Rui Knopfli, poeta extraterritorial

Rui Knopfli (caricatura de Vasco)

(Dedico este texto à estimada amiga Maria Teresa Mota, que tem trazido aqui alguns poetas da minha predilecção – cito apenas, entre os mais recentes, Rui Knopfli e Pedro Tamen – os quais, por razões circunstanciais e outros imponderáveis, não tenho podido comentar em tempo útil, como desejava e ela bem merece).

“O poeta não se vende, não se compra, não se emenda” – Rui Knopfli

Considero Rui Knopfli um dos melhores poetas contemporâneos de língua portuguesa. Tenho-o alinhado, na estante, ao lado de outro Ruy que muito prezo – o Cinatti, poeta e antropólogo apaixonado por Timor, que cruzou vários continentes – e de braço dado, também, com a Memória Indescritível, de Pedro Tamen.

 Nascido em Inhambane (Moçambique), abandonou o país em 1975 por “mal-entendidos e amargas circunstâncias”. Viria a fixar-se em Londres durante vinte e dois anos, onde foi assessor de imprensa da embaixada portuguesa. Em 1997 passa a residir de vez em Portugal, onde acaba os seus dias, contava então 65 anos de idade: “Agora Portugal será, graças a Deus, um ponto de fixação, onde acabarei os meus dias no meio de gente que tanto estimo”.[1]

Não admira, assim, que a sua poesia depurada e concisa – mas também com sinais de presságio, angústia e ironia – atravesse os continentes africano e europeu. Sem uma terra a que verdadeiramente pudesse chamar sua, o poeta sentia-se estrangeirado n’O País dos Outros, título do primeiro livro (1959). Encharcado em saudade e melancolia, minado pela nostalgia irremediável da terra amada que, em sentido territorial, foi deixando de ter – “é só a língua em que me digo” – deixou todo esse caldeirão de emoções retratado no longo e belíssimo poema Pátria, de O Escriba Acocorado[2]de que aqui deixo apenas alguns excertos:

Um caminho de areia solta conduzindo a parte
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nomes por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal

e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios

entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso

obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma

remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.

(…)

O poeta que não escrevia por encomenda acabou maltratado na sua terra pelos militantes da poesia. Precisamente aqueles que escreviam “de um ponto de vista totalmente subordinado a preconceitos de ordem político-ideológica, suprimindo, rasurando, autênticos valores literários em favor de todas as mediocridades que erguiam hinos coxos e tortos (risíveis?) em favor da libertação, com muito molho e esparregado de culatra de AK-47. Na época levantei um tímido protesto: choveu-me bravamente em cima e fui acusado de insidioso e potencial aliado do colonialismo, apesar de ter diariamente a ‘pide à perna’ e os meus críticos beneficiarem da sombra protectora da Sorbonne”.[3]

Foi o preço que pagou pelo não alinhamento ideológico que se seguiu a um período de aproximação ao neo-realismo. Um “eu” individual estilhaçado por acontecimentos colectivos que o levaram a abandonar Moçambique com amargura e desencanto, como se depreende destes versos extraídos de O Monhé das Cobras:[4]

Aeroporto

É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que não.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscretas,
preservado apenas na exclusividade da memória
privada. Não quero lembrar-me de nada,

só me importa esquecer e esquecer 
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.
Desmantela-se a estátua do Almirante,
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso no cimo da palmeira esquiva.
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no precário registo das palavras.

Falei acima de uma poesia de presságio, porque é disso que se trata quando deparamos com o primeiro poema de O País dos Outros, o primeiro livro que publicou:[5]

Lírica para uma ave

Num céu de chumbo e baionetas
caladas,
sobre uma floresta de sono
e demência,
tonta, esvoaça perdida
uma ave sangrenta.
Na turva e opressa manhã
se anuncia a cólera
do tempo.

Na hora
da aurora,
gemem ventos,
fluem surdos rios.

Cerra os olhos,
cala na garganta
a voz,
acorda audível
o pensamento:

No escuro cerne da floresta,
com sorrisos dependurados à entrada,
degola-se uma ave.
Por enquanto mais nada, senão
o torvo tinir dos talheres
no banquete da morte impossível.

E também é de presságio que se fala no poema “Preto no Branco”, escrito em 1962 e inserido em Mangas Verdes Com Sal, onde a guerra pela independência se anunciava já envolta em pólvora, ferro e fogo:

O PRETO NO BRANCO

Da granada deflagrada no meio
de nós, do fosso aberto, da vala
intransponível, não nos cabe
a culpa, embora a tua mão,
armada pelo meu silêncio,
lhe tenha retirado a espoleta.
De um lado o teu dedo indicador,
de outro a minha assumida neutralidade.
Entre os dois, ocupando o espaço
que vai do teu dedo acusador
à minha mudez feita de medo e simpatia,
tudo quanto não quisemos, nem urdimos,
tudo quanto a medonha zombaria
de ódios estranhos escreve a sangue
e, irredutivelmente, nos separa e distancia.
Tudo quanto há-de gravar o meu nome
numa das balas da tua cartucheira.
Nessa bala hipotética, nessa bala possível
que se vier, quando vier (ela há-de vir)
melhor dirá o que aqui fica por dizer.

Nunca foi fácil, aos romancistas e poetas das antigas colónias portuguesas, chamar a atenção dos críticos continentais e muito menos ocupar um lugar de destaque nos escaparates das livrarias da metrópole. Talvez por isso Rui Knopfli seja, ainda hoje, um poeta algo distante do reconhecimento que a sua obra requer e tanto merece. Uma obra construída em torno das lembranças da infância e da juventude – das mangas verdes com sal – das paisagens com a sua largueza de horizontes, da vegetação árida ou luxuriante, das savanas e das águas tépidas do Índico e daqueles poentes com céus de fogo deslumbrantes em finais de tarde que parecem não ter fim. Coisas que deixam traços indeléveis de nostalgia na alma e na memória de quem lá tem as raízes ou por lá passou ou assentou arraiais.

Poeta da perda e do desterro, mas também cronista e ensaísta de méritos firmados – estou a lembrar-me de uma notável polémica em torno de Shakespeare, travada com Eduardo Lourenço, que não hesitou em chamar-lhe “honorable man” – Rui Knopfli sublimou na poesia o luto de “ser arrancado da terra com as raízes a sangrar, para ser transplantado noutro lugar”.

Por tudo o que nos legou (e foi tanto!) é proibido esquecer Rui Knopfli! 


[1] Entrevista à Visão, em Outubro de 1997.

[2] Rui Knopfli, O Escriba Acocorado, Lisboa, Moraes Editores, 1978, pp. 13-14. Muita da sua dor, provocada pela ruptura com um mundo encantatório, foi exorcizada em O Escriba Acocorado (ver Maria Leonor Nunes, “Rui Knopfli, a diáspora de um escriba, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 18.01.1995, p. 12).

[3] Rui Knopfli, “O grande equívoco”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 428, 18.09.1970, p. 32.

[4] Rui Knopfli, O Monhé das Cobras, Lisboa, Editorial caminho, 1997, p. 56.

[5] Poema inserido na colectânea Nada Tem Já Encanto – Poemas Escolhidos. Edições Tinta-da-china, Lisboa, 2017 (1.ª edição), p. 23.

Manuel Resende (1948-2020)

Manuel Resende (1948-2020)

“Mas esta dor no peito, a falta de ar, / Esta barba há três dias por fazer /
Já ´stão à minha espreita ao despertar.”

Manuel Resende

 

Emudeceu a lira insubmissa e desalinhada, no derradeiro solo. Era amigo do meu amigo Arsénio Mota, fraternidade forjada há muitos anos na redacção do Jornal de Notícias. Homem discreto e reservado, apenas se expandia nos versos. O poeta raro e bissexto (publicou apenas três livros) finou-se hoje, pela manhã.

Poesia ReunidaCom formação em Engenharia, nunca quis ser doutor em demolições ou construções. Preferiu fazer versos e traduzir Kaváfis, Seféris e outros. Foi a partir da apresentação do primeiro destes poetas gregos que conheci – tão tardiamente! – Manuel Resende. Depois saltei para a Poesia Reunida, que fui lendo e continuo a ler com redobrado prazer.

Manuel Resende, autógrafoEm Maio de 2019 pedi-lhe amizade no Facebook. E disse-lhe que foi ao manifestar ao nosso comum amigo o apreço pela sua obra poética que fiquei a saber da amizade real que os unia. Resposta dele: “muito prazer e muito obrigado… e um grande abraço ao Arsénio!”

Agora que as Parcas o levaram, resta a poesia que nos legou e um autógrafo aposto num dos livros que atestam a sua presença aqui por casa. Não posso estar mais de acordo quando diz que a poesia é muito rara para ser desperdiçada com porcarias. Que a sua poesia seja eterna, meu querido poeta do tempo, da liberdade e do amor.

Também o que é Eterno

Também o que é eterno morre um dia.
Eu tusso e sinto a dor que a tosse traz;
O doutor quer por força a ecografia,
Mas eu não estou pra tantas precisões.

Eu rio à morte com um riso largo:
Morrer é tão banal, tão tem que ser!
Disto ou daquilo, que me importa a mim?
Mas, ó horror, com fotos, não, nem documentos!

A tanta exactidão mata o mistério.
O pH, o índice quarenta…
Não quero as pulsações, os eritrócitos,
O temeroso alzaimer, ou o cancro,
Nem sequer o tão raro, do coração.

Ver o pulmão, o peito aberto, o coração,
A palpitar a cores no computador?
Eu morro, eu morro, não se preocupem,
Mas sem saber, de gripe, ou duma coisa,
Ou doutra coisa.

Manuel Resende, in ‘O Mundo Clamoroso, Ainda’

POETRIA – Um comunicado e um comentário

Poetria 2

Comunicado

[email protected] [email protected],

Foi-nos dado conta do encerramento das Galerias Lumière, decorrente da venda da empresa sua proprietária.

Apesar de alguns lojistas terem já assinado acordos para saírem das suas lojas, seis lojas não foram ainda formalmente notificadas, como é o caso da Livraria Poetria.

Tivemos uma reunião, por nós solicitada, onde nos foi comunicada a intenção da não renovação do nosso contrato de arrendamento, podendo aqui a livraria permanecer até Outubro de 2020, altura em que as Galerias Lumière encerram.

A Livraria Poetria habita as Galerias Lumière desde 2003, ano em que foi criada pela Dina Ferreira e possui uma ligação vital com o sítio onde nasceu, sentimos isso.

Sabemos que constituímos, todos nós que somos Poetria, uma parte deste factor, especial, único e diferenciador que há dezasseis anos nasceu nesta bela cidade e que esta cidade ama.

Acreditamos que este é o momento para que a comunidade que temos vindo a construir se mantenha unida para que juntos consigamos ultrapassar esta situação.

Poetria 1

Até lá, estamos empenhados em dar um fim condigno a estas Galerias, com o decorrer normal da sua vida, tendo já comunicado a nossa intenção de continuar a desenvolver apresentações de livros e eventos culturais até ao fim anunciado.

Vamos ficar nas Galerias Lumière, no mesmo sítio, até Agosto de 2020.

Somos o vosso reflexo. São vocês que nos dão coragem, carácter e identidade. Acreditamos num mundo de consensos, e na certeza de que com trabalho e esforço se consegue algo melhor.
Porque o sonho vive, viverá sempre a Poetria!

 

Comentário

Resido perto de Aveiro, alguns quilómetros a sul. Vou, com alguma frequência, ao Porto. Uma das razões que me atrai à cidade é a Poetria, a primeira livraria de poesia do País. Faço o percurso a pé, a partir da estação de São Bento. É lá que encontro livros que dificilmente vejo noutros lugares. Levo sempre alguns e, à saída, desço três ou quatro degraus e viro à esquerda. Quando o tempo está de feição, sento-me na esplanada daquele café (ou bar?) que fica ali perto, a não mais de cem metros. Leio, e bebo, porque quem lê poesia nunca se abstém.

O comunicado da Poetria é uma daquelas notícias que ferem como punhais. A Poetria não é apenas uma livraria e é mais do que uma casa. Atrevo-me a dizer: é um lar. Um lugar onde nos sentimos bem, onde é possível a troca fecundante de ideias, porque a cultura será sempre confraternização e nunca um egoísmo.

Tenho à minha frente um belíssimo texto de Valter Hugo Mãe sobre a Poetria, no preciso momento em que ela completava dez anos de resistência (dado à estampa no P2, suplemento do Público, 19 de Maio, 2013). A esses dez anos de resistência temos que somar mais seis. Sim, resistência, porque como escreve o autor de “Homens imprudentemente poéticos”, a poesia “tem o seu lado de protesto contra a banalidade”. E porque a Poetria é “como uma livraria gourmet, porque a poesia traz o melhor da literatura, a aventura maior, o risco, o modo como segue à frente a desbravar caminho puramente no escuro”.

Diz ainda V.H.M., no texto a que aludo: “Os poetas são feitos de cristal. Vidrinhos a correrem o risco de partir (…). Por isso é tão admirável durar-se dez anos a equilibrar frasquinhos perigosos de maravilha”. Infelizmente, com esta notícia que ninguém gosta de receber, é bem provável que, a partir do Verão de 2020, se torne mais difícil continuar a destapar e a apreciar as delicadas essências desses precários frasquinhos de sabedoria.

O que nos resta? Resistir, não ficarmos deitados, calados, a esperar o que acontece, como aquela nêspera do “Rifão Quotidiano” do Mário Henrique-Leiria. Aquele bairro do Porto precisa da Poetria. E os que por lá costumam passar, para dar uma palavrinha, perguntar por um livro, folhear e comprar outros, também. Ou não fossem os livros (ainda) um bem cultural insubstituível. Afinal, são eles que “nos ensinam a escutar a voz humana” (Marguerite Duras) ou funcionam como pontes “para nos levar a terras distantes” (Emily Dickinson).

Poetria 3Contra os que dobram a cerviz à curvatura de interesses que nada têm a ver com a cultura e a transformam em comércio e mercadoria, é preciso encontrar formas de resistir. Contra este mundo lúgubre e sem generosidade, alguém tem de engendrar um “golpe de asa” que salve a Poetria da extinção.

Não a deixem fenecer, ouviram? Não permitam que estes lamentos ou breves gemidos culturais se convertam em elogio póstumo. O pior que pode acontecer aos que gostam da Poetria é começarem a sentir, um dia destes, uma faca de saudade atravessada na garganta.

Luiz Regala/Pedro Zargo: excurso biográfico de um poeta com qualidades*

Luiz Regala (foto Henrique Ramos)Luiz Carlos Regala de Figueiredo nasceu em Espinho, a 11 de Agosto de 1905, no primeiro andar de uma casa da então Rua do Passeio Alegre, hoje Rua 62, com o n.º 30 de polícia. Era, diz-nos o poeta, “uma rua longa, estreita, coleante como uma cobra – propícia ao jeito e pessoais conveniências das construções urbanas, que cortava a Vila longitudinalmente: a única rua torta desta agreste Praia”.[1]

Foi precisamente nessa praia, quando um dia sentado na areia contemplava o mar – que bem cedo as musas o visitaram. Tinha nove anos quando escreveu o primeiro poema, deixando-nos mais tarde em verso essas impressões iniciais do seu lirismo magoado: Menino ainda, estranha voz inquieta /Rasgou em mim abismos e universos, /E, sem saber o que era ser poeta, /Encontrei-me a chorar… e a fazer versos!

Completou os “estudos gerais” no Liceu de Aveiro e entre 1926-1931, período que coincide com o desmoronamento da I República e com o início da Ditadura Militar que antecede o Estado Novo, Luiz Regala frequenta o Curso Jurídico na Universidade de Coimbra. Nos anos vinte do século passado, a influência que a Universidade teve na geração a que pertenceu Luiz Regala não seria muito diferente da que exerceu na geração de Eça de Queiroz. Seria idêntica a forma de “comprimir, escurecer as almas (…) uma madrasta amarga, carrancuda, rabugenta, de quem todo o espírito digno se desejava libertar, rapidamente, desde que lhe tivesse arrancado pela astúcia, pela empenhoca, pela sujeição à “sebenta”, esse grau que o Estado, seu cúmplice, tornava a chave das carreiras”.[2]A douta Academia, sempre pronta a catar o piolho metafísico nas dobras da ciência, era cada vez mais contestada pelas novas gerações.

O canudo não o entusiasmaria muito: apesar de, na altura, ser passaporte seguro para um emprego, chama-lhe “malograda e malfadada formatura”. Apesar dos dotes de oratória que os seus pares lhe reconhecem, não é o trabalho silencioso no escritório de advogado ou a barra dos tribunais que motivam o poeta. Chega a confessar a um amigo: “esta vida de processos enferruja-me a língua e embota-me, desgraçadamente, a sensibilidade (…). Não imaginas a repugnância que tenho pela engrenagem dos tribunais!… Se pudesse ver-me livre disto tudo (…). Asfixio, amigo, nesta irrespirável atmosfera de conveniências e de jogos malabares do espírito, os mais atrozes, os mais torturantes, os mais repelentes para quem teve, como eu (por que não dizê-lo) uma formação moral e cultural feita de honestidade, feita de honradez e, sobretudo, de autêntica e saudável clerezia.”[3]  A burocracia e o cinzentismo da profissão chocavam abertamente com os códigos morais de quem colocava o ideal da beleza e do amor, e a sede de infinito, acima de todas as outras coisas terrenas.

Luiz Regala tem colaboração dispersa por várias publicações: O Vigilante; Voz Académica; O Primeiro de Janeiro; Seara Nova; O Diabo; Litoral e suplemento cultural CompanhaCorreio do Vouga e suplemento cultural Serão de Letras e Artes; revista Panorama; Diário de Notícias; Beira-MarAlmanaque Desportivo do Distrito de Aveiro; Revista Trimestral da Secção de Filatelia e Numismática do Clube dos Galitos; O Jornal de Estarreja.

Zargo

Apesar da consabida timidez, nunca deixou de emprestar o melhor do seu talento e da sua disponibilidade cívica às instituições e agremiações da cidade: aos Bombeiros, à Banda Amizade – da qual era sócio honorário – à Santa Casa da Misericórdia – onde foi Mesário – e ao Clube dos Galitos. A ele pertence a autoria do libreto da revista Molho de Escabeche, peça teatral que o grupo cénico deste prestigiado Clube apresentou com assinalável êxito em Lisboa (Coliseu dos Recreios, em Janeiro de 1941) e no Porto. O Clube dos Galitos concedeu-lhe, em 4 de Dezembro de 1961, o diploma de Sócio de Mérito do Grupo Cénico “pela exemplar dedicação clubista, alto espírito de benemerência e reais merecimentos artísticos, notavelmente afirmados há já 25 anos e agora de novo evidenciados através da excepcional colaboração prestada à revista “Ainda Canta o Galo”.

Cântico de AmorEm 1945 O Primeiro de Janeiro anuncia estar para breve a publicação do seu primeiro livro de poemas, cujo título era O Teu Livro. Há outros títulos, nunca publicados, que Luiz Regala ia anunciando: Pequenos Poemas Infinitos, Poemas Frustrados, Noite Imensa, Poemas LusíadasRio Negro, Corpo Inteiro, Canto Renovado e Chão em Fogo. Em vida publicou apenas Cântico de Amor, corria o ano de 1960.

Em 1948 continuava a dedicar-se aos poemas, embora sem publicar. Tinha receio que a maior parte deles pudesse fazer mal aos homens. Coisas “amargas demais, embora revelem um sentido profundo de humanidade”. E anunciava ter em mãos 27 estrofes – tipo camoniano – de Chão em Fogo, poema que haveria de permanecer para sempre inacabado e onde pretende valorizar o Homem nas suas “Chagas, gangrenas, lepras, podridões…/ Cantadas só por mim, que sou cantor/ De tais terrenas, míseras canções…”[4]

Assinou os primeiros poemas na imprensa como Luís-Carlos. Mas um dia, ao familiarizar-se com a poesia brasileira, descobriu um poeta com o mesmo nome.  O desconforto leva-o a procurar um pseudónimo para as suas criações poéticas, que fosse ao mesmo tempo libertador e encobridor. E assim nasceu, embora tardiamente, Pedro Zargo:

Pedro Zargo é o meu nome verdadeiro,
O do baptismo lírico das fontes
Na sagração das águas que se perdem
Na vertigem das pedras e dos montes.

A explicação para o pseudónimo é-nos dada numa entrevista a José de Melo, em 1959: “Pedro Zargo diz bem com a amargura brutal e dilacerante, a amargura ácida de parte da minha obra, sobretudo na última fase, nestes últimos dez anos. Gostei sempre do nome de Pedro; bem quereria que tivesse sido o do meu baptismo. Pedro é a pedra rude, mas viva, das construções milenárias que desafiam a eternidade do tempo. Sobre Pedro – a pedra – construiu Cristo a sua igreja”. Já quanto a Zargo, trata-se de uma evidente homenagem ao grande vate dos Lusíadas: “Camões é poeta, e foi zarolho (…). Zargo significa zarolho. Ficarei assim com alguma coisa do imortal poeta”[5]:

Ah, destino maldito!
Ah, fado amargo!
Ah, desdita! Ah, terrível vida minha!
Ah, Camões incarnado em Pedro Zargo.

Além do vocábulo “pedra”, há outros que no poeta são essenciais. É a eles que recorre, e é também com eles que procura restituir uma certa condição original para desbravar os caminhos do desnudamento e da raiz das coisas e que por isso integram o seu thesaurus poético: “lama”, “lodo”, “charco”, “estrume”, “esterco”, “grito” e “dor”, para citar apenas os mais expressivos. Elementos que participam da pira dos sentimentos em que o poeta se consome, mas que conduzem ao enriquecimento verbal do seu canto, porque lhe dominam os códigos e as subversões:

“Cantava porque o Canto era consigo
Desde a primeira lágrima no olhar!
Cantar era o seu Fado e o seu Castigo,
– Cantava por destino de cantar!”

Em Junho de 1965 abandona Aveiro e refugia-se na sua Toca. É um refúgio de meditação em que se alheia praticamente de tudo o que diz respeito à vida social e profissional. O poeta sensível que é Pedro Zargo vive agora enrodilhado em silêncio e couraçado dum mundo que o agride e o consome. Enquanto absorvia voluntariamente essas golfadas de solidão, confessava: “Este período de exílio tem sido demasiado fecundo para mim. Tem-me feito bem, apesar de todas as contrariedades inerentes. Passei a meditar com mais serenidade e profundeza sobre os vários problemas da vida e do homem, quiçá da vida do homem. Desci também ao fundo de meu poço, ao fundo de mim, com amor e com ódio – ódio fecundante e amor compreensivo e humano. Analisei-me talvez melhor, analisando os outros talvez também melhormente”.[6]

O soneto “Diz-me, Cidade Linda” é uma das várias homenagens que presta a Aveiro, misto de Mar e Frágua que transfigura num corpo gentil de mulher, cuja beleza não é mais do que a própria beleza feminina da Cidade, sua Amada, sua Menina e Moça. E “o líquido alvoroço, que agita a rede dos seus nervos”, é “a agitada água dos canais que percorrem e cortam em vários sentidos o próprio corpo da Cidade.”[7]

Pedro Zargo legou-nos um trabalho de relojoaria poética assinalável. Poeta de paixões e arrebatamentos, do desassossego interior, do sofrimento, da noite escura e da noite imensa, do conflito e das dimensões mais profundas da vida, da melancolia que sobrava das armadilhas do amor. Da exaltação e da angústia destilada em vários amores idealizados e sofridos. Também da hospitalidade e do acolhimento dos outros. Homem de fé e profundamente religioso, mas tocado e dilacerado pela incerteza que é própria dos homens de carne e osso, pois só os deuses se ofendem com a dúvida.

Caricatura Luiz Regala (A. Torres)
Luiz Regala caricaturado por Amilcar Torres (1957)

O momento de júbilo é aquele em que o poema acontece, porque de algum modo pacifica o que antes era caos interior e inquietação. Um ser profundamente lírico, que se comove com a paleta de cores variegadas da mãe-natureza, com um voo de ave, uma flor a desabrochar, um repuxo de água, com o marulhar das águas revoltas do mar ou quase paradas dum regato manso. Observador atento e sensível de tudo o que o rodeia, assentam-lhe bem estas palavras de Eugénio de Andrade: “Colhe todo o oiro do dia/ na haste mais alta da melancolia”.

Os anos foram passando e o grosso da obra continuava praticamente inédita. Até que um dia o poeta adoeceu e se fechou em casa: nunca mais procurou ninguém, poucos o terão visitado. Contava 80 anos de idade quando, a 4 de Abril de 1986, a morte o apartou do nosso convívio, perante a indiferença quase geral dos aveirenses seus contemporâneos. Cercada de silêncio, a memória de Pedro Zargo passou a estar ausente dos azimutes culturais da cidade salgada. É certo que Aveiro tem uma rua com o seu nome. E que algumas iniciativas procuraram honrar-lhe a memória, nomeadamente as que então foram promovidas pelo Teatro Independente de Aveiro. Mas nada disso impediu que com o arrastar dos anos uma hera de silêncio se enroscasse dolorosamente em torno do seu nome.

O apagamento da memória de um vulto desta grandeza na vida cultural aveirense não representa apenas um esquecimento aviltante. É também, para aqueles que o conheceram ou de perto privaram com o “amigo noctívago” – como de forma comovedora lhe chamou Vasco Branco no Roteiro Impopular de uma Cidade – uma faca de saudade atravessada na garganta.

Pedro Zargo nunca calou o seu Canto e sempre alimentou a esperança de que os amigos, um dia, fizessem incidir nele os holofotes da publicidade: “Nas tuas frágeis mãos deixo o meu Canto;/ É o meu grito de Amor!… que alguém o acoite!” Só uma pequena parte da sua obra poética é do conhecimento público. É imperioso trazer à luz do dia o muito que ainda permanece na sombra. Apreciar o essencial da sua obra poética será a melhor forma de o homenagear. Começa aí o verdadeiro reconhecimento que a cidade lhe deve.

Como pedia Amadeu de Sousa: /Que a foice atroz/ Não cale a voz/ Na sepultura. Ou, como dizia o próprio Pedro Zargo:

/Todo o mal seja esse!
E que a voz se não cale…
O que importa é que a carne, mesmo depois de morta,
proteste, acuse e fale.

Na verdade, se a finitude do corpo é uma certeza, o que se escreve permanece e ajuda a perpetuar um pensamento. É urgente recuperar o seu canto familiar, a magia que se desprende da osmose entre o poeta e a cidade que deveras amou.

Estamos em crer que a obra poética de Pedro Zargo, que laboriosamente construiu e lapidou e por isso ecoa inteira na força do seu grito – mas que por razões imponderáveis não foi possível dar a conhecer aos seus contemporâneos – se há-de converter, uma vez conhecida de todos, em obra intemporal, apreciada pelos leitores de hoje e de amanhã. Será ao nível dos novos leitores que a sua poesia, escrita ao longo de dezenas de anos, se pode reerguer, reanimar e reviver. Fazer isso é devolver ao poeta a parcela de eternidade a que tem direito e a que de algum modo todos os artistas aspiram.

É dos livros: na morte, como na vida, os poetas arranjam sempre maneira de se salvar.

* (Texto publicado em  Folhas – Letras & Outros Ofícios. Revista do Grupo Poético de Aveiro, n.º 16, 2018, pp. 195-201).


[1]Documento existente no espólio de Luís Regala.

[2]Eça de Queiroz, Notas Contemporâneas, Edição Livros do Brasil, s.d., pp. 257-58.

[3]Carta de Luiz Regala, 23.10.1935 [destinatário desconhecido].

[4]Carta a José Marmelo e Silva, 16.06.1948.

[5]José de Melo, “Encontro com Pedro Zargo”, Diário Ilustrado, 05.09.1959, pp. 1 e 4.

[6]Carta de Luiz Regala a Manuel Granjeia, 19.11.1965.

[7]Carta de Luiz Regala a João Lé, 14.07.1980.

Poema de Vasco Graça Moura sobre O Meu Pipi

O Meu PipiHá precisamente 14 anos nascia o fenómeno O Meu Pipi, um dos blogues mais badalados de Portugal. Obra de autor anónimo, figura enigmática que em 2003 incendiou a emergente blogosfera, regando com humor de fino quilate textos com palavrões a roçar a obscenidade, misturados com erudição e um reconhecido bom nível de escrita.

Muitos viram em O Meu Pipi um cometa fugaz. Outros internautas, mais avisados, perceberam logo que O Meu Pipi de cometa não tinha nada. A bola de neve da popularidade foi crescendo e começou a entrar nos hábitos de leitura de muita gente. O Meu Pipi passou a ser citado um pouco por todo o lado e acabou por atrair o interesse dos editores, dispostos a transformar em livro impresso as entradas diárias publicadas em www.omeupipi.blogspot.pt

Numa entrevista concedida ao semanário Expresso, o Pipi resolveu manter oculta a identidade e a dado passo acrescentou: “Suponho que há uma consciência ordinária comum ao sexo masculino. Todos temos dentro de nós um camionista, um mecânico, o gajo que cola na parede do escritório o calendário de gajas nuas”.[1]

Noutra entrevista ao Ípsilon, questionado sobre a difícil relação da literatura portuguesa com o sexo, Pipi assevera que as traulitadas estão “deficientemente representadas na literatura”. E cita, como exemplo, o episódio de uma noite de núpcias no livro Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, onde se lê: “[Diogo] entrou nela devagar, conforme ela pedira. Devagar e cada vez mais fundo, até que um dique se rebentou algures, não sabia se dele, se dela, se de ambos”. Eis o que recorta, a seguir, o bisturi crítico do Pipi: “Note que se trata de um erotismo hidráulico, este que cruza os diques com a berlaitada”.[2]

Diário O Meu PipiDepois de em 2011 nos ter brindado com um volume de Sermões, que ancorados na literatura erótica glosam textos do Padre António Vieira, Tomás de Aquino e Santo Agostinho, o Pipi regressa de novo em 2017 com um novo livro, anunciado como “edição de luxúria interdita a menores de 18 anos”.

O sucesso inicial foi tão retumbante que até Miguel Esteves Cardoso considerou O Meu Pipi genial. Entretanto, tinha-se gerado uma febre especulativa em torno do autor do blogue. Alguém, seguramente, com uma cultura e um humor muito acima da média. Foram convocados nomes como os de Vasco Graça Moura, Eduardo Prado Coelho, Pedro Mexia, José Pacheco Pereira e António Mega Ferreira, entre outros. Vasco Graça Moura aproveitou a deixa e propôs-se negar o boato. Fê-lo de forma eloquente, com umas “décimas de refutação” memoráveis. Estas:

já num blogue o meu pipi?
de um pipi, que caso estranho…
eu vou ali e já venho:
dó, ré, mi, fá, sol, lá, si.

é forçoso que eu desminta
com vigor essa atoarda:
por muito usar a espingarda
e por gastar muita tinta,
não se espere que consinta
na falsidade que li
e me ofende o pedigree:
garanto que não fui eu
o brejeiro que meteu
já num blogue o meu pipi.

quer-se o pipi bem guardado
para uso pessoal:
nestas coisas afinal
deve ser-se recatado.
demais, quem seja versado
nos tiques do meu engenho,
das prosódias que eu amanho
já saberia de cor
que eu faria bem melhor
de um pipi… que caso estranho!

nem da lira tiraria
maior glória do instrumento
quando ao pipi acrescento
a minha morfologia.
e decerto não cabia
num blogue assim o tamanho
do lenho ardendo no lanho.
pipilar pipis na liça
muito enguiça e pouco atiça…
eu vou ali e já venho…

o que é de césar, quem jogue
assim a césar o dê
e se entender o porquê
deixe então que eu desafogue:
que não pus pipi no blogue
nem pus blogue no pipi:
ri melhor quem no fim ri
por redondilha ou quiasmo,
ou por música de orgasmo:
dó, ré, mi, fá, sol, lá, si.


 

[1] Expresso-Revista Única, 28.06.2003, p. 4.

[2] Ípsilon, 06.01.2012.

Desconsolo (soneto para João Ferrão)

LareiraA remexer em velhos papéis, encontrei um soneto que tem, seguramente, quinze anos. Era inverno e o recuperador de calor deitava fumo, sempre que o ligava. Falei com João Ferrão, proprietário da CHAMA & ARTE, empresa especializada em soluções de aquecimento. Pedi-lhe para vir com brevidade à Palhaça, nome patusco da terra em que resido. Disse que sim e que também, mas nunca mais deu sinal de vida.

Uns dias depois, no comboio a caminho de Coimbra, desabafei sobre o assunto. Para meu espanto, um dos amigos de viagem conhecia-o de ginjeira. Costumavam praticar BTT juntos e até tinham um site, o arfar.com

Ainda hoje não sei explicar porquê: ao regressar do trabalho, deu-me para dedicar um soneto ao tal João Ferrão. Depois, pedi ao amigo do BTT para lho entregar pessoalmente. Não sei se foi pelos empenhos desse meu amigo: o que sei é que se escangalhou a rir no dia em que o leu e que pedalou até minha casa, logo no dia seguinte.

Fiquei a meditar na utilidade da poesia e na força que se pode desprender de um poema, forma que encontrei para lhe mandar sinais de fumo e desagrado. E dei comigo a pensar: a poesia, mesmo quando sai da pena retorcida de um poetastro que ninguém conhece, pode muito bem ser aquilo que Lawrence Ferlinghetti dizia dela: uma arte insurgente, cabendo-nos decidir se um poema é uma pergunta ou uma declaração, uma meditação ou um protesto. Neste caso foi mesmo um protesto, embora sob a forma de harpejo lírico.

DESCONSOLO

João Ferrão é o seu nome verdadeiro,
Um ás a galgar as serras e os montes,
Amante da natureza lírica das fontes,
Com morada prós lados de Mamodeiro.

Com CHAMA & ARTE – assim governa a vida.
E aqui só posso mesmo achar graça:
Para quê tão rijo pedalar, tanta corrida,
Se não arfa a pedalar rumo à Palhaça?…

CHAMA, a gente chama…, mas ele não vem!
ARTE, se é que existe, só a da fuga!
Tudo se complica e ninguém se rala…

Chega o inverno, o vento, a chuva,
Eis a graça que tudo isto tem:
O fumo a inundar-me toda a sala!…

O Balouço de Fragonard, num poema de Jorge de Sena

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Fragonard, O baloiço, 1767

Analisemos a pintura, para depois falar do poema. O que vemos? Uma jovem que cruza os ares, sentada num baloiço, cena que corresponde à parte iluminada do quadro. Um sapato que se desprende do pé e que voa. Um homem mais velho, à direita (o marido?) que a empurra. Um jovem, à esquerda, protegido por um arbusto, que a contempla. O cenário completa-se com uma vegetação abundante, duas estátuas e um muro. O quadro mostra-nos como a pintura, estática por natureza, é capaz de nos transmitir a ideia de movimento. Através dele, o pintor dá-nos a ver o espírito libertino da aristocracia parisiense da segunda metade do século XVIII. Uma pintura narrativa, que assim convida à efabulação. Veremos, já a seguir, como esta pintura despertou em Jorge de Sena a imaginação do voyeur.

Este poema de Jorge de Sena mostra a rara beleza do diálogo íntimo que ele estabelece com o quadro de Fragonard. Aqui, é o sujeito poético que se fixa na figura feminina, acompanhando o movimento pendular do próprio baloiço para descrever a forma sensual como ela baloiça e se descontrai para separar as pernas. Neste belíssimo poema até a Natureza se antropomorfiza e humaniza. Basta citar os versos: “entre arvoredo que tremula”, “Que estátuas e que muros se balouçam”, ou até “do palpitar de entranhas na folhagem”. O poema projecta desejos e sentimentos tipicamente humanos naquilo que no quadro pertence ao domínio do inanimado.

Por outro lado, o poema explicita o erotismo que na pintura apenas se insinua. Assim acontece no jogo (prazenteiro) de esconder e mostrar. A efabulação prolonga, no poema, o jogo erótico mais ou menos subliminar que podemos entrever nesta pintura. Estamos, claro está, a falar de uma interpretação pessoal do quadro de Fragonard. Pessoal, mas magistral na forma como consegue o casamento feliz entre o poema e a pintura que o precede. Mais do que descrever o quadro, o poema recria-o, especula para além do que ele dá a ver. Podemos aqui falar de pintura enquanto poesia muda e de poesia enquanto pintura que fala. Jorge de Sena apropria-se das figuras representadas no quadro e transfigura-as, faz delas personagens de um enredo. O poema amplifica o tema do quadro, que assim extravasa das próprias molduras.

(Consultas: Jorge Fazenda Lourenço, A Poesia de Jorge de Sena. Testemunho, Metamorfose, Peregrinação; Alexandre Dias Pinto, “Movimento Pendular: o Balouço de Fragonard, de Jorge de Sena”).


Como balouça pelos ares no espaço
entre arvoredo que tremula e saias
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não se vê o que indiscreto se reclina
no gozo de escondido se mostrar!
Que olhar e que sapato pelos ares,
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem!
Como um jardim se emprenha de volúpia,
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
Que roupas se demoram e constrangem
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa!
Que estátuas e que muros se balouçam
nessa vertigem de que as cordas são
tão córnea a graça de um feliz marido!
Como balouça, como adeja, como
é galanteio o gesto com que, obsceno,
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar!
Como do mundo nada importa mais!

Assis, 8/4/1961

Jorge de Sena, Antologia Poética

 

Poema à Mãe

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal…

Mas – tu sabes – a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das criança
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziantes.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distantes.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
Como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus, o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criada
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

ANTÓNIO GEDEÃO

(Poesias Completas)

Poesia de Abril

Deixo que a palavra
tão incerta
teça
a liberdade a meio
deste Abril
para que a memória em Portugal não esqueça
tomando da flor
o cravo na matriz
teimando que a paixão
a tudo vença
dizendo não àquilo
que não quis

(Maria Teresa Horta)

Salgueiro Miaia

“A tristeza da normalização democrática não são as eleições e os partidos, essa foi uma das razões dos cravos. A tristeza é que a sua imposição se fez expropriando a festa, a democracia que nascia nas ruas, nos empregos e dentro de cada família, dos seus direitos.

A tristeza da normalização não é a da vida ter mudado e termos chegado à sociedade de consumo. A tristeza é que a sua imposição se fez acentuando as raízes da desigualdade, coisificando as relações humanas, quebrando generosidade. A tristeza da nossa democracia é a dos seus limites e vulgaridades. Dito isto, não há razões para tristezas. O que se viveu valeu a pena. E o que vivemos é todo um programa de exigência. Democracia sem fim é o que aprendemos com Abril. Lá chegaremos, mesmo que hoje não saibamos como”.

(Miguel Portas)

Falo-te de Abril
companheiro
deste mês em que as palavras
se enlaçaram de gestos
e transformaram a vida
em mais que esperança

falo-te da luta
companheiro
desta luta agora
dia a dia
e do trabalho e do suor
e dos campos que de ti floriram

falo-te companheiro
deste mês Abril
e da tua força
em que não há enganos

(leonor santa-rita)