo a seguir. E também – hipótese mais plausível – por lhe ter, entretanto, escasseado o indispensável apoio publicitário.

Para lá da colaboração de figuras de proa da vida literária e artística nacional, o suplemento é assegurado por 19 personalidades identificadas com a região e a cultura aveirense.[57] São os orientadores e cooperadores de Companha. Alguns, como o escritor José Marmelo e Silva (1911-1991) e o ensaísta Mário Sacramento (1920-1969), eram já nomes com reconhecimento nacional à data da publicação do suplemento. O autor de Sedução (1937) e Adolescente Agrilhoado (1958) tinha, na altura, 48 anos. O médico aveirense tinha apenas 39, mas contava já com um lastro político e cultural pouco comum para a idade: a polícia política do regime prende-o aos 17 anos, ainda estudante liceal e director do jornal A Voz Académica.[58] Em 1943 edita o ensaio A criança nas relações com o adulto. Em 1945 publica Eça de Queirós – uma estética da ironia, obra em que consegue delimitar, “com grande finura e brilho, um conjunto de articulações inteligíveis que fazem da obra de Eça de Queirós um objecto particular e único, […] um penetrante e conseguido roteiro do espírito eciano”.[59] Em 1957 é a figura patriarcal da organização do I Congresso da Oposição Democrática em Aveiro. Em 1958 publica Fernando Pessoa, poeta da hora absurda. No próprio ano em que surge o suplemento Companha dá à estampa Teatro Anatómico e o primeiro volume dos Ensaios de Domingo (1959), ao mesmo tempo que colabora no suplemento literário d’O Comércio do Porto, acabando por interromper a actividade crítica no ano seguinte com a ida para Paris, onde vai especializar-se em gastroenterologia com uma bolsa atribuída pelo governo francês.

Entre os colaboradores locais, alguns eram ou viriam a tornar-se personalidades marcantes na vida cultural e artística da cidade salgada. Citem-se os nomes de David Cristo,[60] António Brásio,[61] António Cristo,[62] Carlos de Morais,[63] Costa e Melo[64], Eduardo Cerqueira[65], Frederico de Moura[66], Gaspar Albino[67], João Sarabando[68], João Artur Trindade Salgueiro, Joaquim Correia,[69] Jorge Mendes Leal, José Penicheiro,[70] José Pereira Tavares[71], Luiz Regala[72], Mário da Rocha,[73] Pinto da Costa e Vasco Branco[74].

Para lá destes nomes, Companha acolhe nas suas páginas os de outras personalidades, umas conotadas com o neo-realismo outras não. Entre as mais relevantes estão Eugénio de Andrade, Mário Braga, José Palla e Carmo, Jacinto do Prado Coelho, Luísa Dacosta, Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, Lília da Fonseca, Natércia Freire, Vasco Granja, Joaquim Namorado, António Rebordão Navarro, Roberto Nobre, Alberto Pimenta, Artur Portela Filho, Ilídio Sardoeira, Alberto de Serpa, Taborda de Vasconcelos e Lobo Vilela.

 

Desenho de Ze Penicheiro (Companha, n.º 2, Outubro 1959)
Desenho de Zé Penicheiro (Companha, n.º 2, Outubro 1959)

Além de temas relacionados com personalidades da vida local (João Afonso de Aveiro, Jaime de Magalhães Lima[75], José Pereira Tavares) o suplemento insere outros relacionados com arte, poesia portuguesa e brasileira, recensões críticas, ciência, cinema, contos e crónicas, entrevistas, filosofia, tapeçaria e teatro. A inclusão no suplemento de assuntos ligados ao teatro ou ao cinema tinha toda a pertinência. No mesmo ano em que Companha vê a luz do dia, já tinha sido criado o CETA – Círculo Experimental de Teatro de Aveiro, no mês de Fevereiro. Curioso é notar que logo em 3 de Julho de 1959 o CETA tem pronto o primeiro espectáculo, composto pelas peças “O Urso”, de Anton Tcheckov, “O Dia Seguinte”, de Luiz Francisco Rebelo e um entreacto de poesia de Carlos de Morais. Acontece, porém, que a censura e a PIDE vão proibir a sua apresentação nessa data, apenas porque Mário Sacramento assinava um texto de apresentação. O espectáculo seria levado à cena no Teatro Aveirense, em 31 de Julho de 1959, depois de eliminado na totalidade o referido texto, entretanto substituído por um outro da autoria de David Cristo, director do Litoral e de Companha. O termo “Experimental” causava engulhos à censura (talvez por “cheirar” a novo, a vanguarda, a contracultura capaz de estilhaçar a paz podre reinante…),  e por isso o CETA foi proibido de o utilizar.[76] Sobre teatro e grupos experimentais de amadores, o dramaturgo Costa Ferreira propunha a constituição de um Conselho Técnico de Teatro de Amadores capaz de esclarecer sobre o conteúdo e o valor estético das peças escolhidas. Isto, porque via no teatro de amadores dois perigos: “um deles é deixar os amadores entregues a um gosto desactualizado […]. Outro perigo é o de lhes impor um reportório cultivado que eles não compreendem nem sentem”.[77]

Quanto à inclusão, no suplemento, de conteúdos sobre cinema, ela justifica-se pelo facto de, à semelhança do que acontecia com o teatro, também existir em Aveiro um Cineclube, que teve a sua primeira exibição a 11 de Março de 1955, com Luzes da Cidade, de Charlie Chaplin. Por essa altura o trabalho dos cineclubes permite exercitar, dentro dos condicionalismos existentes, a liberdade de expressão. Havia debate, trocavam-se ideias, promoviam-se cursos de formação teórica e prática e procurava-se valorizar o cinema infantil. Não admira, por isso, que a imprensa cultural reserve à sétima arte um canto na sua paginação como forma de garantir o carácter informativo e formativo do público. Incapaz de promover por si só uma divulgação em larga escala, o cineclube “projecta-se através do jornal e amplia o seu raio de acção”. António Augusto Sales dá conta, em 1961, ao abordar a importância da imprensa regional na difusão da cultura cinematográfica, de secções de cinema em jornais como A Planície (Moura), Jornal do Fundão, Jornal do Ribatejo (Santarém), Badaladas (Torres Vedras), O Setubalense (Setúbal), O Almonda (Torres Novas), O Oliveirense (Oliveira de Azeméis), e O Alcoa (Alcobaça), entre outros. Quer o jornal quer o cinema saíam valorizados: o jornal, porque quebrava o marasmo e difundia uma actividade associativa local; o cinema, porque através da imprensa – às vezes tão minguada de assuntos com relevo cultural – encontrava acolhimento para um renovado sopro anímico das incipientes actividades cineclubistas e do próprio cinema enquanto expressão de uma verdadeira arte humana.[78]

O número inicial do suplemento insere o ensaio de Mário Sacramento “O testemunho de Dante”, texto datado de 1953 e publicado em Ensaios de Domingo. E contém uma entrevista a José Régio. À pergunta: É da opinião de que o Escritor deve cultivar a Arte pela Arte ou a Arte pela Vida? – o autor de Poemas de Deus e do Diabo responde: “Sempre tenho sustentado, creio que sempre sustentarei que a Arte é uma actividade que a si própria se basta. Acho que não precisa de desculpas. A sua verdadeira grande utilidade é elevar, enriquecer, ampliar, aprofundar o espírito do homem. Por isso mesmo não pode estar ao serviço seja do que for – antes de tudo se serve. E por isso mesmo, porque de tudo se serve, nunca pude admitir uma verdadeira Arte divorciada da Vida”. À questão: No Príncipe com orelhas de burro, quando diz que os poetas, os artistas em geral, não devem temer a sinceridade pois é-lhes disfarce bastante a roupagem inevitável da forma, considera que esta existe de “per si”, sem íntima conexão com o conteúdo? –  Régio responde: “Não, não creio que na verdadeira criação artística a forma exista de “per si” ou sem íntima conexão com o conteúdo. Realizar uma obra de arte é, exactamente, dar forma […]. No meu entender, tanto mais satisfatória é uma realização artística quanto mais íntima for a já aludida conexão entre o que chamamos forma e o que chamamos conteúdo”. [79]

Mário Dionísio não desdenharia desta concepção de arte quando afirmava, em 1961, que “tudo em arte se consubstancia em realidade formal”.[80] A crítica de que aos homens da presença interessaria sobretudo a forma, dificilmente resiste a estas palavras a que Régio recorre para se defender desse tipo de acusação, após reconhecer que a individualidade do artista é essencial na obra de arte: “Quer isto dizer que as preocupações de ordem política, religiosa, patriótica, social, ética – hão-de, forçosamente, ser banidas da obra de arte? De modo nenhum. E quem dirá que tais preocupações são banidas da Obra dum Dostoievski ou dum Ibsen, dum Strindberg ou dum Pirandello, dum Gide ou dum Shaw, dum Claudel ou dum Gorki, dum Antero ou dum Tagore?”[81]

As respostas de Régio são coerentes com tudo o que já antes dissera e escrevera sobre o assunto. Num artigo programático que escreveu para o primeiro número da Presença, que surgiu em Coimbra no dia 10 de Março de 1927, e no qual interliga os conceitos de originalidade e sinceridade, anotava: “Em Arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição de uma obra viva é, pois, ter uma personalidade e obedecer-lhe”. E mais adiante: “Pretendo aludir nestas linhas a dois vícios que inferiorizam grande parte da nossa literatura contemporânea […]. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade”.[82]  Esta era, de facto, uma questão candente numa literatura que muitos consideram mais crítica que criadora: a preocupação com a sinceridade e a personalidade, assim como “a importância da realidade psíquica na ordenação teorética predominante no grupo, a imposição duma literatura arrancada às virtualidades pessoais do artista criador”.[83]

Merecem também destaque, neste primeiro número de Companha, as respostas de Jacinto do Prado Coelho e Mário Dionísio a um inquérito sobre a atribuição do prémio Camilo Castelo Branco a Léah, de José Rodrigues Miguéis; a poesia de Pedro Zargo (“Sou torturado desenho/ De vaga forma esboçada,/ Como aquele inútil nada/ Em que, indiferente me tenho!”) e de Joaquim Namorado (“Em tudo o que nega o homem e a vida/ reconhece a tua face verdadeira…/ e vendo o que és na pura imagem do que somos/ morre como um cão raivoso/ da própria peçonha”); o conto de Vergílio Ferreira “o fantasma”; o texto de João Sarabando sobre arte popular, intitulado “O Povo – mestre minimizado, mestre desconhecido” e ainda o artigo de Alberto Pimenta “O Teatro – arte, de intriga – escola de títeres e o anti-Teatro de Ionesco”.

Após esboçar uma breve resenha do teatro grego e medieval, Alberto Pimenta centra-se no teatro de Bertolt Brecht, no qual o espectador “já não vai aliar-se com o plano da intriga, mas tomar consciência da sua responsabilidade de homem perante os problemas-em-arte postos por um Teatro que de novo o transcende e o subjuga”. Estamos a falar de uma concepção de arte que “não contém a História e a sociedade, não contém o futuro, mas abre para ele [e assim destrói] a ideia da “obra” como objecto acabado”. A arte passa então a ser “limiar, abertura, plataforma, cujo destino é ser constantemente reapropriada por sujeitos históricos que a usam em lugar de serem (ab)usados por ela”. É, pois, esta concepção de arte que “fundamenta a insistência da teoria brechtiana no papel activo do leitor e do espectador”.[84]

Alberto Pimenta fala também de Ionesco e de um novo Teatro “desnudado e impiedoso por todos os lados” para, enfim, concluir: “Assim se realiza, afinal, por uma nova devoção, o Anti-Teatro, Teatro aparentemente negativo (e só aparentemente) e fase do eterno Teatro-Arte”.[85] Esta abordagem parece conter já aquilo que viria a caracterizar, na década de 60, as vanguardas sintonizadas com a anti-arte e a contracultura: “formas de recusa, simultaneamente, da cultura em sentido tradicional e da cultura massificada”.[86]

Para o autor de O Silêncio dos Poetas, esta arte “anti” (anti-romance, anti-teatro, anti-poema) está a priori ameaçada “tanto pelo pensamento idealista e conservador como pelo pensamento materialista”. Pelo primeiro, porque entende a arte moderna como “depauperação dos símbolos eternos e transcendentes e, desse modo, como sintoma de incurável decadência cultural”; pelo segundo, porque vê nela a “ruptura com a suposta função natural da arte, com a função didáctico-recreativa, e, assim, a ruptura com a ‘realidade produtiva’ da comunicação”.[87] Tanto o materialismo como o idealismo recusam esta arte ‘moderna’ por verem no seu cinismo e, até, na sua agressão ou  crueldade, não formas de libertação mas de desmoronamento da ordem. Referindo-se às oposições fundamentais que separam o realismo de toda a arte de vanguarda – visão do mundo, noção da função da arte e do papel do artista na sociedade contemporânea – Mário Dionísio diria, em 1963: “Acho ingénuo, por exemplo, supor que o anti-teatro, o anti-romance ou a anti-pintura produzirão ou sequer pretenderão […] a ruína do teatro, do romance ou da pintura”, E acrescentava: “O grande primeiro problema literário e artístico do realismo destes dias refere-se, em minha opinião, precisamente, à contradição inevitável que consiste em ser ele, de raiz, anti-arte de vanguarda e em não ser possível no mundo de hoje (mundo de todos nós) criar qualquer arte autêntica e portanto, renovadora, que não passe por uma atitude de vanguarda”.[88]

O n.º 2 de Companha volta a inserir um texto de Mário Sacramento, “A última aventura de Júlio Verne. Fábulas sem classificação especial” e outro de Alberto Pimenta, “Tragédia e Comédia – conceitos e realizações”. Para lá disso, há uma crónica de Antunes da Silva, um ensaio de José Palla e Carmo (“Poesia – versus/versos”), poemas de Dinis de Ramos e Amândio Sereno (pseudónimo de Vasco Branco), dois inéditos de Jaime de Magalhães Lima, um texto de Ilídio Sardoeira sobre ciência, um conto de Frederico de Moura e recensões literárias, uma delas a Mar Santo, de Branquinho da Fonseca, que com Adolfo Rocha (Miguel Torga) e Edmundo de Bettencourt protagonizaram em 1930 uma primeira cisão do movimento da Presença, afastando-se da revista coimbrã três anos depois desta começar a publicar-se.

Depois de assinalar a “fraca intriga” desta novela, o autor da recensão não deixa de lhe acentuar os seus merecimentos: “Tudo nos aparece com naturalidade, com brilho, com equilíbrio. Os diálogos como que foram recolhidos daquele linguajar embebido de maresia […]. Em meu ver também a Presença esteve presente na realização desta obra. O mesmo sentido mórbido, o mesmo tom deprimente […], que na generalidade os presencistas beberam em Raul Brandão, se evola de quase todo o contexto. Porém, uma verdadeira compaixão pela humanidade que parece aproximar Branquinho da Fonseca do neo-realismo, se desprende de frases como esta: e a rede lá vem vindo, arrastada por aquelas negras filas de escravos, dobrados, chicoteados pela voz que dá esperança”.[89]

O suplemento n.º 3 de Companha inclui ensaios de Lobo Vilela (“Considerações gerais sobre factos”) e de José Palla e Carmo (continuação de “Poesia – versus/versos”, onde aborda a terceira fase da poética brasileira – a da geração de 45, dos “neo-modernistas”, dos concretistas e dos neo-concretistas, em que se teria verificado, segundo Alceu do Amoroso Lima, “o primado do verso sobre a poesia” e da “razão” sobre o “instinto”, fase esta que não teria produzido “entretanto nenhum grande poeta”. Há também um texto de Costa e Melo (“Jean Cocteau e a sinceridade na Arte”), apontamentos de Vasco Granja sobre o cinema japonês, poesias de António Rebordão Navarro, Eugénio de Andrade e Natércia Freire, um texto de Alberto Pimenta intitulado “Teatro e o problema das adaptações”, uma crítica de Jorge Mendes Leal ao romance de Joaquim Lagoeiro Mosca na Vidraça e o ensaio de Mário da Rocha “A crítica, uma segunda criação”, onde perpassa a polémica entre presencistas, neo-realistas e existencialistas.

Com este suplemento n.º 3 nasce a ideia de criar uma secção de convívio entre leitores e autores, em que os primeiros dirigem aos segundos “as dúvidas, sugestões, perplexidades, reparos, meditações […] que a leitura dos seus livros ou a audição ou contemplação das suas obras lhes despertem”. Aos autores caberia responder, se assim o entendessem. A ideia era recolher os resultados do “diálogo entre criação e fruição que toda a obra de arte ou de pensamento pressupõe”.[90]

O pontapé de saída foi dado por Mário Sacramento, que na qualidade de leitor dirige uma carta a Fernando Namora. O pretexto é o facto de ambos serem médicos, discípulos de Hipócrates, mas também amantes da literatura. Entre as várias questões suscitadas pelo autor dos Ensaios de Domingo está a da dificuldade que sente o escritor-médico em emancipar-se do exercício da clínica e a da sedução pela escola de humanismo que se acreditava ser imanente ao exercício da medicina; e está também a dos problemas que se colocam à conciliação entre duas actividades tão distintas; ou a dos que abandonam a medicina para se dedicarem – e se realizarem – em exclusivo à escrita, à política ou a outras artes.

A resposta de Namora aparece no número seguinte de Companha e mostra-nos que o autor de Deuses e Demónios da Medicina nunca dissociou o escritor do médico. Como diria o ensaísta aveirense, a propósito deste entrelaçamento das duas actividades: “A obra do primeiro vive da experiência do segundo e isso é (mais do que parece) uma originalidade e uma singularidade sua”.[91]  Cada uma dessas facetas complementaria ou ajudaria a iluminar as demais.

O quarto e último número de Companha, apesar de impresso, não teve divulgação pública. Embora sem publicidade e desconhecendo-se as razões pelas quais não chegou a ser angariada, existe encadernado com os restantes exemplares. Luiz Regala, um dos colaboradores locais e cooperante do suplemento, que assinava a sua poesia com o pseudónimo de Pedro Zargo, desvenda, num cartão encontrado no espólio particular, remetido a José Manuel Tavares Abrantes – à data encadernador da Tipografia Lusitânia – quem guarda esse relicário da memória aveirense: “Caro José: A coleção desse suplemento de ‘O Litoral’, que dedicadamente conservas, e que, mercê dos teus méritos artísticos, tu próprio encadernaste, – aí fica para a posteridade dos Aveirenses, talvez um dia – quem sabe? – para fazer parte do espólio cultural da Biblioteca Municipal de Aveiro. A ti pertence – mais tarde – essa dádiva à nossa querida Cidade”.

Este derradeiro suplemento insere um texto (“As imagens têm voz”) onde Roberto Nobre se insurge contra os que pretendem reduzir o cinema, quando sonoro e dialogado, a mero teatro, e aborda as diferenças fundamentais entre uma e outra arte, considerando uma simplificação grosseira situar tais diferenças apenas no facto de qualquer delas ter ou não diálogos. Por essa altura, Beckett e Ionesco introduziam no teatro um “voluntário empobrecimento da linguagem (expressão e agente dum estado máximo de corrupção de uma classe de homens que apodrece tentando apodrecer o homem todo), a sua sátira implacável às possibilidades de comunicação”.[92]

Sublinhe-se que este teatro de Beckett e Ionesco irrompe no seio da sociedade industrial prestes a caminhar para a sociedade de consumo e é no interior das suas estruturas que se desenvolve. Como qualquer vanguarda, estabelece uma ruptura, “grita a sua revolta contra a perda de sentido das palavras”. Só que, não estando directamente integrado num determinado sistema de relações de produção, resta ao artista, “enquadrado na ordem burguesa e incapaz dela sair, a revolta violenta, antes de mais estética, depois (talvez) ética, mas nunca política”.[93] Este teatro de vanguarda, por falta de consciência política, não atinge verdadeiramente o cerne da classe dominante. Enquanto espectáculos de destruição, “nada destroem porque nunca atacam uma estrutura real, política, da sociedade. E é por isso que facilmente são integrados e recuperados”.[94] É assim que pensa Roland Barthes, quando afirma: “É provável que a vanguarda nunca tenha sido para o artista senão um meio de resolver uma contradição histórica precisa: a de uma burguesia desmascarada, que já não podia aspirar ao seu universalismo original senão sob a forma de um protesto violento dirigido contra si mesma: violência em primeiro lugar, estética, dirigida contra o filisteu, e depois, de uma maneira cada vez mais empenhada, violência ética, quando as próprias condutas da vida receberam o encargo de contestar a ordem burguesa (nos surrealistas, por exemplo); mas violência política, nunca […]. Tudo se passa como se houvesse um equilíbrio secreto e profundo entre as tropas da arte conformista e os seus fuzileiros audaciosos.”[95]

Para melhor colocar o problema, o autor recorre a René Clair, que afirmava, na altura do aparecimento dos fonofilmes, que o cinema “não deveria servir os diálogos, portanto o teatro, mas utilizar a dicção, a música, os ruídos para sublinhar, para completar a imagem do cinema como cinema”. Para Roberto Nobre o cinema “não é apenas um hábil aglutinador de todas as outras artes, plásticas e ficcionistas. Ele tem profundas características peculiares, uma filosofia de arte própria […] uma linguagem, um estilo, tão dúctil e subjectivo como o de uma bela prosa ao serviço do romancista [e] o facto do cinema ter passado a conter diálogos, mesmo quando belos diálogos, sóbrios, talentosos, não modificou a sua essência divergente da do teatro […] pois é no acto de encenar que eles se opõem”.[96] Dito de outro modo, sustentava, na esteira de Kandinsky, que “cada arte, aprofundando-se, fecha-se em si mesmo e separa-se”. A apropriação, pelo cinema, de terrenos que eram pertença da ficção literária ou mesmo das artes plásticas, não poderia causar qualquer estranheza. Para Mário Dionísio, também a literatura e as artes plásticas não deixaram de ‘roubar’ ao cinema. Todas as artes “roubam”. No caso da literatura, por exemplo, “o realismo de Courbet precedeu o de Flaubert”.[97]

Realce também uma entrevista com Mário Braga,[98] editor da Vértice entre 1946 e 1965 e considerado um renovador do conto moderno sob a égide do neo-realismo. Questionado, na qualidade de dirigente de uma revista de cultura como a Vértice, sobre a aceitação do público e sobretudo da juventude perante os grandes problemas do seu tempo, Mário Braga responde: “Só lendo as cartas de aplauso ou crítica diariamente recebidas, só apreciando a firmeza de centenas de leitores […] se pode verificar em que medida está viva no povo português a ânsia de se cultivar, de conviver ideologicamente. A par do interesse literário verificamos um constante desejo de esclarecimento, sobretudo pelo que respeita a problemas nacionais, daí que estejamos a prestar uma atenção especial à parte do Panorama da revista, a mais informativa e com carácter mais actual”.

Nova pergunta de Companha: que pensa da situação do neo-realismo português, durante a guerra, nos anos que se lhe seguiram e no momento presente? Mário Braga considera que, em parte, “foi esse mesmo espírito heróico e generoso, esse anseio justicialista que conduziu os mais jovens escritores da época de 40 para o realismo”. Mas o futuro autor de Entre duas Tiranias (1977) não deixaria de criticar os que, no interior dum movimento que procurava criar o homem total – aquele que, “liberto economicamente ou ciente dos caminhos dessa libertação, é ao mesmo tempo sujeito e objecto da realidade” – se afastaram de tais propósitos, aqui enunciados de modo tão esquemático. Para Mário Braga tais propósitos “foram muitas vezes perdidos de vista ou até ignorados por alguns cultores do neo-realismo português, os quais se cingiram a descrever o povo, sobretudo o rural, com simples olhos sentimentais, através de óculos tingidos ainda de naturalismo”. E reforçando esta crítica, acrescenta que “ mesmo os mais válidos representantes do movimento poucas vezes têm conseguido dar-nos outra coisa além do homem como objecto […] quebra esta que compromete a unidade a que se aspira”.[99] Mário Braga insurge-se contra certas formas de naturalismo que por essa altura (a entrevista é de 1959) se intitulam, de forma abusiva, realistas.

Inclui ainda este volumoso suplemento poesias de Pedro Zargo, Pinto da Costa, Amândio Sereno, Alberto Pimenta, Dinis de Ramos, Joaquim Namorado, Alberto de Serpa e Lília da Fonseca; um texto de José Palla e Carmo que analisa 3 poemas de William Carlos Williams, poeta norte-americano nascido em 1883 e que cultivou o experimentalismo ao longo da sua obra; um conto de Artur Portela Filho (“Rodolfo da Cantuária”); a já aludida “Carta a Mário Sacramento”, de Fernando Namora; breves alusões críticas a obras como Onde a Noite se Acaba, de José Rodrigues Miguéis, Tanta Gente Mariana, de Maria Judite de Carvalho, O Lugre, de Bernardo Santareno, Uma Fenda na Muralha, de Alves Redol, O Cais das Colunas, de Tomaz Ribas, ou Luís de Camões, de António José Saraiva; uma “Carta a Luís Francisco Rebello” assinada por [Armando] Pereira da Silva; um “Digesto de Notícias” sobre literatura, artes plásticas e cinema; a evocação de Raul Brandão por Taborda de Vasconcelos; um conto de Augusto Sereno (“Ilusões”); uma entrevista a José Pereira Tavares; uma crónica de Mário Pinho (“Concerto do Silêncio”) e um texto de Vasco Branco sobre ciência (“Do infinitamente pequeno ao infinitamente grande”), extraído do livro então no prelo Do Ignoto aos Satélites Artificiais, mas que seria publicado ainda em 1959, ano do suplemento.

Sem que pudesse prever, na altura, que este seria o seu derradeiro gemido cultural, Companha anunciava que doravante iria mostrar aos seus leitores reproduções das obras que, pelo seu valor intrínseco, representassem contribuições válidas para o desenvolvimento das correntes artísticas em Portugal. Uma intenção nobre, não tanto por se encontrar na ordem do dia, mas precisamente porque à época o não estava. O suplemento reproduziu, neste n.º 4, uma litografia de Rogério Ribeiro e um trabalho do artista Querubim Lapa.

4. Suplemento Independência Literária (semanário Independência de Águeda)

Indep. Literária, n.º 20, Maio, 1963, p. 33
Independência Literária, n.º 20, Maio 1963

Antes mesmo do suplemento mensal Independência Literária ver a luz do dia, já se publicava uma Página Literária no Independência de Águeda,[100] assegurada por Arsénio Mota.[101]

O n.º 1 surge em Outubro de 1961. A partir do n.º 4, Manuel Ferreira é convidado para co-director. O autor do romance Hora Di Bai e reputado conhecedor da literatura cabo-verdiana tinha muitos e variados contactos com escritores de Lisboa, o que acalentava a esperança de trazer para o jornal gente com pergaminhos firmados na área da cultura. Apesar dessa inequívoca mais-valia, Arsénio Mota lamentava, um ano depois, as múltiplas obrigações profissionais que há meses impediam Manuel Ferreira de trabalhar a seu lado, não o desonerando, como inicialmente teria suposto, do trabalho árduo e paciente que era a construção dum suplemento cultural num contexto político, social e de economia fechada e nacionalista juncado de escolhos.[102]

O aparecimento de Independência Literária está ligado à necessidade de mais espaço gráfico e de uma mais nítida demarcação da cultura, que se entendia dever constituir um campo autónomo da Independência de Águeda. O suplemento vê a luz do dia em tempos “marcados violentamente por fundas preocupações sociais”. Tempos impróprios para o “exercício despreocupado de umas letras recreativas alheadas das preocupações gerais”, que requeriam “uma particular concepção de literatura (…) veículo válido de comunicação e de adesão à vida de toda a cidade, apesar das limitações do tempo presente”.[103] O mesmo é dizer, a recusa de uma literatura enquanto produção alienada da verdadeira vida, à qual deveria opor-se uma literatura indesligável da história política, económica e social em que era produzida, exigência doutrinária – e também política – associada ao movimento neo-realista.

As “limitações do tempo presente” a que se refere Arsénio Mota nesse texto inicial, não assinado, seriam, entre outras, as da censura que se abatia sobre as diferentes publicações de cariz político ou cultural. Jornalistas, pensadores, escritores, todos eram afectados pela censura prévia ou a censura a posteriori, perguntando muitas vezes a si próprios se os censores iriam permitir a publicação do que escreviam. Neste ano crítico de 1961, numa entrevista concedida ao jornal brasileiro O Globo, Salazar afirmava: “Mas, em rigor, não temos censura aqui. Os jornais circulam tal como são redigidos e impressos, sem alteração de uma linha. Existe uma Comissão de Censura que, todavia, nada tem que fazer”. O jornalista brasileiro observa: “Precaução dos jornais, Presidente. Eles já sabem o que podem e o que não podem divulgar”. A resposta do ditador é lapidar: “Exactamente. Era a tal conclusão que eu desejaria que chegasse o senhor. O Governo conseguiu disciplinar a Imprensa, torná-la um elemento construtivo e não uma força deletéria, demolidora”.[104]

Ao contrário do que sucede em Companha, Independência Literária não identifica os colaboradores permanentes ou cooperadores. É fácil descortinar, para lá da co-direcção assumida por Manuel Ferreira e Arsénio Mota – que também assinava textos, em prosa ou poesia, com os pseudónimos Julião Crepita e Esperança Meeiro – alguns colaboradores mais assíduos. Estão neste caso Armando Pereira da Silva[105] e José Cruz.[106] A estes juntavam-se outros já consagrados ou que despontavam na altura para o mundo das letras e das artes. Pelas páginas do suplemento desfilam nomes como Luís de Albicastro,[107] Alberto Fonseca, Vicente Campinas,[108] António de Carvalho e Branco, Eduardo Guerra Carneiro, Serafim Ferreira[109], António Augusto Menano[110], Nelson Figueiredo, Alexandre Cabral, Matilde Julieta Cabral, António Barahona da Fonseca, Jaime Monteiro, Garibaldino de Andrade[111], Ferreira Guedes, Jorge Mendes Leal, Pinto da Costa, Vasco Graça Moura, José Luís Costa Dias, J. Pereira Martins, António Gomes da Costa, Máximo Lisboa, Joaquim Correia, Mário Sacramento, Joaquim Acácio de Figueiredo, Cidália de Brito, Luís Veiga Leitão, Alfredo Margarido, Artur Portela Filho, Afonso Cautela, Costa Ferreira[112], Vítor de Castro, César Oliveira, António José Saraiva, João Martins Oliveira, Eduardo Teófilo,[113] Dinis de Ramos,[114] António Rebordão Navarro, Augusto Abelaira, Correia da Fonseca, Maria Rosa Colaço, João Apolinário,[115] João Gaspar Simões, Emílio Mendes Pires, Armando Baptista, Artur de Almeida, José Viale Moutinho, José Ferraz Diogo[116], Vasco Granja, Fernando Oliveira, Leonel Cosme[117], António Augusto Sales,[118] Lília da Fonseca, Orlando Neves, Idalécio Cação,[119] Santos Simões,[120] Mário Braga, Cordeiro de Melo,[121] Arnaldo Pereira, Fèlix Cucurull,[122] Francisco Lyon de Castro, Luís Francisco Rebello, António José Forte[123], Vasco da Costa Marques,[124] António Borga, Maria Teresa Horta e Egito Gonçalves.

Entre os principais temas do suplemento contam-se as entrevistas, a poesia, o conto, recensões e noticiário cultural, a transcrição de trechos de romances inéditos, o teatro, os grupos experimentais de amadores, o cinema ou a pintura. No plano estritamente literário, o suplemento insere textos ou alusões ao modernismo, ao neo-realismo, ao surrealismo, ao existencialismo, ao grupo da Poesia 61, ao nouveau roman e à poesia concreta. Esta diversidade temática vinha ao encontro dos propósitos que animavam Arsénio Mota e Manuel Ferreira: publicar um suplemento “aberto a todas as correntes estéticas dignas”, o que pressupunha nem sempre haver “completa identidade de pontos de vista entre os organizadores do suplemento e os autores”[125]. Era concedido grande relevo à rubrica “Livros-Novidades”. Na secção “Notas de Leitura” encontramos referências interpretativas às obras literárias das quais fossem remetidos ao suplemento dois exemplares. Há também um generoso acolhimento de Independência Literária às obras das Publicações Imbondeiro, a editora de Sá da Bandeira (Angola) onde pontificavam Garibaldino de Andrade e Leonel Cosme.

Independência Literária acolhe de forma entusiástica o I Encontro de Suplementos e Páginas Culturais da Imprensa Regional. Dá-lhe larga cobertura antes, durante e depois de o mesmo se realizar. Difundiu as ideias mais marcantes e promoveu um inquérito aos editores das páginas e suplementos da imprensa regional. Os principais temas do inquérito tinham a ver com o papel  e a função dos suplementos culturais de província, com os obstáculos que se deparavam aos seus coordenadores, com a permuta de colaborações e a adopção de um sistema de empréstimos mútuos de fotogravuras e zincogravuras, com o impacto dos suplementos nas áreas geográficas onde circulam, de que apoios materiais dispunham – com a possibilidade das editoras mais importantes virem a oferecer, para crítica, dois exemplares das suas edições – e, finalmente, com as vantagens de uma permuta, o mais alargada possível, entre todos os suplementos. Independência Literária insere nas suas páginas algumas comunicações ao I Encontro, nomeadamente as de António Augusto Menano, António Augusto Sales, Cordeiro de Melo, José Viale Moutinho e Santos Simões, além das conclusões e do regulamento do prémio a conceder anualmente, nas modalidades de ensaio, teatro, romance, conto ou novela e poesia.

I Encontro (desenho de Augusto Mota. Independência Literária, n.º 26, Novembro 1963
I Encontro (desenho de Augusto Mota). Independência Literária, n.º 26, Novembro 1963.

Para lá da análise dos problemas mais prementes com que se debatiam os responsáveis pela organização e publicação dos suplementos culturais, um Encontro podia significar ainda “uma magnífica jornada de convívio entre pessoas que possuem de comum uma idêntica e meritória tarefa de divulgação cultural”. Entre as questões a merecer discussão, anotava-se a necessidade de os suplementos culturais modificarem a sua fisionomia “quase exclusivamente literária”, com falta de artigos sobre temas científicos, técnicos, económicos e sociológicos, entre outros. E instalava-se a dúvida quanto à possibilidade da maioria dos leitores se interessar por temas como o nouveau roman ou o concretismo em poesia.[126]

O neo-realismo tem presença assegurada nas páginas de Independência Literária. Não há entrevista em que não surja a sacramental pergunta sobre o “momento actual” do neo-realismo português. Como seria de esperar num suplemento cultural da imprensa regional, tais alusões não afloram, sequer, o neo-realismo enquanto “problema” estético-ideológico ou enquanto “fenómeno cultural”, no sentido em que o entende Eduardo Lourenço. Em vez da teorização em torno das noções de forma e conteúdo, cuja dicotomia, no entender de António Guerreiro, serviu para a denúncia dos “formalismos” e dos “decadentismos” das experiências literárias modernistas; em vez dos problemas de conciliação entre a política e a arte – da autonomia da produção artística em relação ao social, no sentido em que a incapacidade para lidar com essa autonomia determina a centralidade do “conteúdo”[127] –  ou da noção de arte como manifestação superestrutural, o que encontramos, isso sim, é a defesa e a valorização de uma literatura empenhada, capaz de se constituir como verdadeiro documento da sua época, atenta aos problemas sociais, ligada à vida e ao presente. Uma literatura que procura traduzir uma realidade pré-existente, apostada em produzir aquilo a que Roland Barthes chama um “efeito de real”.[128]

Logo no segundo número encontramos críticas ao culto da personalidade e ao vício do vedetismo que leva o escritor a pensar que está acima do comum dos mortais: “Os nossos intelectuais ainda não quiseram levantar as viseiras e tirar os antolhos que os fazem ver a direito o que lhes convém […]. O escritor-vedeta é esse intelectual poseur que sacrifica a sua autenticidade de homem à garridice do literato de elite”.[129] No n.º 4, um texto não assinado reflecte este ponto de vista quando reconhece existir, na imprensa cultural, “uma corrente de ‘doutores’ que só escrevem para ‘doutores’, empenhados em jogos de negaças que produzem a ilusão da inacessibilidade, em prosas bizantinas de argúcia e engenho capazes de não errar a descrição barroca dos fogos do céu”.[130] Eis o que parece ser uma crítica cerrada contra tudo o que obscurece em vez de clarificar, contra aquilo que os neo-realistas consideravam ser o fechamento hermético e elitista do modernismo e de certas vanguardas.

Manuel Ferreira é entrevistado no segundo número, quando não era ainda co-director do suplemento. Instado a pronunciar-se sobre a arte literária e a arte em geral no início dos anos 60, o autor de Morabeza começa por afirmar que “a Arte dos nossos dias intenta um caminho que incide, como nunca, na raiz dos problemas humanos actuais”. E reforça esse ponto de vista salientando que no caso das artes plásticas se assiste à “quebra de predominância que nos últimos anos escandalosamente vinha sendo conferida à arte abstracta”. Já no que à ficção diz respeito, Manuel Ferreira acalentava a esperança de que em breve passariam de moda as tendências de uma estética que, na Europa ocidental, desde o após guerra, “insiste e persiste em se nutrir de solidões, desesperos, angústias, náuseas, tédio, cepticismo, nojo, cansaço de tudo e de nada, parecendo o essencial de uma época, quando não são […], de nenhum modo, os grandes e fundamentais problemas que nos envolvem”. Quanto à possibilidade de existir, em 1961, uma literatura de resistência, respondeu existir, pelo menos, uma “literatura válida” que soube resistir a todas as “amputações extra-literariamente impostas”. Referindo-se à Nouvelle Vague, anotava: “Ali, porém, só cabem os que se perderam na vida”.[131]

Garibaldino de Andrade, questionado sobre o momento que o neo-realismo está a atravessar em 1962, responde: “Digam os seus detractores o que disserem – é um movimento triunfante e que não estagnou. Noutros sectores desenha-se o retorno ao drama individual, às longas congeminações áridas, à psicologia de sexto ano do liceu. Não vejo futuro nesse caminho”.[132] Também Máximo Lisboa encaixa neste feixe de opiniões convergentes, quando afirma: “Na recente conjuntura, que é de transição, a autêntica função intelectual […] é a literatura comprometida”.[133]  Como se sabe, este optimismo de alguns neo-realistas colidia com o ponto de vista literário e artístico de autores que não se reviam no movimento.

Curioso é também o depoimento de Luís Veiga Leitão sobre o neo-realismo, conhecendo-se o contributo poético que prestou ao movimento: “Creio que o neo-realismo está a passar por uma fase crítica. Apesar de todos os ataques, porém, uma parte positiva ficará de toda a produção literária desse movimento”. Perguntava o autor de Biografia Pétrea: “poder-se-á condenar um neo-realista por falta de fidelidade à sua época ou por ausência de humanidade nas suas obras? Creio que não”. Ao abordar as tendências da poesia moderna portuguesa, fala de uma poesia que envereda pelo “tecnicismo puro, a poesia pela poesia […]. Tanto se combateu a retórica, o barroquismo verbal – e estamos de novo a cair no vício […]. O nosso grande mal é bebermos muita água canalizada de fora, desprezando as nossas próprias fontes”.[134] Também Luís de Sttau Monteiro se insurge contra os modelos literários ou artísticos importados do exterior, contra a provinciana necessidade de estarmos à la page: “Julgo que o nosso teatro só será de vanguarda quando estivermos mais preocupados em fazer teatro do que em fazer teatro de vanguarda”.[135]

No n.º 13, Independência Literária recupera um texto de António José Saraiva publicado em Outubro de 1955 na página “Cultura e Arte” do Comércio do Porto. Interrogando-se se o neo-realismo estaria em crise e a passar à História, avança com algumas considerações sobre o tema: “Para alguns a literatura neo-realista parece ser aquela que sacrifica a subtileza da psicologia individual e a sugestão poética, para se subordinar a fins utilitários”. Recusando o carácter panfletário do neo-realismo e o argumento de que sacrificaria a liberdade do escritor a interesses estranhos à sua arte, que sacrificaria “o indivíduo à classe, o carácter ao tipo social”, Saraiva entendia serem outras e bem diferentes as ideias-mestras do neo-realismo, que alinhava em três coordenadas: “A primeira refere-se ao ângulo visual, ao campo de observação do escritor. O neo-realismo considera o homem em todas as suas dimensões […]. Recusa-se a dividir os homens em partes isoladas, a separar a vida mental da vida biológica e social e, também, a separar os indivíduos do grupo humano”.[136]

Correia da Fonseca também reage contra um tipo de literatura que nada tem a ver com o quotidiano, excepto “a desatinada preocupação de lhe fugir. Melhor: de o suprimir – pelo desprezo, pela distorção, pelo esquartejamento”, como se fosse possível comparar a literatura superior a um “gélido cadáver esvaziado de sangue que os ficcionistas ditos de vanguarda fazem passear pelas capitais do Ocidente”.[137] É possível descortinar nestas palavras uma crítica à análise textual que procede como o cientista que isola o objecto para melhor aquilatar da matéria que o enforma. Por isso se fala em “esquartejar”, em “dissecar” o texto, o que nos leva às seguintes interrogações: será possível analisar a obra literária silenciando a voz humana que a comanda? Será possível esquecer que os textos falam e têm por detrás um criador que é humano? Não fica afectada a compreensão do texto literário quando lhe escapam as circunstâncias histórico-culturais em que é produzido?

Outros exemplos da abordagem neo-realista podiam ser transcritos das páginas de Independência Literária. Não o vamos fazer, julgando ter mostrado, à saciedade, tal evidência. Preferimos deixar claro que, apesar da tendência do suplemento e dos seus diretores para a apologia do neo-realismo, também as suas páginas se franquearam aos críticos do movimento. É o caso de Vasco Graça Moura, jovem colaborador de Independência Literária – contava então apenas 20 anos[138] – quando refere, ao comentar o romance Hora Di Bai, de Manuel Ferreira, que a literatura neo-realista, “postulando uma interpretação da tensão e interacção do binómio homem-mundo, tira os fundamentos do seu pragmatismo da própria ideologia em que se esteia […]. Não aceitamos este argumento, porque redunda, afinal, na transposição do plano artístico de um método para o plano filosófico de uma ideologia, ou seja, na escamoteação do problema”.[139]

Para concluir esta análise vamos referenciar, a partir de agora, alguns textos inseridos no suplemento que reflectem ou se assumem críticos de vanguardas ou propostas literárias em voga no início dos anos 60. Comecemos pelo Nouveau Roman, a que estão ligados nomes como os de Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, Nathalie Sarraute, Robert Pinget ou Jean Ricardou. Numa crítica a esta tendência romanesca surgida em França na década de 50, Armando Pereira da Silva afirma: “Optar entre Aquilino e Robbe-Grillet assemelha-se a escolher entre a figura linear do Malhadinhas e a nebulosa sem nome nem forma, quantas vezes sem sentido, comum às construções de alguns dos coriféus das mais recentes experiências literárias”. À “decomposição em átomos” operada pelos escritores do novo romance, Pereira da Silva contrapõe “a construção físico-mental da varonil figura aquiliniana”. Sem negar qualidade técnica e teórica às novas experiências, considera mais útil “a composição do descomprometido autor português do que a decomposição ultra-abstracta dos singularmente comprometidos precursores ou seguidores da chamada école du regard”.[140]

Para compreender melhor as críticas a uma literatura que se apresentava, aos olhos de alguns neo-realistas, “caduca, para não dizer inútil [e] com a agravante de esconder – mal – no seu progressismo estilístico, o reacionarismo evidente de ideias e atitudes”[141] deve referir-se que o  Nouveau Roman parte do postulado que a arte só se exprime a si mesma, constituindo o romance “a aventura duma escrita, mais do que a escrita duma aventura”. Dito de outro modo, tratava-se “de banir a natureza da obra, de exorcizar o real”.[142] Entrevistado em 1962 por Urbano Tavares Rodrigues, Michel Butor dirá que o escritor progressista deve tomar a sério os problemas da linguagem. Referindo-se aos ataques de que são alvo os escritores experiencialistas, o autor de La Modification prossegue: “Há quem, de palmatória em punho, queira retirar aos escritores progressistas o direito de serem de vanguarda. Pois bem: um escritor progressista tem precisamente de tomar a sério os problemas da linguagem e fazer experiências sobre a resistência da frase, como se fazem experiências sobre a resistência do metal. É assim que se descobrem nexos de forma e realidade que se julgavam dantes impossíveis”.[143] Curioso é notar que Armando Pereira da Silva, colaborador do suplemento e um neo-realista confesso, não deixa de reconhecer que aos neo-realistas “podem ser muito úteis as obras dos existencialistas e as experiências de carácter estilístico dos novos-romancistas franceses”.[144]

Apesar do novo romance francês se encontrar, no início dos anos 60, em tempo de refluxo e ter entrado já, por assim dizer, na história da literatura, por cá Artur Portela Filho, que é, com Alfredo Margarido, um dos seus introdutores em Portugal, vê nele “o rasgão que permitirá à literatura portuguesa libertar-se da disciplina neo-realista”. Sem deixar de reconhecer ao neo-realismo a importância que tem uma literatura de emergência, não deixa de o criticar de forma contundente: “O neo-realismo apoderou-se da maioria das posições-chave da vida literária portuguesa: editoras, páginas literárias, júris. Aí exerce uma vigorosa pressão e organiza uma hierarquia de valores. Aí se negam ou se diminuem cuidadosamente sólidas figuras literárias que escapam à sua disciplina. O destino do escritor português é o neo-realismo ou o anonimato”.[145]

Nesta entrevista ao Jornal Letras e Artes, Artur Portela Filho vai mais longe na análise à situação da literatura portuguesa entre os anos 40 e os anos 60 e na forma ostensiva como a desdenha. Acusa-a de localismo no plano das intenções, diz que alguns neo-realistas já afirmaram que o não são e que outros não sabem o que significa sê-lo, critica a inexistência da mais elementar autocrítica, considera não serem verdadeiramente neo-realistas os últimos romances de Namora (Domingo à Tarde), ou de Mário Braga (Corpo Ausente) e, neste rosário de críticas, considera a terceira geração – nome por ele atribuído à geração a que pertence – “mais literária e mais humana do que os de 40 (neo-realistas) e os de 50 (inicialmente ‘românticos da acção’ à Saint-Exupéry e à Malraux, com as amígdalas pinceladas por um existencialismo de bolsa de estudo, mas quase todos convertidos à ficção de emergência)”.[146]

A reacção firme a este gosto pelo escândalo, ao “aventureirismo modernista” tão aclamado por uns e tão antipático para outros, não se fez esperar. Sem deixar de reconhecer qualidades aos novíssimos escritores, José Carlos de Vasconcelos insurge-se contra os que “se desentranham numa espantosa verborreia”, contra a sua “febre incontida de triunfar por qualquer preço”, contra os que nutrem o desejo de “se mostrarem a par, actualizados com o que, afinal, não é novo, mas é moda”. Considerando Artur Portela Filho um dos mais talentosos entre esses “novíssimos”, acusa-o, a propósito da publicação de Código de Hamurabi, de “fuga aos mais elementares deveres do homem e do artista” num tempo em que nunca se falou tanto de “novíssima poesia”, “novo romance” ou “novíssimo teatro”, em que “se vende a mercadoria literária e se compra a celebridade” e em que “proliferam os elogios mútuos, as entrevistas sensacionais, até os casos de concubinato intelectual”.[147]

Arsénio Mota interroga-se, no suplemento que dirige, sobre as razões que levam ao aparecimento de uma “falange”, em 1962, de prosélitos do novo romance e do concretismo prático. E a propósito do grupo da terceira geração entende que ele se confunde com “os grupos de Poesia 61,[148] Poesia e Tempo,[149] Novíssimo Teatro, surrealismo de receituário e vários outros”. Com o novo romance – acrescenta – “o psicologismo regressa à nossa literatura de cara pintada com tintas moderníssimas. O que o novo romance e o concretismo trazem ao homem português […] é um mero divertissement, propenso ao culto pervertido da forma, fornecedor de elementos novos úteis à cartilha do psicólogo”. Sem negar validade a estas experiências literárias, nega-lhes a utilidade, no sentido em que “tudo quanto não for útil morre”.[150] Ana Hatherly dirá, anos mais tarde, precisamente o contrário, quando considera ser uma das características das correntes de vanguarda “não só a sua acção [renovadora] ao nível do texto mas também a sua vontade de interferência na vida, no real, pois não se consideram vida e arte desligadas”. Também Melo e Castro dirá que a literatura de vanguarda foi, entre nós, uma forma de provar não só “a resistência das palavras” mas também “a resistência pelas palavras”.[151]

Numa breve nota sobre poesia desde 1960, o então jovem escritor Serafim Ferreira anotava que “o desprezo total por determinados valores humanos em favor de uma reivindicação meramente formal no plano estético, não nos parece ser o caminho exacto para a realização poética dos cinco elementos de Poesia 61”.[152] Já quanto à poesia concreta, Alfredo Margarido lembrava que o concretismo brasileiro fazia a sua auto-crítica num momento em que, em Portugal, “alguns jovens poetas (e outros já nem sequer jovens) se empenham em exercícios concretistas”.[153]

É notório, nas páginas de Independência Literária, um olhar crítico dos neo-realistas – olhar ainda não distanciado – para com as experiências vanguardistas que emergem na sociedade portuguesa nas décadas de 50 e 60. Do novo romance à poesia experimental, passando pelo concretismo – que é um dos seus ramos – nada escapa ao bisturi afiado da sua análise Essa experimentação, sobretudo a que surge nas décadas de 50/60 e que decorria em paralelo à experimentação científica, “impessoalizando a obra põe em destaque o processo da sua execução, [e] é a característica fundamental de toda a arte de vanguarda”.[154]

Também o surrealismo,  com a sua incompatibilidade radical com o estalinismo – pese embora poetas como Aragon e Éluard se lhe tenham rendido – que entre nós assumiu um carácter “tanto reivindicativo das liberdades de ser e de criar como de resistência antifascista”[155] é chamado às páginas de Independência Literária. Para o pintor Augusto Mota, o uso do termo “surrealismo” envolve a confusão de duas atitudes artísticas algo distintas, já que se encontra generalizado a “toda uma pintura de ambiência onírica, de construção fantástica, mesmo quando a realidade é epicizada e não meramente destruída, como pretendem os surrealistas de escola”. Logo a seguir, Augusto Mota estabelece uma distinção entre aquilo que considera ter sido o surrealismo de movimento – anarquista, e o surrealismo de tendência psicológica – anarquista-construtivista, podendo este último ser encontrado ao longo de toda a história da pintura “como definidor de uma materialidade baseada numa bem concreta experiência de vida” e também na “pintura popular dos quadros votivos e na fé redentora de todas as pinturas religiosas dos séculos passados”: Daí conclui que “se o termo se aplica a toda a pintura de ambiente fantástico, então sempre houve e haverá surrealismo”.[156] Essa continuidade do espírito surrealista está bem presente na pintora Paula Rego, quando afirma, no início dos anos 90: “O surrealismo nunca acaba. É-se sempre surrealista, mas não se fala disso”.[157]

Acerca do existencialismo literário pronuncia-se Leonel Cosme. Sem o considerar uma solução definitiva, e acreditando que poderia seguir outros rumos caso não tivesse ocorrido a morte prematura de Camus, via nele “um caminho seguro para a realização de um homem verdadeiramente livre entre os homens […] sem necessidade de submeter os seus destinos terrenos a deuses ou a demónios e sem ter, à falta de melhor, de aceitar um impasse, um absurdo ou uma náusea para os justificar de certa maneira”.[158] Descortina-se, nesta apreciação ao existencialismo, uma benevolência que as páginas de Independência Literária não albergam para outras correntes literárias ou artísticas. Talvez porque o existencialismo, em Portugal, teve como principal figura representativa Vergílio Ferreira, escritor que se tinha afirmado na primeira fase do neo-realismo. Como disse Mário Sacramento, “o existencialismo surge entre nós pela mão, não de um qualquer, mas de um neo-realista”.[159] Para muitos, o existencialismo, mais do que querer substituir-se ou ser alternativa ao neo-realismo, era visto como a sua continuidade ou desenvolvimento, incorporando alguns dos seus valores.

Ao desfolhar Independência Literária, encontramos ainda alusões à poesia cabo-verdiana numa entrevista de Manuel Ferreira a Teixeira de Sousa, médico associado aos alvores do neo-realismo português. Aí se fala de um grupo de Cabo Verde que surgiu em 1935 a partir do movimento literário Claridade e que inclui nomes como Manuel Lopes, Baltasar Lopes (“o que mais abissalmente atingiu a alma crioula em Chiquinho”), Gabriel Mariano, Arnaldo França, António Aurélio Gonçalves, Jaime de Figueiredo e Jorge Barbosa, isto para lá de referências a outros poetas – como Corsino Fortes e João Vário – agrupados não apenas em Claridade mas também em Certeza e Suplemento Cultural.[160]

Editados os trinta primeiros exemplares, Independência Literária deixa de se publicar com o semanário Independência de Águeda. A decisão não teve a ver com problemas de censura. Muito menos com a falta de apoio económico, já que o suplemento inseria publicidade variada, com destaque para a fábrica de bicicletas e motorizadas E. F. Sucena & Filhos, Lda., que chegou a patrocinar integralmente vários exemplares. A inclusão de anúncios ou o patrocínio de uma firma comercial ou industrial representavam, à época, o único suporte económico das páginas ou suplementos culturais. A importância deste patrocínio era reconhecida pelo director do suplemento em Setembro de 1962, ao informar que ele “vem há meses [desde Abril] permitindo a edição de 8 páginas por número e uma tiragem melhorada que já circula, por assim dizer, em todo o país”.[161]  Entretanto, ao fim de oito meses o “alentador patrocínio” foi suspenso pela gerência da fábrica, pelo que o suplemento de Janeiro de 1963 já saiu a expensas do jornal Independência de Águeda.[162] Esse indispensável “amparo material” viria a ser retomado em Março de 1963, embora prorrogado apenas por mais quatro meses.

A única razão para esse afastamento, que levou Independência Literária a mostrar-se ao público como secção cultural do semanário Litoral, ficou a dever-se a “insanáveis deficiências de tipografia (privativa) daquele jornal aguedense, que comprometeram durante largos meses a periodicidade desta folha”.[163] Entre essas deficiências estariam as gralhas habituais na apreciação de livros – imputadas ao pouco qualificado quadro de pessoal da tipografia – e o comportamento do próprio tipógrafo, que um dia se atreveu a substituir um texto censurado por um poema da sua autoria, sem dar conhecimento prévio à direção do jornal. Numa nota aos leitores, inserida na secção “Ecos e comentários”, a direcção do suplemento dava pública manifestação do seu desagrado: “Estas páginas vêm saindo nos últimos meses inçadas de gralhas tipográficas. Elas são tão abundantes que desistimos de inserir em cada número uma paciente corrigenda […]. O caso desgosta-nos tanto que já estivemos à beira de suspender a publicação desta secção”.[164]

Uma das vantagens da mudança de Águeda para Aveiro residiria, também, na possibilidade de acrescentar aos seus fiéis leitores a camada dos que liam ou assinavam Litoral. Segundo o contrato de mútuo acordo celebrado e assinado em 21 de Outubro de 1964, entre David Cristo, director do semanário Litoral, e Arsénio Mota, organizador e director do suplemento Independência Literária, este seria publicado regularmente no Litoral, todos os meses, com a apresentação gráfica que o caracterizava: quatro páginas do jornal em composição que dá oito metades, sendo metade das páginas impressas a duas cores (cláusula 1).

Litoral encarregava-se de remeter a expensas suas só o suplemento ou o jornal inteiro a uma lista de aproximadamente 370 nomes de clientes da E. F. Sucena & Filhos, Lda., e de outras pessoas que constavam em documento separado (cláusula 4). O único responsável pelo conteúdo do suplemento era o seu organizador e director. Entre outras responsabilidades, tinha a tarefa de o orientar, escolher a colaboração e as gravuras e gizar a maqueta de cada número, que seria o mais possível respeitada pela tipografia. Tal significava que a única intervenção que o contrato reconhecia para o suplemento era a da censura e a de Arsénio Mota (cláusula 5). O director do Litoral admitia um máximo de 20% de composição cortada pela censura. No caso de tal limite ser excedido, Arsénio Mota indemnizaria o jornal pelo prejuízo extra (cláusula 6).[165] Por aqui se vê como Arsénio Mota arrostava com os perigos de uma iniciativa entusiasmante no plano cultural, mas que estava longe de ser comercialmente compensadora.

Com a publicação desta 2.ª série deixa também de assumir funções de co-direcção o escritor Manuel Ferreira. Terminada a sua prestimosa colaboração, o empreendimento fica de novo a cargo exclusivo de Arsénio Mota, à semelhança do que sucedera com os quatro primeiros suplementos da 1.ª série. Em Fevereiro de 1965 Independência Literária apresenta-se ao público como secção literária do semanário Litoral. Nesta nova fase da sua existência, pretende-se de continuidade e não de ruptura com o seu antecessor. Animava a ideia do seu director “participar nos movimentos intelectuais da vida mental portuguesa à luz dum conceito de cultura viva e actuante”. As páginas do suplemento continuavam abertas para “acolher o escritor consagrado ao lado de escritores jovens ou de simples principiantes”.[166] Algumas páginas culturais, como a do Jornal de Notícias e a do Notícias da Amadora, saudaram o reaparecimento e manifestaram o seu apreço e apoio, após oito meses de interregno.

Esta 2.ª série teve duração efémera, apesar de contar com o apoio económico do habitual patrocinador. O primeiro número data de Fevereiro de 1965 e inclui, entre outros textos, uma evocação de António Maria Lisboa por António José Forte e um conto de José Ferraz Diogo. Anuncia, também, o 3.º Encontro – o 2.º realizara-se em Cascais, em 13 e 14 de Junho de 1964 – previsto para o mês de Agosto, em Guimarães, sob a presidência de Ferreira de Castro.

O segundo número, relativo ao mês de Março de 1965, foi suspenso pela censura quando já estava a ser impresso (a preto) e lhe faltava apenas a cor (vermelha). Acabou assim de forma inglória, às garras da censura, o suplemento cultural Independência Literária. O semanário Independência de Águeda, que foi durante a publicação da 1.ª série o seu suporte material, deixaria de se publicar em 1969 com a morte de Celestino Neto, seu director, que o recebera em mãos por vontade expressa do conhecido médico, poeta e jornalista aguedense Eugénio Ribeiro.[167]

5. Conclusões

 É impossível avaliar, retrospectivamente e de forma aproximada, o impacto e a verdadeira importância cultural destes suplementos da imprensa regional junto dos leitores. Santos Simões pressentia, nos anos sessenta, ao comentar a influência e a acção que tinham nos “meios provincianos”, que eles visavam mais “corresponder às solicitações de elites intelectualizadas e a grupos mais ou menos circunscritos de indivíduos, do que dialogar com o geralmente bisonho e desconfiado burguês e o povo ingénuo, que apenas lêem o jornalzinho da terra, e parecem querer agora despertar para as coisas da cultura”.[168]

Também António Augusto Sales diria, na mesma altura, que tais suplementos e páginas culturais eram essencialmente literários e que, por isso, “não têm correspondido às necessidades dos leitores da Imprensa Regional”. Para agradarem a um público diverso e heterogéneo, essas publicações deveriam enquadrar-se, na medida do possível, “num esquema de trabalho que represente as artes, as técnicas e as ciências”.[169] Por outro lado, havia suplementos culturais com uma óbvia orientação ideológica e estética, perceptível de forma mais evidente nas rubricas destinadas à crítica de livros. A preferência das obras recenseadas recaía, quase sempre, em autores considerados próximos da tendência dominante nessas publicações. Atitude compreensível, já que para moldar os espíritos sobravam publicações afectas ao Estado Novo.

Podemos entrever, nos pontos de vista destas duas figuras representativas dos suplementos da imprensa regional, a crítica a um jornalismo cultural orientado preferentemente para os detentores da cultura erudita e a necessidade de estabelecer pontes com um público mais alargado. Tais objecções não impedem que se reconheça a esses suplementos o relevante papel que desempenharam na reflexão em torno das tendências da arte e do pensamento do seu tempo e na tentativa de promoção cultural do povo português, apesar de todas as dificuldades e constrangimentos que se atravessaram no seu percurso. A seu modo, combateram a rotina, o vazio e o pessimismo. Exercitaram a militância cívica e a cidadania adulta.

No que aos suplementos Companha e Independência Literária diz respeito, louve-se o desejo expresso de participarem no debate cultural, o esforço realizado e tudo o que ele implicou de resistência a condições adversas. Sem abdicarem de princípios essenciais, ambos exercitaram a cultura com espírito de tolerância, franquearam as suas portas a diferentes experiências e renovados contributos, no entendimento de que a cultura deve ser confraternização e nunca um egoísmo. Ambos souberam ser ponto de confluência de variadas opções críticas. Através deles, apesar da modéstia dos meios ao dispor e do ambiente de descrença que parecia contaminar toda a sociedade, as populações mais afastadas dos grandes centros urbanos começaram a tomar conhecimento das novidades – sobretudo literárias – que se publicavam em Portugal e no estrangeiro, mas também de outras expressões da criatividade e do saber. Dizemos sobretudo literárias, porque nessa altura alguns suplementos davam escassa ou nenhuma informação sobre cinema, teatro, bailado e artes plásticas em geral.

O suplemento Companha oscilou entre as 26 páginas (n.º 1) e as 34 (n.º 4). Os suplementos 2 e 3 apresentavam 24. Há policromia nas suas páginas e desenhos de David Cristo, Cláudio Torres, Gaspar Albino (também responsável pela orientação gráfica), Maria Virgínia, Zé Penicheiro e VIC (Vasco Branco). Independência Literária oscila entre as 4 e as 8 páginas. Sem policromia, estas apresentam um grafismo mais modesto, visualmente menos atractivo, com ilustrações praticamente a cargo de duas pessoas: o pintor Augusto Mota[170] e António Caseiro, o primeiro com desenhos e linóleos e o segundo apenas com desenhos. Companha apresenta uma mais equilibrada distribuição entre os temas genuinamente literários e a abordagem artística ou relacionada com as artes plásticas. Talvez por vir a público na primeira metade da década de 60 – relembre-se que o suplemento Companha publicou apenas quatro números, entre Setembro e Dezembro de 1959 – Independência Literária, com um tempo de vida mais duradouro, concedeu maior e mais ampla informação aos movimentos de vanguarda e contracultura que nessa época se perfilaram contra o neo-realismo português.

Qualquer destes suplementos, com preocupações mais formativas que noticiosas, se insere na categoria de imprensa cultural, literária e artística, atentas as áreas de interesse que encontramos na sua consulta. Com especificidades próprias em matéria de recursos humanos, técnicos e materiais, não deixaram por isso, no final dos anos 50 e início da década de 60 do século XX português, de se assumir como marcos representativos de promoção e divulgação cultural junto das populações abrangidas pelas suas áreas geográficas de intervenção.

As restrições económicas que estrangularam o suplemento Companha, resultantes da dificuldade em angariar os apoios publicitários que eram a sua principal fonte de sustentação, bem como a censura que se abateu sobre o suplemento Independência Literária, puseram cobro ao renovado voo de arejamento com que estas duas publicações ousaram desafiar o estagnado ambiente cultural português do seu tempo.

(Texto publicado na Revista Nova Síntese – Textos e Contextos do Neo-Realismo, n. 9,  Edições Colibri, 2014, pp. 137-191).


[1] Natália Correia, “Advertência às hierarquias sui generis”, Diálogo –  Suplemento de Cultura, Letras e Arte do Diário Ilustrado, n.º 22, 18.06.1957, p. 24.

[2] Eugénio Lisboa, Poesia portuguesa: do “Orpheu” ao Neo-Realismo, Lisboa, Biblioteca Breve, 1980 (1.ª ed.), p. 91.

[3] Idem, p. 92.

[4] Visão História, n.º 11, Fevereiro 2011, pp. 38-41.

[5] Independência Literária, n.º 26 Novembro, 1963, p. 2.

[6] António Nóvoa, “A educação nacional”, AAVV, Nova História de Portugal, p. 476, citado por Jorge Ramos do Ó, Os Anos de Ferro. O dispositivo cultural durante a “Política do Espírito” (1933-1949), Lisboa, Editorial Estampa, 1999, p. 135.

[7] Palavras de Santos Simões, coordenador de “Letras e Artes”, suplemento mensal do Notícias de Guimarães, ao I Encontro dos Orientadores das Secções Culturais da Província. Comunicação transcrita em Independência Literária, n.º 26, Novembro, 1963, p. 8.

[8] Ler. Jornal de Letras, Artes e Ciências, Ano 1, n.º 1, Abril 1952, pp. 1-2.

[9] Idem, p. 2.

[10] “Em jeito de balanço e autocrítica”, Suplemento Literário do Diário de Lisboa, n.º 594, 08.01.1970, pp. 1-2.

[11] Vértice, n.º 239, Agosto de 1963, p. 445.

[12] Independência Literária, n.º 19, Abril, 1963, p. 4.

[13] Idem, n.º 1, 2.ª série, 12.02.1965, p. 2.

[14] Maria-Benedita Basto, “Do ouvido sensível ao havido que incomoda. A propósito das ‘Cinco notas sobre forma e conteúdo’ de Álvaro Cunhal e das outras notas que sobre o mesmo assunto escreveram Fredric Jameson e Raymon Williams”, in José Neves (coordenação), Álvaro Cunhal. Política, História e Estética, Lisboa, Edições Tinta-da-China, 2013, p. 168.

[15] Mário Sacramento, Diário. Porto, Editora Limiar, 1975 (1.ª ed.), p. 361.

[16] Independência Literária, “Linha de Rumo”, n. º 1, 2.ª série, 12.02.1965, p. 2.

[17] António Maria Pereira, Ler. Jornal de Letras, Artes e Ciências, Ano 1, n.º 1, Abril, 1952, p. 1.

[18] Santos Simões, em resposta a um inquérito organizado por José Cruz. Ver Independência Literária, n.º 24, Setembro, 1963, p. 4.

[19] António Augusto Sales, Independência Literária, n.º 21, Junho, 1963, p. 4.

[20] José Cruz, “I Encontro dos Orientadores das Secções Culturais da Província”, Independência Literária, n.º 23, Agosto, 1963, p. 1.

[21] Arsénio Mota, em resposta ao inquérito lançado por José Cruz no próprio suplemento que dirigia. Idem, p. 4.

[22] Consulta electrónica em 23.02.2016 (correia-baptista-anos-60-periodo-viragem.pdf).

[23] Graça Franco, Censura à Imprensa (1820-1974), Imprensa-Nacional – Casa da Moeda, 1993, p. 137.

[24] Em 22 de Fevereiro de 1953 António Ramos de Almeida – figura representativa do movimento neo-realista –  foi encarregado de coordenar e orientar esta página, que então se publicava de 15 em 15 dias, às quintas-feiras, e com a qual se propunha “colaborar no movimento de divulgação e compreensão da Literatura, mais amplamente de todas as Artes, no sentido de esclarecer as suas grandes massas leitoras acerca daqueles complexos problemas que surgem da análise dos fenómenos estéticos”. Ramos de Almeida dirigiu o “Suplemento Literário” durante 8 anos. Após a sua morte, em 24 de Março de 1961, a coordenação viria a ser assumida por Nuno Teixeira Neves. Pelo “Suplemento Literário” do Jornal de Notícias passaram, entre outros vultos das letras e das artes, nomes como José Régio, Nuno de Sampaio, Donatelo Grieco, Alexandre Babo, Carlos Relvas, José Fernandes Fafe, Gonçalves Lavrador, António Pedro, Vasco da Gama Fernandes, Pina de Morais, Vítor de Sá, Taborda de Vasconcelos, Agostinho da Silva, Ilse Losa, Jorge de Sena, Guedes de Amorim, Alves Redol, Joaquim Paço d’Arcos, Papiniano Carlos, Lima de Freitas, Luís Francisco Rebelo, Luís Veiga Leitão e Mário Sacramento. Ver: “Ramos de Almeida: um suplemento literário tornado lareira pública”, Jornal de Notícias, 25.05.1988 (n.º 5, A memória do centenário – caderno de homenagem aos colaboradores do jornal).

[25] Fernando J. B. Martinho, prefácio a António Ramos Rosa, Poesia, Liberdade Livre, Lisboa, Ulmeiro/Universidade, 1986, p. 15.

[26] A Europa e Nós: Uma Polémica de 1853. A. Herculano, contra A. P. Lopes de Mendonça (Maria Filomena Mónica, org. e prefácio), Lisboa, Instituto de Ciências Sociais/Quetzal Editores, 1996.

[27] José Carlos de Vasconcelos, “Os suplementos culturais”, Cultura Sul, 05.08.2010. Consulta electrónica em 15.02.2016 (https://issuu.com/postaldoalgarve/docs/24cultura.sul01/16).

[28] Independência Literária, n.º 19, Abril, 1963, p. 4.

[29] Manuel Ferreira, “Vento ruim nas culturas regionais”, Independência Literária, n.º 13, Outubro, 1962, p. 3.

[30] Entrevista de Carlos Loures a Fernando Lopes Graça, in “Labareda”, suplemento de O Templário, Janeiro de 1964. Carlos Loures nasceu em Lisboa, em 1937. Poeta, escritor e editor diplomado em Técnicas Editoriais pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Entre 1958 e 1960 foi um dos colaboradores da revista Pirâmide. Foi responsável, entre 1964 e 1966, pela secção de crítica de poesia do Jornal de Notícias. Tem colaboração dispersa por vários jornais e revistas, como Setentrião (Vila Real), suplementos culturais do Diário de Lisboa, Diário Popular e Jornal de Notícias, e páginas e suplementos de jornais de província como Jornal de Évora, A Planície (Moura), O Templário e o seu suplemento Labareda (Tomar), A Nossa Terra (Cascais). Publicou Arcano Solar (1962), Hiroxima (1967), No Centenário de Romain Rolland (1967), Antologia da Poesia Contemporânea de Trás-os-Montes e Alto Douro (1968), A Voz e o Sangue (1968), A Poesia Deve Ser Feita Por Todos (1970), O Ministério do Amor (teatro, 1970), Vietname (1970), Poemabril (1984), Talvez Um Grito (1985), O Cárcere e o Prado Luminoso (1990), Mão Incendiada (1995) e A Sinfonia da Morte (2007). Consulta electrónica efectuada em 01.03.2016 (http://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=307). Em Dezembro de 2013 publicou, nas Edições Colibri, O atlas iluminado – manual de poemonáutica. As colectâneas de poesia Hiroxima, Vietname e Poemabril foram organizadas em conjunto com Manuel G. Simões, poeta e ensaísta, nascido em Jamprestes – Ferreira do Zêzere, em 1933. Foi, com Carlos Loures e Júlio Estudante, fundador da colecção e depois editora “Nova Realidade” (1966) e pertenceu à redacção da revista “Vértice” (1.ª Série), entre 1967 e 1969. Professor do Ensino Secundário (1969-1971), na extinta Escola Veiga Beirão, indo de seguida pata Itália, onde viveu de 1971 a 2003, primeiro como Leitor de Português nas Universidades de Bari e de Veneza, e, depois, Professor Associado na Universidade “Ca’ Foscari” de Veneza (1975-2001), tendo sido igualmente professor de língua e literatura portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Florença, entre 1986 e 1989. Foi um dos fundadores, em 1978, da revista “Rassegna Iberistica” (Veneza), a cuja redacção pertenceu até 2012. Autor de uma vasta obra poética e ensaística, e de várias traduções [Escritos Políticos, de Gramsci; Pasolini, Poeta (antologia); Primavera Hitleriana, de Eugenio Montale; e muitas outras, de italiano para português e de português para italiano (La Tela del Sogno, de Mário Cláudio, por ex.)], tendo sido toda a sua poesia publicada reunida em um volume, “O FLUIR DO TEMPO”, Edições Colibri, Lisboa, Novembro de 2015), e, no ensaio, a título de exemplo, Garcia Lorca e Manuel da Fonseca. Dois poetas em confronto (1.ª ed. Milano, 1979; 2.ª ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 2011); Auto da Índia, de Gil Vicente, apresentação crítica, fixação de texto, notas e sugestões para análise literária (Ed. Comunicação, Lisboa, 1991); Tempo com Espectador. Ensaios de Literatura Portuguesa (Ed. Colibri, Lisboa, 2011); Outras Margens. Ensaios de Literatura Brasileira, Angolana, Moçambicana e Caboverdiana, (Ed. Colibri, Lisboa, 2012).

[31] “A defesa do Folclore”, Independência Literária, n.º 1, Outubro, 1961, p. 2.

[32] Para uma análise mais aprofundada sobre a cultura e a arte popular no Estado Novo, ver: Daniel Melo, Salazarismo e Cultura Popular (1933-1958), Edição do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 2001; Salwa El-Shawan Castelo-Branco, Jorge Freitas Branco (org.), Vozes do Povo. A Folclorização em Portugal, Oeiras, Celta Editora, 2003; Vera Marques Alves, Arte Popular e Nação no Estado Novo. A Política Folclorista do Secretariado de Propaganda Nacional. Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 2013.

[33] A. Bandeira, “Arte popular e arte para o povo”, Vértice, n.º 75, Novembro, 1949, p. 287.

[34] “Apologia de um jornal de Artes, Letras e Ciências” [editorial]. Ler – Jornal de Letras, Artes e Ciências, Ano 2, n.º 19, Outubro, 1953, p. 2.

[35] Vítor Viçoso, A Narrativa no Movimento Neo-Realista. As Vozes Sociais e os Universos da Ficção, Lisboa, Edições Colibri, 2011, p. 43.

[36] Clara Rocha, Revistas Literárias do Século XX em Portugal, Imprensa-Nacional-Casa da Moeda, 1985, p. 33.

[37] “Um Suplemento Literário na Figueira da Foz”, Vida Literária e Artística, suplemento do Diário de Lisboa, n.º 413, 30.06.1966, p. 3.

[38] Clara Rocha, obra citada, pp. 572 e 574.

[39] “Actividades Literárias na Imprensa da Província”, Vida Literária e Artística, Diário de Lisboa, n.º 448, 02.03.1967, p. 2.

[40] Ilídio Rocha, A Imprensa de Moçambique: História e catálogo (1854-1975), Lisboa, Livros do Brasil, 2000.

[41] Giovanni Sartori, Partidos e Sistemas Partidários, Rio de Janeiro/Brasília, Zahar Editores, Uni­versidade de Brasília, 1982, p. 232, nota 8.

[42] Jacinto Baptista, Um jornal na Revolução. «O Mundo» de 5 de Outubro de 1910, Edições Seara Nova, 1966, p.11.

[43] Cf. Madeleine Grawitz, Méthodes des sciences sociales, Paris, Éditions Dalloz, 1993, pp. 511-512.

[44] Henri Berr, apud Jacinto Baptista, obra citada, p.13.

[45] António Pedro Pita, “Importância da imprensa periódica para o estudo do Neo-Realismo”, in A Imprensa Periódica na Génese do Movimento Neo-Realista (1933-1945). Edição do Museu do Neo-Realismo/Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 1996, p. 14.

[46]  Maria Zara S. Pinto Coelho, A Implantação da República na Imprensa de Braga, Dissertação de Mestrado em Comunicação Social [dactilografada], Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Hu­manas da Universidade Nova de Lisboa, 1990, p. 4.

[47] António Costa Pinto, O Salazarismo e o Fascismo Europeu. Problemas de interpretação nas Ciências Sociais. Lisboa, Editorial Estampa, 1992, p. 129.

[48] Entrevista a António Ferro, in Palavras no Tempo, Volume 1. Política. Diário de Notícias/Imprensa-Nacional Casa da Moeda, 1990, p. 59. Ver também Norberto Lopes, Visado pela Censura, Lisboa, Editorial Aster, 1975, p. 38.

[49] Jornal afecto ao Estado Novo. Publicou-se entre Outubro de 1964 e 25 de Julho de 1975. Tinha como director, em 1969, Flausino Correia.

[50] Lutador, “II Encontro da Imprensa Regional das Beiras”, Ano V, n.º 240, p. 8.

[51] Jorge Ramos do Ó, obra citada, p. 38.

[52] António Valdemar, “Maio de 65, o encerramento da Sociedade de Escritores”, Público, 20.05.2015, p. 47.

[53] Graça Franco, obra citada, p. 106.

[54] Entrevista de José dos Santos Marques a Mário Sacramento, in Diálogo – Suplemento de Cultura Letras e Artes do Diário Ilustrado, n.º 61, 22.04.1958, pp. 21-22.

[55] Semanário aveirense fundado por David Cristo, cujo primeiro número se publicou a 9 de Outubro de 1954. Nele colaboraram, ao longo dos anos, figuras de relevante dimensão cultural como Mário Sacramento, Agostinho da Silva, Amorim Girão, Egas Moniz, Ferreira de Castro, Hernâni Cidade, Barbosa de Magalhães, Joaquim de Carvalho, José Régio, Miguel Torga, José Marmelo e Silva e Fernando Namora, entre outros.

[56] David Cristo, “Ao zarpar…”, Companha, n.º 1, Suplemento do n.º 254 do Litoral, Setembro de 1959.

[57] Os 4 exemplares do suplemento Companha podem ser consultados em versão electrónica. Além de índices gerais por autores e por temas/assuntos, a consulta pode fazer-se página a página. Ver Henrique J. C. Oliveira, “Acerca de Companha”, disponível em http://www.prof2000.pt/users/avcultur/companha/Pg000100.htm. Consulta em 09.11.2015.

[58] Mário Sacramento, Diário, pp. 16-17.

[59] Ana Nascimento Piedade, “Mário Sacramento: Eça e a estética da ironia”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 02.10.2002, p. 22.

[60] David da Silva Cristo (1913-1987). Fundador e director do semanário Litoral (9 de Outubro de 1954) e do suplemento Companha. Licenciado em Direito, professor na Escola Técnica, no Seminário e na Universidade de Aveiro. Esteve ligado a instituições e associações do distrito, como o Museu da Vista Alegre, Bombeiros Novos de Aveiro, Liga dos Bombeiros Portugueses, Galitos e Beira-Mar, entre outros. Eram-lhe reconhecidas qualidades artísticas na pintura, na fotografia e na escultura, além da faceta de colecionador das mais variadas obras de arte (ver depoimento de Gaspar Albino em Litoral, 26.11.1998, p. 13).

[61] António Brásio (1906-1985). Padre da Congregação do Espírito Santo, responsável da revista Portugal em África, activo colaborador das comemorações henriquinas, autor, entre outras obras, de Monumenta Missionária Africana (22 vol.), Spiritana Monumenta Historica (5 vol.) e História e Missiologia.

[62] António de Almeida Silva e Cristo (1904-1963). Advogado, orador, deputado e publicista. Director, nos primeiros anos de publicação, do jornal de inspiração católica Correio do Vouga, fundado em 16 de Novembro de 1930. Para lá de vários trabalhos jurídicos, deu ao prelo publicações de cariz local como: A Indústria e o Comércio do Sal (1943); Antónia Rodrigues – A Heroína de Mazagão (1948); Os Governos da Nação e as obras do Porto e Barra de Aveiro (1949); O poeta João Afonso de Aveiro (1956); Cancioneiro de Santa Joana Princesa (1956); Jesuítas Aveirenses (1959), entre outras. Colaborou em diversas revistas e jornais. Era irmão de David Cristo, director de Litoral (ver João Gonçalves Gaspar, Aveiro na História, Edição da Câmara Municipal de Aveiro, 1997, p. 300).

[63] Carlos de Morais (1887-1975). Natural de Serzedo, mas radicado desde muito novo em Espinho, cidade a que dedicou muitos dos seus poemas e escritos para teatro e que o considerava o “poeta da serenidade e do amor”. É autor de Rosas desfolhadas (versos, 1912-1913). Em 1987 a Câmara Municipal de Espinho publicou uma Antologia Poética que reúne a sua obra.

[64] Manuel da Costa e Melo (1913-2002). Advogado, colaborador da imprensa regional e nacional, político e escritor. Fundador do Partido Socialista, esteve ligado, em Aveiro, à organização dos Congressos da Oposição Democrática. Governador Civil de Aveiro entre 1976 e 1979, escreveu vários livros sobre a vida forense. Publicou Ecos do Mesmo Grito (1960), Memórias Cívicas e A Ria a Preto e Branco (1988), Longes da Freita, Pertos da Ria (1991), Gente de Toga e Beca (1994) e Antes e Depois de Abril e Ilhas do Mundo Vário (1999).

[65] Eduardo Ala Cerqueira (1909-1983). Investigador e divulgador de história local. Correspondente de O Século e de O Primeiro de Janeiro e delegado de O Diário de Notícias. Colaborador das revistas Arquivo do Distrito de Aveiro, Aveiro e o seu Distrito e Boletim da ADERAV, bem como da imprensa regional (Correio do Vouga, Litoral e Jornal de Aveiro). Foi Presidente da Junta Autónoma do Porto de Aveiro entre 1971 e 1977 e membro das Comissões Municipais de cultura e toponímia.

[66] António Frederico Vieira de Moura (1909-2002). Licenciado em Medicina e em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra. Deputado eleito pelas listas do Partido Socialista na III e IV legislaturas. Colaborador de jornais e revistas, era um conferencista e comunicador brilhante. Dele disse Miguel Torga, amigo dilecto: “ser de eleição (…) pragmático e sonhador, ácido e sentimental, solitário e convivente com horas de formiga e horas de cigarra e sempre solidário e compassivo” (Litoral, 12.04.1979). Publicou Ressonâncias (edição FEDRAVE, Aveiro, 1999) e Pulso Livre (obra póstuma editada pela família).

[67] Joaquim António Gaspar de Melo Albino nasceu em Aveiro, em 21 de Agosto de 1938. Dirigiu graficamente, durante vários anos, o semanário diocesano Correio do Vouga e o suplemento Companha. Tem colaboração – crónicas e crítica de arte – dispersa em jornais de âmbito nacional e regional, nomeadamente Correio do Vouga e Litoral. Fez várias exposições individuais de pintura e desenho e colaborou também em exposições colectivas. É membro fundador de Aveiro-Arte, de que também foi Presidente da Direcção. Foi diretor do pelouro cultural do Clube dos Galitos, fundador do CETA e colaborador da Rádio Moliceiro. Ilustrador de livros de poesia e de contos e organizador de capas e design gráfico para livros de diversa índole. Foi vereador da Câmara Municipal de Aveiro em dois mandatos, com funções no pelouro da Cultura.

[68] João Evangelista Vieira Sarabando (1909-1996). Jornalista e etnógrafo. Tem colaboração dispersa em jornais e revistas como O Primeiro de Janeiro, O Comércio do Porto, O Século, República, A Capital, Diário de Lisboa, O Diário, A Bola, Aveiro e o seu Distrito, Litoral, Independência de Águeda e Ideia Livre, entre outros. Publicou Almanaque Desportivo de Aveiro (1950, em colaboração com Costa e Melo e Virgílio Veiga), 16 de Maio de 1828 (1956, em co-autoria), Cancioneiro de Aveiro (1966), Mário Duarte (1966), Três Ignorados Medalhistas Aveirenses (1972), Marques Sardinha e Maria Barbuda ao Desafio (1982), Cagaréus e Ceboleiros. Aveiro – Usos e Costumes (1999, publicação póstuma) e Livro da Amizade. Lembrando Mário Sacramento (2009, em colaboração com Cecília Sacramento e Joaquim Correia). Para mais dados biográficos sobre João Sarabando, ver Boletim da ADERAV, n.º 15, Setembro 1986.

[69] Joaquim dos Santos Correia nasceu em 1940. Colaborou no Cineclube e integrou o grupo fundador do CETA (Círculo Experimental de Teatro de Aveiro). Colabora na imprensa periódica desde os 17 anos, nomeadamente no Litoral e no suplemento cultural Companha, bem como no suplemento literário juvenil Vae Victis. Tem colaboração dispersa por outras publicações periódicas como Libertação, Independência Literária (suplemento cultural de Independência de Águeda), Jornal da Bairrada, Diário de Lisboa, suplemento literário do Jornal de Notícias e revista Vértice. Tem artigos publicados no 2.º volume da Enciclopédia de Literatura Verbo, no Boletim da ADERAV e na Revista da Universidade de Aveiro (Letras, Folhas). Licenciado em Filologia Românica em 1977, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi aí professor de Literatura Portuguesa, tendo exercido igualmente funções docentes na Universidade de Aveiro. Em paralelo com a actividade docente e de investigador universitário, foi sócio-fundador da AJEB (Associação de Jornalistas e Escritores da Bairrada), integrou a direcção da ADERAV (Associação de Defesa do Património Cultural e Natural da Região de Aveiro) e foi director do último suplemento literário de Litoral (Artes e Letras) que se publicou entre 1990 e 1992. Tem proferido várias palestras e conferências enquanto animador e divulgador da cultura portuguesa, quer sobre personalidades marcantes da vida nacional ou da região de Aveiro, quer ainda em sessões de lançamento de livros. Coordenou, com João Sarabando e Cecília Sacramento, a obra Livro de Amizade. Lembrando Mário Sacramento (Edições Húmus, 2009).

[70] José Penicheiro (1925-2014). Pintor, iniciou a carreira como caricaturista e ilustrador. Ao longo da vida ensaiou técnicas variadas como a decoração, o desenho animado, a gravura, painéis decorativos, aguarela, óleo e, finalmente, guache e acrílico. Fundou o Círculo de Artes Plásticas Aveiro-Arte. Tem colaboração dispersa em publicações e jornais de Lisboa e Porto, bem como em jornais regionais. Primeiro de Janeiro, A Bola, Os Ridículos, O Sempre Fixe ou A Bomba inseriram nas suas páginas cartoons humorísticos do pintor.

[71] José Pereira Tavares (1887-1983). Professor de Português, Latim e Grego. Reitor do Liceu de Aveiro. Fundador da revista LABOR, dedicada aos problemas do ensino liceal. Fundou também, em parceria com Francisco Ferreira Neves e António Gomes da Rocha Madail, a revista Arquivo do Distrito de Aveiro, que entre 1935 e 1976 desenvolveu uma actividade assinalável no conhecimento de Aveiro e da sua região. Deixou vasta colaboração em enciclopédias e revistas, nomeadamente a Revista de Filosofia Portuguesa (S. Paulo) e a História da Literatura Portuguesa, de Albino Forjaz de Sampaio.

[72] Luiz Carlos Regala de Figueiredo (1905-1986). Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, onde privou, entre outros, com Joaquim Namorado, que através dele diz ter tomado contacto com a Presença, revista do segundo modernismo. Exerceu advocacia em Aveiro. Tem colaboração dispersa por várias publicações, quase sempre em poesia, com o pseudónimo de Pedro Zargo: O Vigilante; Voz Académica; O Primeiro de Janeiro; Seara Nova; O Diabo; Litoral e suplemento cultural Companha; Correio do Vouga e suplemento cultural Serão de Letras e Artes; revista Panorama; Diário de Notícias; Beira-Mar; Almanaque Desportivo do Distrito de Aveiro; Revista Trimestral da Secção de Filatelia e Numismática do Clube dos Galitos; O Jornal de Estarreja. Grande parte da sua obra poética continua inédita, à espera de publicação, já que em vida apenas deu à estampa Cântico de Amor (1960). Entre os títulos que ia anunciando contam-se: O Teu Livro, Pequenos Poemas Infinitos, Poemas Frustrados, Noite Imensa, Poemas Lusíadas, Rio Negro, Corpo Inteiro, Canto Renovado e Chão em Fogo, longo poema em estrofes tipo camoniano, “o meu Canto ao Homem, ao Homem que todos nós somos, insaciável na sua Fome de Amor, de Justiça e de Paz” (Luiz Regala, O Meu Diário, inédito).

[73] Mário da Rocha Merendeiro (1931-2014). Professor do ensino secundário, ajudou a fundar o CETA (Círculo Experimental do Teatro de Aveiro) e a Secção de Artes Plásticas do Clube dos Galitos. Tem colaboração dispersa em várias publicações, como Litoral (onde dirigiu os suplementos Vae Victis e Diagonal), Correio do Vouga, O Ilhavense, Comércio do Porto e O Aveiro. Fundou o semanário Companha, órgão do movimento cooperativo, de que também foi director em 1979. Na qualidade de católico progressista, dialogou com Mário Sacramento, a quem passou a considerar “o meu maior amigo, o meu melhor leitor”. Publicou a colectânea de poemas Sinfonia Incompleta (1955), Frátria. Diálogo com os Católicos – ou talvez não (em co-autoria com Mário Sacramento), Tempo de Mudança (1978), A Falência do Cristianismo Burguês (1984) e Razões Secretas de uma Promoção (1985, depoimento).

[74] Vasco Augusto Pinho Ferreira Branco (1919-2014). Licenciado em Farmácia. Fundador do Cineclube de Aveiro. Co-fundador, na década de 70, do grupo Aveiro-Arte. Pintor, romancista, cineasta amador (ficção, documentário e animação), autor de painéis cerâmicos, animador cultural com uma carreira de méritos reconhecidos ao serviço da arte. Colaborou nas revistas Mundo Literário e Bandarra e em jornais regionais como Litoral e Libertação. Publicou Telhados de Vidro (1952), Flor Seca (1956), Gente ao Acaso (1957), Os Vagabundos Ilustrados (1959), Do Ignoto aos Satélites Artificiais (1959), As Regras do Jogo (1960), O Dóri Número Treze (1962), Iva e o Mar (1965), Roteiro Impopular de uma Cidade (1973), Os Generosos Delírios da Burguesia (1980, Grande Prémio de Ficção da Associação Portuguesa de Escritores), Palavras sem Voz (1985), Encontros imediatos sem qualquer grau (1993), A Cidade Salgada (1993) e Do Natal – Dez Histórias Impopulares (1994). Autor influenciado pelo neo-realismo, Vasco Branco, que usava o pseudónimo VIC para as artes plásticas e Amândio Sereno para alguma poesia, “foi, no campo das artes, o filho mais dotado que [Aveiro] criou até este momento” (Joaquim Correia, “Vasco Branco, a clareza natural”, in Vasco Branco. Vida Literária, edição da Câmara Municipal de Aveiro, 1999, p. 19.

[75] Jaime de Magalhães Lima (1859-1936). Irmão do republicano Sebastião de Magalhães Lima, viria a trilhar um percurso político diferente, já que tinha arreigadas convicções monárquicas.  Em 1852 fundou, com Manuel Firmino de Almeida Maia, O Campeão do Vouga, primeiro jornal aveirense que em 1859 passou a intitular-se Campeão das Províncias. Em 1892 é eleito Presidente da Câmara de Aveiro e, no ano seguinte, deputado pelo Partido Regenerador. Em 1901 alinha com João Franco na cisão deste partido, passando a dirigir a estrutura local do novo Partido Regenerador-Liberal. Afasta-se da política em 1908, com a queda do Franquismo. À semelhança de Herculano, uma das suas referências intelectuais, refugia-se na Quinta de S. Francisco, nos arredores de Aveiro, optando, a partir daí, pelo contacto íntimo e permanente com a natureza, o que lhe valeu ficar conhecido como o “eremita de S. Francisco” (ver Manuel J. G. Carvalho, Nação, nacionalismo e democracia em Jaime de Magalhães Lima, Aveiro, edição do Centro de Formação José Pereira Tavares, 1998). Publicou, entre muitos outros artigos em jornais e revistas, as seguintes obras: Alberto Sampaio e o significado dos seus estudos na interpretação da história nacional na sua época; Alexandre Herculano; O amor das nossas coisas e alguns que bem o serviram: Ramalho, Camilo, Eça, Antero, Oliveira Martins, Manuel da Silva Gaio, Lopes Vieira e Correa de Oliveira; Apóstolos da Terra; Camilo e a renovação do sentimento nacional na sua época; Côro dos Coveiros; A democracia: estudo sobre o governo representativo; Entre Pastores e nas Serras; Estudos sobre a literatura contemporânea; A guerra: Depoimentos de hereges; José Estêvão; A língua portuguesa e os seus mistérios; Na paz do Senhor; Os povos do Baixo-Vouga; Reino da Saudade; Rogações de Eremita; Salmos do Prisioneiro; Via Redemptora e Vozes do meu lar.

[76] Consulta electrónica: http://www.cetateatro.pt (em 18.12.2015).

[77] Entrevista de Armando Pereira da Silva a Costa Ferreira, Independência Literária, n.º 12, Setembro, 1962, p. 4.

[78] António Augusto Sales, “Cinema, Cineclubismo e Imprensa Regionalista”, Vértice, n.º 217, Outubro de 1961, pp. 636 a 638.

[79] Joaquim Correia, “Colóquio com José Régio” [Entrevista]. Companha, Artes – Letras – Ciências, Ano I, n.º 1, Suplemento do n.º 254 de Litoral, Setembro de 1959, pp. 3, 4 e 24.

[80] “O grande primeiro problema literário e artístico do realismo dos nossos dias” [entrevista a Mário Dionísio], in Jornal de Letras e Artes, Ano II, n.º 76, 1963, p. 6.

[81] José Régio, “Literatura livresca e literatura viva”, in Páginas de doutrina e crítica da “presença”, Porto, Brasília Editora, 1977, p. 46.

[82] José Régio, “Literatura viva”, idem, p. 7.

[83] Luís Forjaz Trigueiros, “Da Revista Presença ao Romance Existencial”, Jornal de Letras e Artes, Ano I, n.º 32, 1962, p. 12.

[84] António Sousa Ribeiro, recensão a Realismo, Materialismo, Utopia (Georg Lukács, Ernst Bloch, Hanns Eisler e Bertolt Brecht), in Revista Crítica de Ciências Sociais, n.º 6, Maio 1981, pp. 199-202.

[85] Alberto Pimenta, “O Teatro – arte, de intriga – escola de títeres e o anti-teatro de Ionesco”, Companha, Ano I, n.º 1, Suplemento do n.º 254 de Litoral, Setembro de 1959, pp. 17, 19 e 21.

[86] Clara Rocha, obra citada, p. 580.

[87] Alberto Pimenta, O Silêncio dos Poetas, Lisboa, Edições Cotovia Ld.ª, 2003, pp. 116-117.

[88] “O grande primeiro problema literário e artístico do realismo dos nossos dias”, entrevista citada [a Mário Dionísio], p. 13.

[89] Joaquim Correia, recensão a Mar Santo, de Branquinho da Fonseca. Companha, Ano I, n.º 2, Suplemento do n.º 261 de Litoral, Outubro de 1959, pp. 21-22).

[90] Mário Sacramento, “Cartas ao Autor”, Companha, Ano I, n.º 3, Suplemento do n.º 266 de Litoral, Novembro de 1959), p. 24.

[91] Mário Sacramento, Fernando Namora, Col. A Obra e o Homem, Lisboa, Arcádia, s/d [1967], p. 124.

[92] “O grande primeiro problema literário e artístico do realismo dos nossos dias”, entrevista citada [a Mário Dionísio], p. 13.

[93] José Alexandre, “Ionesco académico – ou as desventuras da vanguarda”, Comércio do Funchal, Ano XXXIII, II série, n.º 2051, 15.02.1970, p. 6.

[94] Idem, ibidem.

[95] Roland Barthes, “Na vanguarda de que teatro?”, in Ensaios Críticos, Lisboa, Edições 70, 1977, pp. 109-110.

[96] Roberto Nobre, “As imagens têm voz”, Companha, Ano I, n.º 4, Suplemento do n.º 271 de Litoral, Dezembro de 1959.

[97] “O grande primeiro problema literário e artístico do realismo dos nossos dias”, entrevista citada [a Mário Dionísio], p. 6.

[98] Mário Augusto de Almeida Braga. Nasceu em Coimbra, em 1921, onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas. Escritor, tradutor e jornalista. Publicou, entre outras obras, Nevoeiro (1944), Caminhos sem Sol (1948), Serranos (1948), Quatro Reis (1957), Histórias de Vila (1958), O Cerco (1959) e, já depois da revolução de Abril de 1974, Entre duas Tiranias (1977), O Intruso (1980), Contos Escolhidos (1983), As Rosas e a Pedra (1995), Contos de Natal (1995), Espólio Intacto (1996) e Momentos Doutrinais (1997).

[99] “Entrevista com Mário Braga”, Companha, Ano I, n.º 4, Suplemento do n.º 271 de Litoral, Dezembro de 1959, pp. 5-6.

[100] O jornal Independência de Águeda nasceu em 2 de Janeiro de 1904. Foram seus fundadores Manuel Bento Saldanha Camossa – também seu primeiro diretor – Eugénio Ribeiro, António de Sousa Sucena, Francisco Caldeira e António Abrantes. A redacção e a administração estavam localizadas na Praça Velha (Largo do Município). Os primeiros números foram impressos na Tipografia Minerva, em Aveiro, mas a partir de 23 de Abril de 1904 já dispunha de tipografia própria. Até 1907 era um jornal monárquico identificado com o franquismo. A partir de Janeiro de 1908, sob a direcção de Eugénio Ribeiro, passou a jornal republicano. (Ver Deniz Ramos, “A fase franquista de Independência de Águeda”, in Suplemento do jornal Soberania do Povo, n.º 8399, de 06.01.2006, pp. 3 a 6).

[101] Arsénio Simões Mota nasceu em Bustos, freguesia do concelho de Oliveira do Bairro, distrito de Aveiro, em 25 de Abril de 1930. É sócio da Associação Portuguesa de Escritores, do Sindicato dos Jornalistas, do Centro de Formação de Jornalistas, da Associação de Jornalistas e Escritores da Bairrada (da qual foi fundador e o primeiro director), da Sociedade Portuguesa de Autores e da Sociedade da Língua Portuguesa, entre outras entidades. Autor multifacetado, tradutor e editor, tem, para lá da caudalosa produção jornalística (Gazeta do Sul, A Planície, Gazeta de Cantanhede, Independência de Águeda, Jornal da Bairrada, Região Bairradina, Litoral, Mar Alto, Jornal do Fundão, República, Jornal de Notícias), uma vasta obra publicada em diversos caminhos da escrita: na poesia, com o pseudónimo Arsénio de Bustos, O Canto Desconforme (1955), Hoje com Harmonia Dentro (1956) e A Voz Reencontrada (978); na crónica, Som de Origem (1985) O Museu no Sótão (1993) ou Letras sob Protesto (2001); no conto, O Vírus Entranhado (1999), na literatura para crianças, A Corte na Aldeia, O Segredo da Rocha, A Bandeira Escondida, O Mistério da Floresta Mágica, A Ilha das Bocas Abertas, entre outras; no ensaio, Inclinações Pontuais (2000), na narrativa, Quase Tudo Nada (2006); na vertente monográfica, trabalhos sobre a terra natal: Bustos. Elementos para a sua história, (1983), Bustos do Passado (2000), Recordações do Berço (2003), Historial de Bustos (2010); finalmente, no âmbito da promoção dos valores culturais da Bairrada, Estudos Regionais sobre a Bairrada (1993), Pela Bairrada (1998) e Figuras das Letras e Artes na Bairrada (2001). Para uma análise mais aprofundada da vida, da obra literária e da bibliografia activa e passiva de Arsénio Mota, ver: Serafim Ferreira (coordenação), Arsénio Mota – 50 anos de escrita, Porto, Campo das Letras, 2005; Arsénio Mota- uma vida como obra, edição da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira/Museu do Neo-Realismo, 2014.

[102] Arsénio Mota, “Um Ano”, Independência Literária, n.º 12, Setembro, 1962, p. 1.

[103] “Aos Leitores”, Independência Literária, n.º 1, Outubro, 1961, p. 1.

[104] Cândido de Azevedo, A Censura de Salazar e Marcelo Caetano, Lisboa, Editorial Caminho, SA, 1999, p. 341.

[105] Nasceu em Oliveira de Frades (concelho do distrito de Viseu), em 31.12.1940. Exerceu jornalismo em O Comércio do Porto, Diário de Lisboa, revista Alavanca, O Diário, Jornal de Queluz e Grande Amadora.

[106] Segundo Arsénio Mota, trata-se de José da Cruz Santos, editor portuense que nasceu em 1936. Dirigiu a Inova, uma das mais importantes editoras dos anos 70 que tinha na direcção literária Óscar Lopes e contava com o grafismo de Armando Alves. Trabalhou, também, na editora Portugália e prosseguiu a aventura editorial na Oiro do Dia, que desaparece no início dos anos 80. Prolonga as suas colecções na D. Quixote e na Campo das Letras. Em 1999 entra na ASA, a convite de Américo Areal, onde permanece 10 anos. Actualmente, trabalha na Modo de Ler.

[107] Pseudónimo de Luís Duarte Lima, natural de Castelo Branco, onde nasceu em 04.01.1926. À data da colaboração no suplemento tinha publicado Os Poemas de Setembro (1950), Poema de Amor (1951), Cidade em Fogo (1953), Regresso à terra (1953), Relances (1955), Ressurreição (ou As mãos e o Barro) – 1958 e  Carrocel (1960).)

[108] António Vicente Campinas (1910-1998). Poeta e prosador algarvio, natural de Vila Nova de Cacela (Vila Real de Santo António), onde exerceu as profissões de tipógrafo e guarda-livros. Exilou-se em Paris e viu algumas das sua obras apreendidas pela PIDE, como é o caso de Fronteiriços (1952), Travessia (1953), A Ilha dos Sonhos Malditos? (1954), Raiz da Serenidade (1967) e Catarina (1967). Colaborador de vários jornais e fundador do Jornal do Cinema e, em 1935, do periódico Foz do Guadiana. Entre poesia, prosa e obras em colaboração com outros autores, tem mais de trinta livros publicados.

[109] Serafim Ferreira (1939-2015). Era, à data, director do jornal portuense de cultura Saturno. Escritor, tradutor, editor e crítico literário. Responsável literário da editora Ulmeiro e subdirector de programação do Círculo de Leitores. Tem artigos, crónicas e ensaios publicados em revistas e jornais como A Capital, Jornal do Fundão, Diário de Lisboa, Diário Popular, República, Jornal de Letras e Artes, A Página da Educação, Vida Mundial e Colóquio Letras. Publicou Noite de Libertação (1960), O Trompete (1962), Litoral do Espanto (1968), Álvaro (revisitado) de Campos (1985, Prémio Literário Joaquim Namorado), Cartas de Marear (1989, Prémio Literário Cidade da Amadora), Olhar de Editor (1993), Crónica de Damião (1997, Prémio Literário Miguel Torga), Cleonardo e o Príncipe (2003, Prémio Vergílio Ferreira), Raul de Carvalho – entre o Silêncio e a Solidão, António Fernando Ou o Ritual da Pintura, Cantata Em Dois Andamentos, O Poeta e a Pedra, Livro de Horas, Sombras e Lugares e Estranha Obsessão (2010), o seu último romance.

[110] António Augusto Menano nasceu em Coimbra, em 1937. Coordenou, nos anos 60, os suplementos literários “Hoje e Amanhã” e “Artes e Letras”, respectivamente dos jornais Notícias da Figueira da Foz e Mar Alto. Escritor, poeta e pintor. Vereador da Câmara Municipal da Figueira da Foz entre 1982 e 1988. Tem colaboração dispersa por jornais e revistas de Portugal, Angola, Moçambique, Macau, Espanha e Brasil. Colabora no jornal As Beiras. Está representado em 15 antologias. Recebeu os prémios nacionais de poesia Sebastião da Gama, Oliva Guerra e Fânzeres. Entre as obras publicadas contam-se Tempo de Voar (1961), Tempo Vivo (1963), Poemas da Taipa, Poemas do Oriente (1991), Poemas de Macau, Caleidoscópio (1996), Arco da Memória (1998), Poemas da Roxa Aurora (2009, edição portuguesa), Inominável Segredo, Transire (Ventos no Casaco), 2003, Qual o começo de tudo isto?, A Guardiã e Memória da Luz e Outros Poemas.

[111] Garibaldino de Andrade (1914-1970). Natural de Ponte de Sor. Estudou em Portalegre e concluiu o curso do Magistério Primário em Coimbra. Escritor, professor do ensino primário, jornalista, editor e livreiro. A partir de 1937 substitui o pai – Primo Pedro da Conceição Freire de Andrade – no jornal quinzenário A Mocidade, de Ponte de Sor, que se publicou entre 1926 e 1940, num total de 336 exemplares. Deixou o Alentejo para se radicar em Angola (Palanca, Huíla), em 1953. Em 1957 muda-se para Sá da Bandeira (hoje, Lubango) onde funda, com Leonel Cosme, as Publicações Imbondeiro, a primeira editora a praticar a lusofonia e que se viria a transformar na maior editora de Angola. Publicou, entre outras obras, Vila Branca (1944), O Sol e a Nuvem (1949), Sete Espigas Vazias (1955), O Homem e o Sardão (1960), Contos de África (1961) e Árvores no Caminho. Tem colaboração dispersa em jornais e revistas como Seara Nova, Pensamento, O Diabo, Vértice, A Província de Angola, Diário de Notícias, e O Estado de S. Paulo.

[112] António Joaquim da Costa Ferreira (1918-1997). Natural de Elvas. Licenciado em Direito (Ciências Histórico-Jurídicas) em 1943, acabou por fazer carreira no teatro, onde foi autor, actor, encenador e tradutor de textos dramáticos. As suas produções e representações dramáticas centram-se essencialmente na década de 50, altura em que estreou Por um Fio (1950), Trapo de Luxo (1952), Milagre da Rua (1952), Quando a Verdade Mente (1955), Atrás da Porta (1956), Comédia das Verdades e das Mentiras (1956), Um Dia de Vida (1958) e Um Homem Só (1959). Nos anos 60 viu duas obras proibidas pela censura: Os Desesperados e O Quarto. Só depois da Revolução de Abril publicaria o volume memorialístico Uma Casa com Janelas para Dentro. Veria ainda a sua peça Onde Está a Música? (edição da Escola Superior de Teatro e Cinema) estrear no Teatro da Malaposta, numa encenação de Rui Mendes, em 10 de Julho de 1992.

[113] Eduardo Teófilo (1923-1980). Escritor radicado em Angola. Publicou Alentejo não tem Sombra (1954), Vida ou Pecado (poesia, 1955), Estrelas da Noite Escura (1958), Tempestade (1960), O Regresso do Emigrante (1961), Quando o Dia Chegar (1962), Primeiro Livro de Horas (poesia, 1964), Cacimbo em Angola (1966), Contos Velhos (1971).

[114] Deniz Cruz de Ramos Padeiro. Natural de Covões, concelho de Cantanhede, onde nasceu em 13.07.1934. Colaborador da imprensa regional. Escritor e investigador de temas históricos. Co-fundador da ADERAV. Publicou O Mensageiro Assassinado (poesia, 1957), A Palavra Lavra, (poesia, 1974), Os Primeiros Senhores de Águeda, (1985), Águeda, Anos 20. Da Escola Primária Superior à Escola Comercial e Industrial (1989), Soberania Centenária (1989), Tavares da Silva e os Espumantes na Bairrada (1990), Subsídios para a História da Vinha na Bairrada (1991), Jornal Soberania do Povo, 1879-1994, 115 anos (1995), Escola Popular (1999), Do Teatro que Houve em Águeda (2001), O Sentimento da Terra. Poesia, 1953-1958 (2001), Auto da Visitação (romance, 2001), O Convento de Santo António de Serém (2005), Bombeiros de Águeda. Contributo para a sua história (2007), Orfeão de Águeda. Achegas para a sua história (2008), Da Monarquia à República: leituras em jornais de Águeda (2012), Peixes da Montanha (romance, 2014) e Da Fundação das Filarmónicas em Águeda (2014).

[115] João Apolinário Teixeira Pinto (1924-1988). Nasceu em Belas, Sintra. Poeta e jornalista português. Colaborou em diversas publicações periódicas de Portugal e do Brasil, país onde se exilou em 1963 por motivos políticos. Regressou a Portugal em 1975, após a Revolução de Abril. Foi co-fundador do Teatro Experimental do Porto. Publicou, entre outros trabalhos, Morse de Sangue (1955), O Guardador de Automóveis (1956), A Arte de Dizer (teatro), Portugal – Revolução Modelo (1974), Apátridas (1975), AmorfazerAmor (1978), Poemas Cívicos, O Poeta Descalço, Eco Húmus Homem Lógico, e, entre 1980 e 1988 escreveu e deixou inéditos os Sonetos Impopulares Incompletos.

[116] José Ferraz Diogo nasceu em Coimbra, em 1936. Exerceu funções docentes como professor de Português e Francês. Fundou e dirigiu jornais em quatro das seis escolas onde lecionou. Escreve e encena peças de teatro, sobretudo de fantoches. Em 1968 funda e dirige o Cineclube de Abrantes, passando a publicar textos sobre cinema em revistas da especialidade. Em 1965 publica o livro de poesia A Palavra. Em 1974 edita 3 livros de teatro infantil. Em 1993 organiza e prefacia a 6.ª edição de Versos dum Cavador, do poeta popular Manuel Alves. Em 1997 organiza Manuel Rodrigues Lapa – Fotobiografia, no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento. Tem colaboração dispersa por vários jornais e revistas, que inclui poemas, contos e artigos de opinião. Redige textos para catálogos de exposições de artes plásticas.

[117] Nasceu em Guimarães, em 1934. Em 1950 partiu para Angola, onde, com Garibaldino de Andrade, desenvolveu uma notável acção cultural através das Publicações Imbondeiro. Trabalhou no Rádio Clube de Huíla e colaborou na fundação do seu Cineclube. Jornalista, cronista, contista, escritor e investigador, publicou Um Homem de Rua (1957, livro de estreia, aos 23 anos), Quando a Tormenta Passar, livro de contos galardoado com o prémio Fialho de Almeida, GracianoA Dúvida (1961, prémio Camilo Castelo Branco), Revolta (1963), Ecce Homo (1973, livro de poemas), Cultura e Revolução em Angola (1978), Agostinho Neto, a Poesia e o Homem (1984), A Terra da Promissão (A Revolta – II, 1988), A Hora Final (A Revolta – III, 1992), Agostinho Neto e o Seu Tempo (2005), Crioulos e Brasileiros de Angola (2005), Muitas são as Áfricas (2006) e A Separação das Águas (2007). Regressou a Portugal em 1987, onde continuou a exercer a actividade jornalística na imprensa e na rádio. Em 1990 retira-se do jornalismo profissional e passa a dedicar-se à actividade literária em jornais e revistas da especialidade. Colaborador da Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, tem apresentado várias participações em congressos, seminários e colóquios.

[118] António Augusto Sales nasceu em 1936, em Torres Vedras. Coordenou a secção mensal “Suplemento” do jornal Badaladas, a partir de 17.06.1961, e esteve intimamente ligado ao Cineclube de Torres Vedras. Publicou Diário de Um Espectador de Cinema (1961), A Primeira Manhã (1964), Uma Longa e Estranha Pausa (1970), Barcelona, Cidade na Catalunha (1972), Requiem pelos Fiéis Defuntos (1976), Cartas da Revolução (1978), Corpo Enigmático (1993), Uma Mulher no Papel (1996), António Botto, Real e Imaginário (1997) e Os Guardadores do Tempo (2007).

[119] Idalécio da Silva Cação nasceu em 1933, na freguesia de Alhadas, concelho da Figueira da Foz. Esteve ligado, nos anos 60, ao Círculo Experimental de Teatro de Aveiro. Licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra, exerceu funções docentes nas Universidades do Minho e Aveiro. Tem colaboração dispersa por várias publicações periódicas da região de Aveiro, nomeadamente Litoral, Libertação, Independente de Cantanhede e outras. Fundou e coordenou os suplementos literários “Sal Gema”, do Jornal do Oeste (Rio Maior) e “Diálogo” do jornal Beira-Vouga (Albergaria-a-Velha). É sócio da Associação Portuguesa de Escritores, da Associação Cultural Sol XXI e da Associação de Jornalistas e Escritores da Bairrada. Ficcionista e poeta, publicou Nas Fronteiras do Tédio, (1961), As Evidências e o Prisma (1963), Raízes na Areia (1968), Os Sítios Nossos Conhecidos (1990), Daqui Ouve-se o Mar (1991), O Chão e a Voz (1998), Sobre a Gândara e a Casa Gandaresa (1999), Glossário de Termos Gandareses (2002) e Crónicas Gandaresas (2006).

[120] Coordenador, à data do I Encontro, do suplemento mensal “Letras e Artes” do Notícias de Guimarães. Joaquim António dos Santos Simões (1923-2004) nasceu em Espinhal, concelho de Penela, distrito de Coimbra. Licenciado em Ciências Matemáticas e Engenharia Geográfica. Nos anos 40 do século XX foi director, encenador e actor do TEUC – Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra. Eleito Presidente da Associação Académica de Coimbra no ano lectivo 1950-1951. Em 1957 fixa residência em Guimarães, onde passa a exercer funções docentes no ensino público. É um dos fundadores do Cineclube de Guimarães e do Teatro de Ensaio Raúl Brandão e esteve ligado ao Círculo de Arte e Recreio. Em 1968 seria expulso do ensino por causa da sua militância contra o Estado Novo. Em 1990 é eleito Presidente da Sociedade Martins Sarmento, uma das mais importantes instituições culturais de Guimarães. Tem colaboração dispersa por várias publicações periódicas. Autor de vasta bibliografia, que vai da literatura para crianças ao conto e à poesia, do ensaio ao memorialismo e da história local à política, publicou, entre outras obras, Sete Anos de Luta contra o Fascismo – Academia de Coimbra 1944-1951 e Braga, Grito da Liberdade – História Possível de Meio Século de Resistência. A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra recebeu, em 2016, parte do seu arquivo pessoal.

[121] António Oliveira Cordeiro de Melo (1925-2008). Foi um dos fundadores, em 1961, de “Suplemento” (jornal Badaladas, de Torres Vedras), juntamente com António Augusto Sales e Ruy Moura Guedes, entre outros. Residia em Merceana, concelho de Alenquer. Professor do Ensino Primário, colaborou no Jornal de Alenquer, de que foi um dos fundadores. Co-autor da monografia O Concelho de Alenquer e do livro Contos Portugueses. Publicou diversos estudos sobre os usos e costumes, lendas e trabalhos agrícolas da região, entre os quais Merceana, sua lenda e projecção cultural na Estremadura e O Vinho nas Artes. Tinha o curso de Artes Decorativas do Instituto António Arroio, tendo-se destacado como artista plástico, na pintura e na marcenaria. Já depois de se ter aposentado do Ensino, viria a obter a licenciatura em História. Consulta electrónica em 19.02.2016 (http://lugaronde.blogspot.pt/2008_07_01_archive.html).

[122] Fèlix Cucurull (1919-1996). Escritor e político da Catalunha. Entre a sua vasta bibliografia publicou em português O Último Combate, O Deserto, O Silêncio e o Medo e Às 21.13.

[123] António José Forte (1931-1988). Natural de Póvoa de Santa Iria (Vila Franca de Xira) foi um poeta ligado ao movimento surrealista, que integrou o chamado Grupo do Café Gelo. Colaborou na revista Pirâmide e em jornais como A Rabeca, Notícias de Chaves, O Templário, Diário de Lisboa, A Batalha e Jornal de Letras, Artes e Ideias. A sua obra de estreia é 40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas (1958). Publicou Uma rosa na tromba de um elefante (poesia infanto-juvenil) e, em 1983, Uma faca nos dentes, obra que reúne a sua poesia.

[124] Vasco da Costa Marques (1928-2006). Poeta e militante antifascista, escreveu o hino “Caxias” (letra e música), uma canção de resistência dirigida aos presos políticos. Colaborou em jornais e revistas como Vértice, Seara Nova, Notícias do Bloqueio e Diálogo. Publicou Trânsito Proibido (1950), Poesia dos Dias Úteis (1956), O Mundo Possível (1961), Um Beco no Espaço (1970), Venham de Lá Esses Ossos (2002) e Algumas Trovas de Haver o Mar e um Post Scriptum (2003).

[125] Independência Literária, n.º 7, Abril, 1962, p. 2.

[126] José Cruz, “Notas para um Encontro entre Suplementos”, Independência Literária, n.º 18, Março, 1963, p. 2.

[127] Manuel Deniz Silva, “Cinco notas sobre o pensamento estético de Álvaro Cunhal”, in Álvaro Cunhal. Política, História e Estética, (José Neves, coord.), Lisboa, Tinta da China, 2013, p. 177.

[128] Roland Barthes, “O efeito de real”, in O Rumor da Língua, Lisboa, Edições 70, pp. 131-136.

[129] “O culto da personalidade”, Independência Literária, n.º 2, Novembro, 1961, p. 1.

[130] “Margem Livre”, idem, n.º 4, Janeiro, 1962, p. 1.

[131] Entrevista a Manuel Ferreira, idem, pp. 1-2.

[132] Entrevista a Garibaldino de Andrade, idem, n.º 5, Fevereiro, 1962, p. 3.

[133] Máximo Lisboa, “Heliolatria”, idem, n.º 6, Março, 1962, p. 5.

[134] Joaquim Correia, “Encontro com o poeta Luís Veiga Leitão”, Independência Literária, n.º 9, Junho, 1962, p. 3.

[135]  Luís de Sttau Monteiro, “Os mitos do modernismo”, idem, n.º 15, Dezembro, 1962, p. 1. Excerto dum discurso publicado na Gazeta Musical, n.º 137.

[136] António José Saraiva, “As coordenadas do neo-realismo”, Independência Literária, n.º 13, Outubro, 1962, pp. 1 e 4.

[137] Correia da Fonseca, “Anti-literatura”, idem, n.º 17, Fevereiro, 1963, pp. 1-2.

[138] Segundo Arsénio Mota, Vasco Graça Moura confessou-lhe que foi em Independência Literária que pela primeira vez publicou textos na imprensa.

[139] Vasco Graça Moura, “Hora Di Bai, ou comentários em torno de um novo romance neo-realista”, idem, n.º 15, Dezembro, 1962, pp. 1-3.

[140] Armando Pereira da Silva, “Sobre um caminho errado”, idem, n.º 19, Abril, 1963, pp. 1-2.

[141] Idem, ibidem.

[142] Clara Rocha, obra citada, p. 573, notas 2, 3 e 4.

[143] Jornal de Letras e Artes, Ano 1, n.º 35, 30.05.1962, pp. 1 e 4.

[144] Entrevista a Armando Pereira da Silva. Independência Literária, n.º 26, Novembro, 1963, p. 3.

[145] Jornal de Letras e Artes, n.º 35, 06.06.1962, p. 9.

[146] Idem, ibidem.

[147] José Carlos de Vasconcelos, “A literatura dita nova e a juventude perante a literatura”, idem, pp. 1 e 14-15.

[148] Título de um volume colectivo de poesia, organizado em fascículos, onde se pode detectar “um manifesto interesse pela linguagem enquanto forma”, uma procura, no dizer de Carlos de Oliveira, do “micro-rigor da palavra”, além de uma vincada herança surrealista. Ver Clara Rocha, obra citada, p. 583.

[149] Antologia de poesia, organizada em 1962 por Mário Dias Ramos e Dórdio Guimarães, onde colaboravam A. Ramos Rosa, Fiama H. P. Brandão, Maria Teresa Horta, Teresa Rita, Olímpio Neves, João Apolinário e os próprios organizadores.

[150] Arsénio Mota, “Breve reflexão”, Independência Literária, n.º 10, Julho, 1962, p. 2.

[151] Ana Hatherly, O espaço crítico – do simbolismo à vanguarda. Lisboa, Editorial Caminho, 1979, pp. 114 e 120.

[152] Serafim Ferreira, “Breve nota sobre Poesia desde 1960”, citado por A. Pereira da Silva, recensão a Tempo Vivo, de António Augusto Menano, Independência Literária, n.º 20, Maio, 1963, p. 5. Os cinco elementos de Poesia 61 eram Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luísa Neto Jorge e Maria Teresa Horta.

[153] Alfredo Margarido, “A poesia concreta faz auto-crítica”, idem, n.º 11, Agosto, 1962, p. 1.

[154] Ana Hatherly, obra citada, p. 114.

[155] Idem, ibidem.

[156] Augusto Mota, O surrealismo”, Independência Literária, nº. 22, Julho, 1963, p. 1.

[157] João Pinharanda, “Surrealismo em Portugal: A Ampola Miraculosa”, Fim de Semana (Suplemento do Púbico), n.º 446, de 24.05.1991, p. 5.

[158] Entrevista a Leonel Cosme. Independência Literária, n.º 21, Junho, 1963, p. 1.

[159] Mário Sacramento, Fernando Namora, p. 138.

[160] “Entrevista com Teixeira de Sousa”, Independência Literária, n.º 7, Abril, 1962, pp. 1 e 3. Ver também Manuel Ferreira, “A propósito de modernos poetas cabo-verdianos”, idem, n.º 4, Janeiro, 1962, pp. 1, 3 e 6.

[161] Arsénio Mota, “Um Ano”, idem, n.º 12, Setembro de 1962, p. 1.

[162] “Em torno de um patrocínio”, idem, n.º 16, Janeiro, 1963, p. 1.

[163] “Apresentação”. Independência Literária. Secção cultural do semanário Litoral, n.º 1, 2.ª série, 12.02.1965, p. 1.

[164] “Explicação aos leitores”, Independência Literária, n.º 28, Janeiro, 1964, p. 2.

[165] Agradeço a Arsénio Mota a informação sobre os problemas relacionados com a tipografia privativa do jornal, bem como a cedência do contrato que celebrou com o director de Litoral.

[166] “Apresentação”. Independência Literária. Secção cultural do semanário Litoral, n.º 1, 2.ª série, 12.02.1965, p. 1.

[167] Eugénio Ribeiro (1872-1962). Governador Civil de Aveiro durante a I República. Dirigiu desde 04.01.1908 o semanário republicano Independência de Águeda, fundado em 02.01.1904 por Manuel Bento Saldanha. Para outras notas biográficas sobre Eugénio Ribeiro, ver Arsénio Mota, Figuras das Letras e Artes na Bairrada, Porto, Campo das Letras, Setembro de 2001 (1.ª ed.), p. 138. Ver também, em suporte digital, Dicionário de Autores da Bairrada (2ª. ed., revista e aumentada).

[168] Santos Simões, na resposta ao inquérito organizado por José Cruz no suplemento Independência Literária, n.º 24, Setembro, 1963, p. 4.

[169] António Augusto Sales, idem, n.º 27, Dezembro, 1963, p. 7.

[170] Augusto Mota nasceu em Ortigosa, Leiria, em 1936. Na década de 60 colaborou activamente, com textos e ilustrações, no movimento cultural dos suplementos e páginas literárias da imprensa regional. Licenciado em Filologia Germânica, foi professor de Artes Visuais na Escola Industrial e Comercial de Leiria/Escola Secundária Domingos Sequeira, entre 1959 e 1996. Afirmou-se sobretudo no domínio das artes plásticas e visuais (desenho, pintura, mosaico, gravura e publicidade). Colabora, desde 1950, com o poeta alentejano António Simões, com ilustração de poemas seus. Autor de capas de livros (nomeadamente para a Livraria Martins, de Leiria) e de ilustrações para livros de poesia, além de maquetas e cenários para grupos de teatro. É autor de logótipos para várias empresas e associações da região de Leiria, bem como escritor e autor de textos para banda desenhada. Em 1959 publicou, em edição de autor, o caderno de prosa Quadriculado. Em Outubro de 2005 editou Sujeito Indeterminado, um “breviário de textos brevíssimos”. Tem no seu currículo um vasto número de exposições individuais e colectivas. Tem vindo a colaborar, com textos curtos, na revista Rodapé, da Biblioteca Municipal de Beja. Consulta electrónica em 26.02.2016 (http://romadevidro.blogspot.pt/2005/09/fotografia-de-augusto-mota-pensamento.html).