Vinte e cinco anos sem David Mourão-Ferreira

Apartou-se do nosso convívio num dia 16 de Junho, há precisamente vinte e cinco anos. Poeta, romancista, crítico literário e ensaísta, considerava-se sobretudo poeta do amor e dos sentidos. Mestre de vários géneros literários, manteve sempre uma relação muito próxima com as mulheres, a quem olhava como arte e como música, talvez como reacção à ameaça constante do informe. A imagem do sedutor colou-se-lhe à pele. Ele ripostava, dizendo que não, que os homens não seduzem, acabam sempre seduzidos.

Muitos viram nele o poeta do amor e da sensibilidade, como acontece neste poema magistral sobre a mulher:

ILHA

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

In Cem Sonetos Portugueses.
Edição Terramar, 2002.

Em boa hora Agostinho da Silva o encaminhou para a Literatura, pela qual viria a sentir uma avassaladora paixão e um genuíno amor, num tempo em que o pai desejava que optasse por Direito. Um eterno sedutor, com o prazer constante de ensinar: “Há duas coisas que não dispenso – estar com uma mulher e ensinar”.

Lisboeta dos quatro costados e poeta de Lisboa, era também um viajante inveterado, capaz de voar para as sete partes do mundo. Nos lugares por onde passou captou ritmos e imagens, exprimiu emoções, engendrou metáforas. Amantíssimo dos clássicos, cultivava no poema a divina proporção, num virtuosismo sem falhas. Uma poesia capaz de triunfar sobre a desordem e de impor regras ao caos precário da existência. Uma poesia capaz de transformar o caos em cais de aventuras sempre renovadas.

“Um Amor Feliz”, título do seu último romance que venceu o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, assim se poderia condensar a sua vida. Um amante da vida e dos seus prazeres: “o que acho cada vez mais extraordinário é a vida, a maravilha que é estarmos vivos”.

CASA

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

In Antologia Poética.
Publicações D. Quixote, 1983, p. 97.

Poeta em viagem sem regresso há vinte e cinco anos, continuamos a reter no écran da memória, para lá da sua obra, também aquela presença envolta numa nuvem branca de tabaco de cachimbo. Uma vida que ele desejou reduzida a um monumento de palavras. Escasseiam as palavras para exprimir a vida e a falta que David Mourão-Ferreira ainda hoje nos faz.

Memória e louvor da editora Cotovia

Há pelo menos duas editoras que sempre associei a pássaros: A Minerva, que nos remete para a coruja, e a Cotovia. Mas os pássaros são imprevisíveis: uns regressam, como as andorinhas em seus voos rasantes. Outros desaparecem de vez, como aconteceu agora a esta prestigiada editora.

A coruja de Minerva está associada à sabedoria. O filósofo idealista Hegel, de quem Marx é tributário, escreveu que a coruja de Minerva só voa à noitinha. Queria com isto dizer que uma civilização só atinge a sabedoria quando se aproxima do crepúsculo. A sabedoria necessária para a salvar aparece, por assim dizer, tarde de mais. Mas a coruja de Minerva também pode ser vista, como acontecia no antigo folclore romano, como arauta da morte.

Harper Lee tem um livro com um título premonitório: Não Matem a Cotovia, que trata da desigualdade racial nos anos 30, no sul dos Estados Unidos, e pode funcionar aqui como metáfora do desigual tratamento entre editores e livreiros no preciso momento em que a Cotovia deixou de entoar o mavioso canto. Já voava baixinho desde Fevereiro, altura em que ficou amputada do seu espaço físico. À meia-noite de 30 de Novembro – o dia da morte de Fernando Pessoa – finou-se de vez. 

A cultura e as artes sofrem mais um rude golpe com o desaparecimento desta apreciada editora de autores clássicos, de livros de teatro, de poesia contemporânea e de outras preciosidades. Porque os livros continuam a ser um bem cultural insubstituível. A visão de uma utopia generosa foi apagada pelas cataratas da indiferença de quem poderia ter feito alguma coisa para a salvar. Nunca por nunca os dinossáurios que gerem a seu bel-prazer os grandes grupos editoriais estariam dispostos a franquear as portas do seu Parque Jurássico a editoras independentes como a Cotovia. Nas capelinhas do elogio mútuo – onde pontificam os que tiveram a sorte de não ser excluídos dessa coisa a um tempo ambígua e complexa que é o cânone literário, uma escolha de autores condenada a discussões intermináveis – prevalecem as afinidades políticas e as amizades pessoais.

Num país em que poucos compram, lêem ou oferecem livros e onde parece que se gasta mais dinheiro em cápsulas Nespresso do que em livros;  em que outros tantos tudo fazem para transformar a cultura em mercadoria e comércio; em que para muitos “as letras são tretas”, incapazes de perceberem “a utilidade do inútil”, pois só vêem útil no que gera lucro; em que ainda temos gente que frequentou a universidade a dizer que o familiar ou amigo que estuda “anda em românticas” (em vez de românicas) ou “anda em antigas” (numa alusão à literatura clássica), as corujas e cotovias da cultura tendem a desaparecer de vez do nosso convívio, ameaçadas pelos pesticidas da ignorância generalizada.

Vivemos cada vez mais imersos na era do vazio e no império do efémero de que fala Lipovetsky. Vivemos um tempo de suposta relação objectiva entre a felicidade e o consumo, de hedonismo generalizado, mas onde – estranho paradoxo – nunca foi tão grande como hoje a corrida às farmácias para comprar antidepressivos. Também sociedade do cansaço, do desaparecimento dos rituais e da expulsão do outro, como nos mostra o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han. Um tempo em que quem manda nas televisões domésticas substitui, em generosos tempos de antena, escritores e poetas por cozinheiros, fazendo tábua-rasa dos ensinamentos de Natália Correia, que n’A defesa do poeta lembra aos subalimentados do sonho que a poesia é para comer.

Relembro que a Poetria, a primeira livraria de poesia do País, foi em tempos notificada do encerramento das Galerias Lumière, no Porto, onde se encontra instalada desde 2003. Cada vez mais editoras fecham portas. Cada vez menos livrarias, menos cinemas, menos espaços afectivos de pensamento, sociabilidade e convívio com a cultura. Sobre a cabeça dos pequenos e médios editores e livreiros rodopia, ameaçador, o cutelo da devastação iminente. Os ditos grandes editores asfixiam de forma insidiosa os mais pequenos, fazendo lembrar o Sermão de Santo António aos Peixes onde, no dizer do Padre António Vieira, um peixe grande se alimenta de muitos pequenos, quando o contrário é que estaria mais conforme com as leis da Natureza. 

É frágil o nosso ecossistema cultural, assente em pequenas tiragens. A paisagem literária e cultural encolhe e afunila a cada dia que passa. Até quando, esta apagada e vil tristeza? Agora, é tempo de os abutres rondarem os despojos da Cotovia. Foi isso que disse Fernanda Mira Barros, a gerente da editora: “os urubus dos espólios, desde Agosto (se não antes) que os avistamos”. Restam as edições cuidadas. Fica a sobriedade na textura das capas, a qualidade do grafismo, o bom gosto da escolha dos autores.

Resta-me o (fraco) consolo de continuar a ter a Cotovia aqui pelas estantes, em merecido repouso ou a saltitar de umas prateleiras para as outras.

Treze anos sem Eduardo Prado Coelho (1944-2007)

A falta que nos faz o Eduardo, sempre pronto a lançar-nos o dardo da interrogação permanente, na sua recusa obstinada de tudo quanto cheire a nacionalismo ideológico, militarismo, fascismo ou totalitarismo. O crítico e ensaísta de reconhecida erudição. O professor universitário que não gostava de dar notas nem de realizar exames, preferindo valorizar uma certa concepção anarquista da pedagogia literária. O autor de livros incontornáveis como A Mecânica dos FluidosO Reino FlutuanteOs Universos da Crítica ou A poesia ensina a cair, título tributário de “O poema ensina a cair”, de Luiza Neto Jorge.

Atento aos pormenores, a escrever sobre tudo e mais alguma coisa. Um hedonista da cultura e um esteta do visível. A prática da escrita por fragmentos: a literatura, a fotografia, o cinema, o teatro, a pintura, a música, a fina análise política, a escrita sobre as trivialidades do quotidiano. A lembrar Terêncio: nada do que é humano me é indiferente. Ou, mais próximo de nós, Roland Barthes, de cuja obra era um dos mais atentos leitores, ou não partilhasse com ele o prazer e a diferença contra os puritanismos da verdade e da ciência. Um sismógrafo do quotidiano, o divulgador fascinado pela novidade do que de melhor acontecia e se publicava lá fora. Uma presença constante, e cúmplice, com o “ar do tempo”.

Também um esteta da ironia, como por aqui se vê:

“Manuel de Lucena (…) escrevia que a vitória de Soares Carneiro (presidenciais de 1980) era extremamente provável, mas que não se podia excluir a hipótese de Eanes vencer, porque às vezes Deus está distraído. Foi o que se viu – uma distracção de Deus. Só nos espanta um pouco que Deus se distraia logo à primeira volta em cinquenta e seis por cento” (Semanário O Jornal, 19.12.1980).

“O caso do Expresso torna os sábados particularmente ginasticados. Porque o jornal (…) é constituído por duas partes perfeitamente distintas: a que se lê e a que se não lê. Nesta última incluo, como é óbvio o “topo de gama” “o imobiliário”, os “transportes”, a lista regular das 100 empresas que mais contam em Portugal e a colecção de electrodomésticos de uma conhecida marca, sem falar nas viagens às Maldivas, nas medalhas nem sei de quê ou num curso rápido para aprender línguas exóticas (…). O problema está em como deixar no café aquela carga de leituras dispensáveis sem que o solícito habitante da mesa ao lado venha atrás de nós a proclamar que esquecemos uma coisa”. (Crónicas no Fio do Horizonte, Edições Asa, 2004, pp. 78-79).

E que dizer deste texto, intitulado “Pré-Queda”, delicioso no que tem de premonição e de ironia corrosiva, quando alude aos telejornais em Portugal?

“Não me espanta nada que um dia destes os telejornais portugueses abram o seu alinhamento informativo com algo do tipo “Devido ao frio, mulher ia caindo de um escadote ao procurar um cachecol na parte de cima de um velho armário. Veremos então toda uma equipa tiritante deslocar-se ao local do não-acontecimento (…) e começar a fazer um inquérito segundo as normas que laboriosamente aprendeu nos cursos de Comunicação Social. Começa-se pela protagonista do sucedido, com a inevitável pergunta: “como se sente neste momento, depois de ter estado quase a cair do escadote”? Pálida, ainda estremunhada, a mulher responde pela quarta vez que se sente confusa, mas está muito grata a uma vizinha que a veio prontamente ajudar. Trata-se então, conclui o sagaz repórter, de ouvir a vizinha: “Como se deu conta de que a Dona Alzira poderia ter caído do escadote?” A entrevistada, feliz por poder comunicar na televisão, dá uma catadupa de pormenores (…). Com isto já passaram dez minutos, seguidos apaixonadamente pelas audiências. Nesse dia Lobo Antunes pode até ter publicado o seu último romance, ou Pedro Tamen reunido uma vida de textos poéticos – podemos estar certos de uma coisa: as nossas televisões não dirão sobre eles uma só palavra” (Crónicas no Fio do Horizonte, pp. 176-177).

Termino, com mais alguns excertos de textos que ajudam a iluminar o pensamento e a dimensão cultural de Eduardo Prado Coelho:

“Eu não escolho um campo entre os campos que já existem, e resisto com todas as minhas forças a todas as intimidações com que pretendem forçar-me a estar com este ou aquele campo. És por A ou por B? — eis o torniquete totalitário, a máquina binária, com que os colectivos e as instituições pretendem extorquir uma escolha. Não, o campo que eu escolho sou eu que o construo — entendido?” (Público)

Comunicação:

“A transparência implica o desarme – mas raramente dois desarmam ao mesmo tempo. E seria um erro pensar que o facto de um se desarmar perante o outro faria que esse outro desarmasse também. Por vezes a situação de vulnerabilidade acicata no outro o desejo de vencer. E assim temos a grande linha de tragédia entre os homens: os estados de iminente transparência transformam-se num jogo de massacre, numa batalha campal.” (Público, 19.09.2005)

Política:

“Hoje em dia a cultura ou a ética tornaram-se argumentos secundários numas eleições”. (Público, 12.04.2006)

Mudança:

“Sempre que pretendemos fazer a felicidade da humanidade sem termos em conta a importância da felicidade de cada um, caminhamos em direcção ao desastre” (Público, 18.05.2004)

“O facto de não ter uma verdadeira experiência da fé não significa que não seja mil vezes mais sensível a uma fé que não perdeu o sentido da dilaceração e do trágico, e que se sustenta sobre o horizonte da própria dúvida, do que a rotina daqueles que mantêm por inércia um conjunto de referências desvitalizadas” (Público, 12.03.2004).

Felicidade

“Há coisas que têm o seu tempo e o seu modo e não vale a pena tentar voltar a lugares onde fomos felizes; é preferível encontrar novos lugares, mesmo que sejam iguais aos anteriores” (Público, 08.01.2004).

No centenário de Ruben A. – o confronto com o neo-realismo

Ruben A. (Centenário)Cumpriu-se, no passado dia 26 de Maio, o centenário de nascimento de Ruben Alfredo Andresen Leitão, conhecido literariamente por Ruben A. O ficcionista, historiador, ensaísta e crítico, primo da poetisa Sophia de Mello Breyner, morreu prematuramente em 1975, num tempo em que as paixões políticas não deixavam qualquer espaço para a reflexão literária e das artes em geral.  Contava apenas 55 anos.

Ruben A. nunca foi um autor canónico, alguém que se deixasse manietar por qualquer corrente literária ou por qualquer estrutura formal de pensamento. O gosto de inovar, de percorrer caminhos novos, tendo sempre a ironia e o humor por companheiros, colidiam frontalmente com o cinzentismo português dos anos 50 e 60 do século passado. Essa faceta independente e heterodoxa – que Eduardo Lourenço associa ao espírito de liberdade e à “recusa de vender a alma em troca de verdades menores”,[1] não agradava aos próceres do regime ditatorial, nem àqueles que então lhe resistiam e o combatiam de forma mais consistente e aguerrida no plano político, literário e artístico em geral, apesar dos seus dogmas e intolerâncias: os neo-realistas.

Salazar comenta deste modo o livro de Ruben A., Páginas II: “O livro, ou é de um louco ou de um sujeito que, tendo dinheiro para pagar um livro de dislates, se propôs rir-se de todos nós (…). As porcarias, obscenidades, palavrões juncam o livro (…). Parece-me que o livro pertence a uma onda modernista, e não é um caso para a Censura e para a polícia dos costumes. Mas se o autor é leitor em Londres, temos nós de ver o que escreve e como escreve. Em conclusão: o Autor não pode representar Portugal nem ensinar português. (…). E já não falo de certas taras morais e sexuais, do livro se vê que o Autor deve pertencer aí a um círculo de pessoas que a polícia persegue”.[2]

No início dos anos 60, os neo-realistas denunciavam com olhar severo o fechamento hermético e elitista do modernismo e de certas vanguardas (do novo romance à poesia experimental, passando pelo concretismo, que é um dos seus ramos). Desconfiavam da arte abstracta e das tendências estéticas que se alimentavam da solidão, do drama individual, do tédio, da fuga ao quotidiano, da náusea e do desespero. A tal estado de coisas contrapunham uma literatura de resistência e de combate, e uma arte interferente, embora, enquanto movimento estético – evitemos interpretações equívocas e redutoras – tenha sido bem mais do que isso. O certo é que a incompreensão e o anátema se abateram sobre os escritores, artistas e intelectuais que, recusando frontalmente o Estado Novo de Salazar, não enfileiravam no movimento neo-realista.

Ruben A.Sem deixar de reconhecer ao neo-realismo a importância que tem uma literatura de emergência, Artur Portela Filho – que é, com Alfredo Margarido, um dos introdutores em Portugal do Nouveau Roman, “o rasgão que permitirá à literatura portuguesa libertar-se da disciplina neo-realista” –   não deixa de o criticar de forma contundente: “O neo-realismo apoderou-se da maioria das posições-chave da vida literária portuguesa: editoras, páginas literárias, júris. Aí exerce uma vigorosa pressão e organiza uma hierarquia de valores. Aí se negam ou se diminuem cuidadosamente sólidas figuras literárias que escapam à sua disciplina. O destino do escritor português é o neo-realismo ou o anonimato”.[3]

Dessa condenação ao quase desprezo pelas suas obras não se livraram, à época, figuras de proa da vida cultural portuguesa como Jorge de Sena ou Eduardo Lourenço. Ou até Ruben Andresen Leitão, que nos dá conta disso na sua autobiografia: “O Alentejo dava porcos e neo-realismo, e passados mais de vinte anos continuava ainda a dar porcos e neo-realismo, tal o atraso de subdesenvolvimento em que nos encontramos. A cobertura quase total, os críticos mais apaixonados, tudo que não estivesse na defesa do povo, era condenado. Eu estaria para sempre condenado – um apátrida das letras”.[4]

A Torre da BarbelaAlexandre O’Neill expressou de forma eloquente esta faceta irreverente do autor de A Torre de Barbela: “Ao coro de rãs, respondeu Ruben A. com algumas arreliantes dissonâncias, enfim, com o que nele era vivo pressentimento de que uma obra se faz a contrapeso do gosto mediano”.[5]

Ruben A. não se livrou do rótulo de simpatizante monárquico, que de forma expedita lhe colaram para denegrir a sua imagem pública e apoucar o seu nome honrado. Como se não existissem monárquicos – como Carlos Malheiro Dias – bem mais livres e arejados nas ideias que certos republicanos que acabaram acomodados e até assimilados pelo Estado Novo. Assim se condenavam ao anonimato e reduziam ao nada nomes hoje consagrados da ficção portuguesa da época.


[1] Eduardo Lourenço, Heterodoxia, Lisboa, Assírio & Alvim, 1987, pp. 213-214.

[2] Carta de António de Oliveira Salazar ao ministro da Educação, in O Mundo de Ruben A., citada por José Carlos de Vasconcelos (Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 1295, 20 de Maio de 2020, p. 3).

[3] Jornal de Letras e Artes, n.º 35, 06.06.1962, p. 9.

[4] Ruben A., O Mundo à Minha Procura, II. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1966, p. 156.

[5] Alexandre O’Neill, citado por Guilherme d’ Oliveira Martins, “À procura do mundo” (Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 1295, 20 de Maio de 2020, p. 11).

Maria Velho da Costa (1938-2020)

Ma.Velho da.CostaDizia que andava no mundo para inquietar os outros. Inquietar, perturbar: eis uma das funções da arte. E comparava os escritores aos especialistas de hemodiálise: “tratamos aquilo que absorvemos”.

Corria o ano de 1971 quando Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno publicam Novas Cartas Portuguesas, um marco incontornável do discurso feminista em Portugal. Convém lembrar aos mais novos, aos desatentos – e aos mais velhos de memória curta – que por essa altura as mulheres não podiam votar. Não podiam ocupar lugares de chefia na Administração Pública. Sofriam entraves de toda a ordem para casar, se exercessem a profissão de enfermeiras, hospedeiras da TAP ou professoras primárias. Não podiam viajar sozinhas sem passar pela humilhação prévia de obter autorização escrita do marido, do pai ou do irmão mais velho. As Novas Cartas Portuguesas fizeram ranger de indignação os pilares do Estado Novo marcelista, que viu nelas um livro pornográfico e um atentado à moral e aos bons costumes. Proibido de circular, desapareceu das livrarias e foi destruído.

As três Marias (2)No início dos anos 70 a ditadura portuguesa não suportava que se escrevessem coisas como esta: “Três é o fim da virgindade, o começo da justa história do par” (Segunda Carta V); ou como esta: “de homem gostamos (e muito) mas jamais a esconsas e somente se não marialva (o que é difícil, convenhamos…) e afinal nos rimos”. (Terceira carta última). O processo das “Três Marias” rapidamente galgou fronteiras, transformou-se num caso do feminismo internacional e só não foi a julgamento porque, dois anos depois, aconteceu o 25 de Abril de 1974. Antes do livro vir a público, as “Três Marias” que os portugueses conheciam eram as garrafas de vinho branco que um certo marialvismo lusitano costumava pedir em voz alta, à mesa do café, no tom grosseiro que ainda hoje ressoa nos meus ouvidos: “Saia uma garrafa de seis tetas!”

Leio que algumas obras de Maria Velho da Costa não são de leitura fácil, porque é saudável a distância que as separa da literatura de mero entretenimento. Por isso reclamam, pelo menos, uma segunda leitura, para que possamos atingir a subtileza das camadas mais profundas da sua escrita. Convenhamos: também não é fácil ler outros escritores ou poetas consagrados. Basta citar, no terreno pátrio, Herberto Helder; e, no plano internacional, um Joyce. Talvez por isso os livros da escritora nunca tenham rompido um círculo demasiado restrito de leitores incondicionais.

Para lá das Novas Cartas Portuguesas apenas li, de Maria Velho da Costa, Lucialima. Pecador me confesso. Abro o livro ao acaso, porque sei que em qualquer página é possível tropeçar na riqueza dos recursos linguísticos que de forma tão pródiga colocou ao nosso dispor, e anoto, na página 294 (3.ª edição):

Lucialima“Lima ri-se. Como as lendas da cobra preta que se aninha nas botas e nos esconsos das camaratas fechadas, a grande barata vermelha parece ser o ódio mor deste exército de homens criados a associar a pequena barata negra do Continente com a miséria e com o desleixo. Mesmo cansados, treinam-se a cravá-la no solo batido das tendas ou dos aquartelamentos, das tabancas de empréstimo, com um só golpe da lâmina da baioneta, enojados de as esmagar, tão enormes são. E não há um que se deite numa esteira de amores ou se alivie num feixe de folhas, sem primeiro indagar da presença desses corpos rígidos e sujeitos a correrias de pânico, para mais, horror maior, aladas”.

Romancista maior, a quem foi atribuído o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores – a mais alta distinção literária portuguesa – pela publicação de Irene ou o Contrato Social e o Prémio Camões pelo conjunto da sua obra, Maria Velho da Costa nunca teve, em vida, publicidade bastante que aparasse ou iluminasse o labor da sua escrita. O que teve, de sobejo, foi desamor e desconhecimento em relação ao tanto que nos deixou: Maina Mendes, Casas Pardas, Missa in Albis, Da Rosa Fixa, O Livro do Meio – a meias com Armando Silva Carvalho – e Myra, só para citar alguns títulos mais conhecidos.

Depois de Maria Isabel Barreno nos ter deixado em 2016, ficámos agora privados de outra voz insubmissa que marcou a luta das mulheres em Portugal contra o seu estatuto de menoridade. Acredito que na hora da partida Maria Velho da Costa terá levado, no bornal das memórias, mais afecto do que amargura pelo desamor em relação à sua obra. E terá sentido algum alívio também, pois costumava dizer: “espero que os meus amigos nunca morram todos antes de mim. A pior coisa que pode acontecer a alguém é sobreviver a todos de quem gosta”.

Memória de Luis Sepúlveda e Rubem Fonseca (pessoas por detrás dos números…)

Luis Sepúlveda

Pouca ou nenhuma vontade de sair a terreiro e rabiscar qualquer coisa, enquanto dura este pesadelo. Este rolo compressor da sensibilidade que é a enumeração fastidiosa do número de mortos, infectados e recuperados nas últimas 24 horas de cada dia. Só que a morte de quem gostamos muda tudo: a contabilidade macabra, feita de algarismos para representar seres humanos coisificados, cede o lugar à emoção e ao sentimento e abre caminho às veredas da escrita.

16 de Abril de 2020. Dia aziago, capaz de provocar a ira dos deuses. Apolo anda escondido, talvez embrulhado nas suas vestes de luto. Só Zeus dá sinal de vida, entretido a rasgar o ventre das nuvens, que despejam bátegas de água nas vidraças que me protegem. Pergunto a mim mesmo se a tristeza tem um rosto, sabendo de antemão que hoje está triste o rosto da literatura e dos que a têm por amiga. De uma assentada, perdemos Rubem Fonseca e Luis Sepúlveda.

Dizia Beckett que o dia da morte é como qualquer outro, só que mais curto. Hoje foi o dia mais curto das vidas de Rubem Fonseca e Luis Sepúlveda. Sim, estamos tristes porque a morte de quem gostamos é sempre um rombo no nosso passado. Apesar do rasto luminoso que são os livros que nos legaram, as imagens, as entrevistas, os recortes de imprensa, todas essas coisas parecem destroços quando desaparece o suporte material que as gerou, e por isso também em nós algo fenece.

Romance NegroRubem Fonseca morreu nonagenário, mas ainda assim antes do tempo. Considerado por uns como um dos melhores escritores de língua portuguesa, quase todos os seus livros falam da violência, um dos lados negros do Brasil e de tantas outras sociedades. Outros, como Pedro Mexia, vêem nos seus contos ou histórias curtas um certo gosto pelo bizarro e o grotesco. Se do Prémio Camões 2003 – escritor recatado, que não dava entrevistas – não posso falar com um pingo de propriedade, por só ter lido Romance Negro e Outras Histórias (livro de contos onde não está presente o tal “brutalismo” derramado em obras anteriores) já o chileno Luis Sepúlveda me é bem mais familiar.

Mais novelista que romancista, as suas obras denunciam a violência política, os crimes ambientais e os cultores do pensamento único, sempre prontos a confundir a fé verdadeira com o fanatismo e o extermínio com o patriotismo. Destaco o livro por onde comecei: O Velho que Lia Romances de Amor, onde nos dá a ver a eterna luta que se trava entre os que respeitam a Natureza e os seus recursos e aqueles que os delapidam sem olhar a meios. A luta final entre António José Bolívar Proaño e a fera que acaba derrotada, pode ser vista como a metáfora perfeita da ruptura – alimentada pela cobiça – que dá cabo da harmonia entre o ser humano e a Natureza.

As Rosas de AtacamaAs preocupações ecológicas, o valor da amizade, da honestidade e da solidariedade aparecem também distribuídos de forma generosa em As Rosas de Atacama. O livro tem uma entrada sublime, com Sepúlveda apostado em resgatar das garras do esquecimento todos quantos merecem ser lembrados. Intuiu isso numa deslocação ao campo de concentração de Bergen Belsen, onde descobriu que alguém gravara na superfície de uma pedra, talvez com o auxílio de uma faca ou um prego, o mais lancinante dos apelos: “Eu estive aqui e ninguém contará a minha história” (p. 8).

Ainda neste belíssimo livro, como não recordar “Baleias do Mediterrâneo”? É um texto que fala de encontros com golfinhos despedaçados pelas hélices das embarcações desportivas, no qual o escritor desabafa: “Existem dois frutos do engenho humano que me aborrecem particularmente: a moto-serra e o motor fora de borda. Milhões de hélices remexem as águas do Mediterrâneo como se se tratasse de uma enorme batedora com que se prepara uma beberragem mortal” (p. 59).
E como não recordar, também, “O amor e a morte”, onde confronta (e conforta) os três filhos pequenos com o final anunciado de Zorbas, o gato protagonista de História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar? Zorbas, o gato que dormia a seus pés enquanto escrevia, ia morrer. E Sepúlveda anota: “dependia de nós evitar-lhe uma morte atroz e dolorosa, porque o amor não consiste apenas em conseguir a felicidade do ser que amamos, mas também em evitar-lhe sofrimentos e preservar a sua dignidade” (p. 93).

Outros livros dignos de registo poderiam ser citados, como A Sombra do que Fomos, que alude aos sonhos derrubados e aos ideais desfeitos, a lembrar-nos que também as ilusões que construímos nos podem trair, mesmo quando lhes somos excessivamente fiéis. Mas creio que basta o que fica dito, em relação a histórias que nos deliciam e comovem. Infelizmente não haverá outras, contadas por este “mochileiro” que viajou pelos quatro cantos do planeta. Um vírus insidioso provocou o irremediável naufrágio de Sepúlveda.

Para quem tudo acaba quando o desaparecimento físico acontece, sobrevém um enorme vazio. Mais afortunados são os que receberam o dom que lhes permite associar a razão à esperança, os que acreditam, afinal, que a crisálida precisa de morrer para se transformar em borboleta.

 

 

 

 

Com tanta Agustina, a malta já nem atina

Agustina com gatoE, de repente, todos desatam a falar de Agustina. Tanta Agustina, ontem e hoje, talvez porque o post mortem continue a ser o estado mais propício ao aguçar do reconhecimento público.

Há quem aluda a uma imagem mitificada: uns, dizendo que tem uma escrita difícil, “barroca”; outros, colando-lhe o rótulo apressado de “perversa”. Outros ainda, habituados a contrabandear arte com ideologia – sem aparentemente perceberem que o que a obra de arte tem em si de maravilhoso é o facto de existir por si mesma – a declarar que sim senhora, é uma excelente escritora, mas que não lhe perdoam o ter consentido que um livro seu acabasse por ocupar o lugar de um outro, entretanto censurado. Pouco se importaria ela com estes mimos, pois sempre confessou não se levar muito a sério: “É a melhor maneira de viver. Aquele que se leva a sério está sempre numa situação de inferioridade perante a vida”.

Em 1994, escrevia a observadora de olhos penetrantes, crítica de tudo o que a rodeava, com a ironia corrosiva que a caracterizava: “Decorre a apresentação do livro de Cavaco Silva no salão nobre (do Centro Cultural de Belém), e os carros pretos do ministério sobem a rampa com uma lentidão consular (…). Freitas do Amaral acaba também de escrever um livro e é saudado triunfalmente. Eu escrevi cinquenta e não me prestam tanta atenção. Pelo que fico, por um momento, desencorajada”.

Acontece que, nos doze anos seguintes, Agustina continuou a escrever de forma torrencial. Sem contar, seguramente, com cerca de um milhar de textos na imprensa, terá dado à estampa, entre romances, novelas, teatro, crónicas e biografias, perto de cem livros. Agora que nos deixou de vez – na verdade, já a partir de 2006 que renunciara à escrita e à vida pública e um círculo de silêncio se abatera sobre o seu nome – há quem assevere, aqui no Facebook, ter lido toda a sua obra. Quase cem livros – pasme-se!

Agustina vista por António (1989)
Caricatura de António (1989)

Coisa de espantar, pois ao contrário da poesia, um romance leva tempo a ler, e nós somos, por regra, preguiçosos do corpo e das meninges. Há também quem afiance que a leu desde o princípio, muito antes de estar na moda. Louve-se a precocidade de tão iluminados leitores. Se os conhecesse, Agustina não deixaria de se rir e de ripostar como o fez em relação a um político da nossa praça, que lhe confessou ser grande admirador dela, assim como a própria mulher, que também já tinha lido toda a sua obra: “Ora, eu gostava era de ter a sua opinião, não digo sobre todos, mas ao menos sobre um dos meus livros”.

Receoso de poder sucumbir ao peso esmagador de tanta cultura, li apenas dois dos catorze livros que tenho da autora de Vale Abraão, não contando com mais alguns sobre a sua obra romanesca. Razão de sobra para não me atrever a dissecar – palavra tão ao gosto dos estruturalistas – nenhum dos seus romances.

Contento-me em deixar aqui, pela segunda vez, esta história deliciosa que ela costumava contar quando vinha à baila o nome do grande amigo Eugénio de Andrade, que via nela a grande romancista da aristocracia rural e da burguesia decadente. Ao chegar a sua casa, dizia Eugénio: Maria Agustina, que flores maravilhosas são aquelas no lago da entrada? E ela respondia: são nenúfares, Eugénio, e você está farto de os mencionar na sua poesia…

Agustina por André Carrilho
Caricatura de André Carrilho

Parece que Agustina tinha por hábito beber uma taça de champanhe ao almoço e outra ao jantar. Quem assim tanto gostava de celebrar a vida, merece que brindemos por ela. Não tanto para plantar saudades no passado, mas para reflorir no futuro a majestosa catedral de papel que nos legou.

Gente deliciosa esta, cada vez mais apartada do nosso convívio.

 

Da vida dos livros e de um alfarrabista “pas comme les autres”

Alfarrabista Manuseado

1 – Há dias assim, raros, como o de hoje, em que de forma imprevista nos chega a casa um livro que não pedimos, mas que desejávamos. O livro é Os Futuristas Russos e falei dele no último texto que coloquei no blogue e disponibilizei no Facebook, onde desvendei as razões pelas quais não o adquiri em leilão. A prenda, de todo inesperada, que me deixou sem palavras, foi remetida por João Méndez Fernandes, alfarrabista de MANUSEADO. A sua área de negócio é precisamente a comercialização de livros manuseados, expressão bem mais feliz que o vulgar termo “usados”, que atribui aos livros o sentido de gastos, delidos pela corrosão do tempo, mercadoria sem interesse. No seu mural pode ler-se: “amamos o antigo e o manuseado, como se dessa forma prolongássemos no tempo a memória do seu primeiro manuseador”.

João Mendez FernandesEm João Méndez Fernandes há consciência do que vale um livro, mesmo que já manuseado. E há princípios. Antes desta preciosa oferta – que para mim tem sobretudo valor de signo, mais que valor de uso – já eu tinha dado conta estar na presença de uma pessoa diferente, na forma como se relaciona com os seus potenciais clientes. Na verdade, não é vulgar encontrarmos nas redes sociais alfarrabistas ou vendedores de livros que passem recibo sem o pedirmos. Ora João Méndez Fernandes faz isso. E faz mais: dá a conhecer o dia da remessa dos livros e até acrescenta fotografia da encomenda. E mostra uma sensibilidade fora do comum, patente na generosidade da oferta que me fez, acompanhada de um cartão pessoal onde escreveu para quem nem sequer conhece pessoalmente: “Pelo seu texto Memória de João Tomaz Parreira, o amigo que não conheci. Boas leituras”. Ora isto quer dizer que João Méndez Fernandes, além de alfarrabista, procura ser um leitor atento de quem lhe compra livros. Leu esse meu texto, onde a dado passo manifesto interesse no livro Os Futuristas Russos e explicito as razões de o não ter licitado. Leu, interiorizou e ofereceu-mo, naquele verdadeiro sentido de partilha de quem dá – dando-se.

Fotografia da encomenda

Registo com agrado este gesto tão revelador de desprendimento material e nobreza de carácter. Gesto raro de encontrar nesta selva digital onde as fraudes são mais que muitas. Há quem diga haver por aí licitantes fantasmas, uma espécie de lebres que apenas servem para fazer aumentar o preço dos livros; e há quem afirme ser possível licitar pelo preço mais elevado, proceder à transferência do valor do livro e acabar por não o receber porque, entretanto, um telefonema de última hora ou uma mensagem privada o desviaram da rota com a proposta de um valor mais elevado. O dinheiro adiantado até pode ser devolvido, mas fica a pairar a fraude no processo de licitação.

Com MANUSEADO estamos nos antípodas deste procedimento. Há uma relação humanizada com o cliente. Serviço de cinco estrelas. Há rapidez no envio, livros em excelente estado, uma boa relação preço-qualidade (livros a preço justo) e uma impecável apresentação das encomendas. Há uma página honrada, responsabilidade e simpatia. Recomendo vivamente, mesmo correndo o risco de doravante esgrimir argumentos com um rol de licitantes bem mais alargado.

2 – O fenómeno livreiro é por demais conhecido: há cada vez mais livrarias a fechar portas. Umas porque têm cada vez menos clientes. Outras porque não aguentam a subida em flecha do preço das rendas, em resultado da pressão do turismo. Outras ainda, apanhadas no vórtice de uma concentração crescente e na concorrência desleal dos grandes grupos editoriais. Como a água que é estancada num lado e irrompe por outros, também hoje há livros a irromper por todos os lados, à venda nos locais mais improváveis. Além das livrarias, podemos comprá-los nas feiras do livro e nas feiras de antiguidades, nas estações de caminho de ferro e nos supermercados, nos correios, nos quiosques de venda de jornais (onde rivalizam com colecções de copos e faqueiros) e nas redes sociais. Noutros tempos, para mostrar a efemeridade das notícias de imprensa, dizia-se que elas morriam no momento em que eram publicadas. As folhas de jornal serviam para embrulhar peixe. Hoje, “embrulham” colecções de livros.

Falta-nos um livro da colecção e temos que o conseguir a qualquer preço. Pouco interessa saber quem é o autor, ou qual o tema central da obra. Importante é ter a colecção completa. Uns metros de estante sempre dão mais lustro à biblioteca caseira. Quem compra “tem a convicção de que alguém selecionou o melhor para ele. Daí que, se lhe falta o número 7, vai a correr adquiri-lo, mesmo que não saiba mais do que isto: é o 7 que me falta”.[1]

Uns não compram livros, com a alegação de que está tudo na Internet. Desvalorizam o livro impresso, as coisas físicas e palpáveis, preferindo o que circula no éter, que é bem mais perecível do que se imagina. Na verdade, de tudo aquilo que se guarda ou arquiva, “não é a mesma coisa o analógico e o digital, o real e o virtual (…). As ameaças à memória, a destruição acelerada dos sinais físicos (…) a pseudomodernidade que reduz tudo o que existe ao que está acessível a um motor de busca são uma praga dos nossos dias”. [2]

Quanto aos que compram livros, às vezes de forma compulsiva, e revestem as paredes de casa com eles, não é garantido que os leiam. Pelo menos não os lêem todos, embora daí não venha mal ao mundo. Importante é não apenas lê-los, mas conviver com eles, saber que está ali o gosto da novidade, o fascínio das ideias escondidas. É também esse o espírito do colecionador: o prazer de folhear, de encontrar uma frase que sublinha ou anota, de apreciar os cuidados postos na edição, de ler o índice, de lhe sentir o cheiro, o fascínio pelo objecto físico, coisa diferente daquilo que é o prazer de ler. Como dizia o Padre António Vieira, o livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. De certo modo, os livros que temos connosco – os comprados e os oferecidos – dão de nós um retrato, uma autobiografia, mesmo que algo distorcida, do que também somos, porque sem o gosto da leitura dificilmente se forma um pensamento crítico.

A esse propósito, vale a pena recordar o que disse Umberto Eco: “há por aí muita gente estúpida que quando entra no meu apartamento exclama: Oh, tantos livros! Leu-os todos?” Pergunta a que o que o autor de O Nome da Rosa responde: “Há três respostas. A primeira é: Li muitos mais. A segunda é: Não li nenhum, senão porque os guardaria? E a terceira é: Não, mas tenho de os ler na próxima semana. Uma biblioteca não é um repositório dos livros que já lemos. É também o lugar onde guardamos os livros que iremos ler.[3]

Eis como ler pode ser uma outra forma de subir na vida, num tempo em que o capitalismo transforma a cultura em comércio e só parece ter valor aquilo que é convertível em dinheiro.


 

[1] Eduardo Prado Coelho, “Os Brindes”, Público, 23.02.2004.

[2] José Pacheco Pereira, “Para que é preciso guardar esse papel? Está tudo na Internet… Não. Não está e não é a mesma coisa”, Público, 20.01.208.

[3] Luciana Leiderfarb, “Umberto Eco. O regresso do grande conspirador” [entrevista], Revista do Expresso, edição 2216, 18.04.2015, p. 28.

Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto

Sete dias, sete livros (7)

Sétimo dia, sétimo livro de um desafio lançado por Maria Pereira Alves: Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, Edições Afrodite, 1975.

Peregrinação1Quantos portugueses já leram a Peregrinação? Certamente muito poucos. Bastaria um inquérito para termos resultados pouco animadores. Por mim, confesso: também estaria no rol dos que ignoram esta obra de peripécias tão empolgantes, a que Aquilino Ribeiro chamou “formoso livro de aventuras, como não há segundo na língua portuguesa”, se não tivesse beneficiado da inteira amizade de quem um dia me despertou os sentidos e iluminou o caminho para tão fascinante aventura.

A vida e a obra de Fernão Mendes Pinto continuam envoltas em mistério. Uns dizem que nasceu em Montemor-o-Velho, filho de gente pobre. Outros adiantam que nasceu no seio de gente nobre e que era natural de Almada. Já quanto à Peregrinação, livro de viagens escrito na segunda metade de Quinhentos, há quem defenda que a versão que hoje conhecemos não é a original: depois de passar pelos filtros do Santo Ofício e do Ordinário (Igreja), viria a encalhar durante dez anos no Desembargo do Paço. A publicação seria finalmente aprovada em 1613, embora se desconheçam as alterações dos censores ao texto inicial.[1] Poucas dúvidas restam de que a obra foi “limada” ou “arranjada” antes de ser tornada pública.

Numa narrativa onde se entrelaçam o romanesco e o maravilhoso, o que não tem faltado por aí são as almas de S. Tomé deste mundo (ver para crer, pois claro!) a agitar a estafada expressão: “Fernão Mentes? Minto”. Ora é preciso dizer que se alguém mentiu foi a censura religiosa do século XVII, que não deixou de retocar, deturpar ou até mutilar a Peregrinação. As aventuras e desventuras de quem fugia da fome metropolitana, de quem era capaz de sulcar os mares e mais tarde narrar a verdade dos traficantes, dos fanáticos do catolicismo, os medos e a miséria, e as diferentes artimanhas de que os homens do povo se serviam para salvar a pele, não podiam agradar ao poder constituído no tempo da grande gesta dos descobrimentos.

Nas suas atribuladas viagens pelo Extremo-Oriente, onde vai negociar, arcabuzar, piratear e sorver os usos e costumes de povos tão diferentes – que mais tarde lhe vão servir de termo de comparação para a sátira social da sociedade portuguesa do seu tempo – Fernão Mendes Pinto foi “treze vezes cativo e dezassete vendido por mouros, chins e outras gentes”. Nessas andanças orientais, “conviveu com capitães e reis, príncipes e plebeus; foi escravo, soldado, negociante, embaixador, missionário – e a lista não fica ainda completa”.[2]

Rebecca CatzA Peregrinação é, a par de Os Lusíadas e da História Trágico-Marítima, uma das três obras literárias fundamentais para a compreensão dos traços dominantes da expansão portuguesa no mundo. Só que em Fernão Mendes Pinto a epopeia está ausente e, no seu lugar, foram colocadas as proezas e desventuras dos marinheiros portugueses, verdadeiros saltimbancos do destino. Foi esse pendor dos portugueses para a aventura e a traficância, para o contrabando e o roubo, que levou o rei da ilha dos Léquios a recusar receber os náufragos desembarcados na sua terra e a defini-los deste modo: “gente que, conhecendo muito de Deus, usa pouco da sua lei, tendo por costume roubar o alheio”.

O baptismo de fogo do nosso herói pícaro – que é um anti-herói, em tudo contrário ao herói dos romances de cavalaria – acontece numa viagem ao estreito de Meca: recebidos de forma hostil por um barco onde desejavam recolher informações sobre os turcos, mataram 64 dos 80 tripulantes. E como o capitão do barco abalroado se recusou a aderir ao cristianismo, foi atado de pés e mãos e lançado vivo ao mar. Procedimento em tudo semelhante ao que se passava em Portugal com os cristãos-novos – os falsos conversos – que não eram supliciados por afogamento, mas pelo fogo, o argumento dos inquisidores.

Para António José Saraiva, mais do que indagar se os factos geográficos ou etnográficos descritos na obra são verdadeiros ou imaginários, interessa conhecer a intenção da narrativa, “o que ela exprime sobre a posição pessoal do autor perante o mundo em que vivia”. Face a uma obra de arte, a alternativa não se coloca entre a verdade e a ficção, já que o artista recorre à ficção para explicar a verdade: “a ficção não é o oposto da verdade, mas o instrumento dela”. No caso desta obra, estamos perante “um esboço em que se acusa poderosamente o pensamento dominante”.[3]

Fernão Mendes PintoPodemos encontrar na sátira de Fernão Mendes Pinto dois planos diferenciados: um tem a ver com a narração das aventuras de que o autor é protagonista; o outro, com o facto de os juízos morais serem proferidos por interpostas pessoas. Em vez de criticar abertamente os valores e os conceitos de justiça da civilização ocidental, a estratégia narrativa consiste em valorizar – através de outras pessoas, já que na obra picaresca a enunciação dos juízos não cabe ao narrador – os valores da caridade, da justiça e da ordem que regem esse mundo exótico que a Peregrinação descreve. As civilizações orientais servem “de espelho ou de contraste”[4] com o que se passa em Portugal nos tempos da Inquisição. Apesar disso, Fernão Mendes Pinto não deixa de descrever preconceitos religiosos do oriente, como aquele em que um gentio não consente que três portugueses sejam sepultados, “dando por razão que ficaria a terra maldita e incapaz de criar coisa alguma, porquanto aqueles defuntos não iam lavados do muito porco que tinham comido, que era o mais grave e enorme pecado de quantos na vida se podiam imaginar”.[5]

Neste tempo que é o nosso, em que tanto se fala de “fatwa” e de fundamentalismo religioso, nada mais oportuno do que ler a Peregrinação, que é também um espelho do que somos e do que já fomos, quando partíamos para longes terras, a fim de dilatar a fé e o império, procurando impor a lei cristã pelo fio da espada sempre que a persuasão falhava. E falhava tantas vezes…


[1] Alexandra Carita, “Verdade ou Mentira”, Actual (revista do Expresso), 22.11.2014, pp. 24-25.

[2] Rebecca Catz, A sátira social de Fernão Mendes Pinto – análise crítica da Peregrinação, Lisboa, Prelo, 1978.

[3] António José Saraiva, “Fernão Mendes Pinto e o Romance Picaresco”, in Para a História da Cultura em Portugal(vol. II), Publicações Europa-América, 1972, p. 122.

[4] Idem, p. 128.

[5] Idem, ibidem.

Fronteiras: as literárias e as outras

GRANTAFronteiras, linhas de demarcação, baias, barreiras físicas ou psicológicas, há muitas e para todos os gostos: as visíveis e as invisíveis, as civilizacionais e as culturais, as políticas e as ideológicas, as fechadas e as de cooperação, as económicas e as demográficas, as das trevas e as do conhecimento. As que se deixam galgar e as que nos obrigam a ficar do lado de cá. As terrestres e as marítimas. As que separam a dignidade da abjecção, distinguem o amor do ódio, demarcam o prazer do sofrimento, apartam a esperança da desilusão.

As fronteiras delimitam espaços onde se condensam manifestações sociais e culturais que conferem traços identitários a quem neles habita, aquilo que nos une e distingue dos demais. Só que, num mundo em permanente mudança e a deslizar cada vez mais para o cosmopolitismo, as fronteiras que definem um limite de vizinhança entre entidades diferenciadas não podem ser estanques, apenas voltadas para si próprias, graníticas, à prova de bala. Têm de ser porosas, precisam de se deixar contaminar, porque os sentimentos de pertença ou de diferença (cuja afirmação pode ser positiva ou meramente ressentida) não podem constituir um entrave à percepção ou à fruição do que de bom se espraia para lá do lugar em que habitamos. Devem ser permeáveis à troca de bens culturais, ao intercâmbio de pessoas e à partilha de ideias.

A cultura, por exemplo, não pode estar emparedada ou acantonada em espaços exíguos, bacteriologicamente puros. A hemoglobina cultural precisa de circular, de esbarrondar fronteiras, de iluminar em vez de obscurecer, de acrescentar em vez de substituir, de projectar uma nova luz na tela dos conhecimentos que já existem, porque a história da cultura não é linear, mas cumulativa. Só assim é possível valorizar o lugar matricial, evitando que enquiste, ou definhe para sempre. A fronteira tem de ser cada vez mais lugar de cooperação e enriquecimento, de inclusão e não de exclusão.

Traçar uma fronteira é definir, e definir é sempre limitar. O último número da revista Granta apresenta como tema de capa as fronteiras e quer dar a volta a essa limitação. A revista pretende ser transatlântica, ao reconhecer distâncias e manifestar desejos de aproximação literária com o que está do outro lado do mar. Ler os outros é vencer barreiras e ultrapassar fronteiras.

Como refere Carlos Vaz Marques na nota de abertura, numa alusão ao que considera um dos paradoxos admiráveis da literatura, “sou mais eu sendo outro”. Palavras que nos remetem, procurando animar este novo espírito de aproximação e de encontro com o outro – e já que não podemos engolir o Atlântico – para o incontornável pequeno-grande poema onde Mário de Sá-Carneiro, na sua ânsia de Infinito, parece estar a meio caminho entre o que é (“o pilar da ponte do tédio”) e o que aspira a ser.

Ponte (ver poema de Mário Sá-CarneiroEu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

 

Mário de Sá-Carneiro, Indícios de Oiro
(Publicado no nº1 da Revista Orpheu, em 1915).