Eduardo Lourenço – “mestre da dúvida” e da interrogação permanente

Gostaria de viver num convento onde o superior fosse Álvaro de Campos

“No plano do conhecer ou no plano do agir, na filosofia ou na política, o homem é uma realidade dividida. O respeito pela sua divisão é Heterodoxia”

Eduardo Lourenço

Assinala-se a 23 de Maio o centenário de nascimento de Eduardo Lourenço. A Fundação Calouste Gulbenkian já lhe prestou merecida homenagem, ao organizar um colóquio no dia 28 de Março. Outras iniciativas estão programadas, na cidade da Guarda, onde o Congresso Leituras de Eduardo Lourenço vai revisitar as diferentes facetas da vasta obra daquele que a si próprio se intitulava um “místico sem fé”, ou – atrevemo-nos a dizer – alguém que é portador de uma fé heterodoxa.

Eduardo Lourenço de Faria (doravante designado por EL) nasceu em S. Pedro do Rio Seco, pequena aldeia do concelho de Almeida, distrito da Guarda. Fez a escola primária na terra natal e os estudos secundários na Guarda. Mais tarde rumaria à Universidade de Coimbra, onde encontra um ambiente propício à reflexão cultural, concluindo o curso de Ciências Histórico-Filosóficas. Nos anos 50 foi leitor de português em universidades alemãs e francesas, acabando por se fixar primeiro em Nice e depois em Vence (sul de França) como professor de Filosofia. Não é fácil classificar uma personalidade tão rica e multifacetada, alguém que foi ao mesmo tempo filósofo, pensador, crítico literário e ensaísta penetrante, ensaísmo esse entendido enquanto experiência do questionamento e de busca de sentido capazes de rasgar clareiras para domínios inexplorados.

No plano da filosofia merecem destaque dois dos seus primeiros e mais citados livros, Heterodoxia I (1949) e II (1967) e ainda os estudos sobre António Sérgio ou sobre a filosofia em Antero de Quental, reunidos em Antero ou a Noite Intacta (2007). Sobre Heterodoxia I, obra em que o então jovem EL assume pela primeira vez a sua condição de pensador solitário, é ele mesmo que nos esclarece ter o livro nascido do seu desejo de se demarcar das duas ortodoxias que por essa altura monopolizavam os meios intelectuais portugueses: o catolicismo e o marxismo. Era esta a polarização fundamental da vida cultural portuguesa nos anos 40. Essa dicotomia, tantas vezes extremada no debate político, era para EL a responsável pelo estreitar do caminho onde deviam circular e fluir livremente a cultura e o pensamento.

Chegou a confessar, numa entrevista, que este livro lhe provocou vários dissabores entre os antigos camaradas já entretanto ligados ao núcleo coimbrão da geração neo-realista, “uma audácia” que o deixou “isolado” e “sem família”. O heterodoxo que recusou tanto a leitura racional e positiva dos acontecimentos como a tentação de explicar o mundo que nos rodeia com recurso exclusivo aos mitos, disse em Heterodoxia I, no prólogo, que “a heterodoxia é a consciência absoluta da pluralidade histórica das ortodoxias” (p. 6). Anos mais tarde, no segundo prólogo sobre o espírito da heterodoxia, empenhou-.se em clarificar – e de algum modo também corrigir – ainda mais o conceito: “Recusar a verdade dos outros ou o espírito com que eles a vivem não é o mesmo que encontrar a sua” (Heterodoxia II, p. 90). EL assumiu que em 1949 teria cometido o equívoco de pensar que um ortodoxo não pode ser um homem livre e que a heterodoxia seria a única forma de exercitar a liberdade. Irresistível não pensar no poeta Joaquim Namorado, com quem privou em Coimbra e de quem foi colega nas páginas da Vértice, que um dia proclamou aos quatro ventos que “só a ortodoxia é uma aventura”.

Nas décadas de 50 e 60 avulta sobretudo o crítico literário, embora já na anterior apareçam as primeiras recensões de EL em revistas como Vértice ou Seara Nova. Em 1955 dá a estampa O Desespero Humanista de Miguel Torga e o das Novas Gerações, inaugurando com esse e outros textos sobre poesia, no dizer de Miguel Real, “uma crítica de tipo novo” em Portugal. A consagração desta sua faceta de crítico literário – depois de abandonar, quase por completo, a reflexão filosófica – acontece com a publicação do célebre e polémico ensaio “Presença ou a contra-revolução do modernismo português”? sedimentada, anos depois, com a edição de Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista (1968), as fulgurantes análises de Fernando Pessoa Revisitado (1973) ou Fernando, Rei da Nossa Baviera (1986), Tempo e Poesia (1974), Poesia e Metafísica (1983) ou O Canto do Signo, Existência e Literatura (1994).

O ensaio “Presença ou a contra-revolução do modernismo português?” foi publicado inicialmente em 1960, no suplemento quinzenal Cultura e Arte do jornal O Comércio do Porto e tornou-se desde então um texto incontornável, apesar da poda feita pela censura, nomeadamente com a supressão de referências a Adolfo Casais Monteiro. Num tempo pautado pela quase inexistência de sentido crítico no árido panorama das letras em Portugal, a ninguém foi indiferente esta publicação, que acabou por merecer o aplauso de uns e o melindre de outros – sobretudo os presencistas convictos – e ateou polémicas cujas labaredas ainda perduram. Este ensaio – que Miguel Real considera o “artigo de crítica literária possivelmente mais famoso do século XX em Portugal” – contra as ideias feitas e uma certa unanimidade instalada na crítica literária da época, não podia deixar indiferentes os que sustentavam ser o espírito da Presença o continuador cultural do Orpheu e não a contra-revolução do modernismo, como sustenta EL

O texto acabaria por gerar uma fecunda controvérsia, que se prolongou até aos nossos dias. De entre os presencistas mais convictos, aquele que se terá sentido mais agredido com a tese da contra-revolução do modernismo foi João Gaspar Simões, o “guarda-mor das nossas letras”, como lhe chama EL (Tempo e Poesia, p. 19). Ao lado de EL colocou-se, entre outros, Jorge de Sena, que apesar de não subscrever na íntegra a tese da contra-revolução, considera não existir continuidade na poesia dos dois modernismos.

O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português (1978) é, porventura, o seu mais conhecido e celebrado livro. Nele encontramos ensaios que traçam o retrato da mentalidade portuguesa e onde se procura uma resposta sobre que é, afinal, isto de ser português. Num desses ensaios, escreve: “a mais sumária autópsia da nossa historiografia revela o irrealismo prodigioso da imagem que os Portugueses fazem de si mesmos” (p. 17).  Uma das obras fundamentais do século XX sobre a nossa identidade, que ajudou a outorgar-lhe o estatuto de incontornável teórico da cultura portuguesa, reconhecido nacional e internacionalmente. Grande parte da sua vida foi passada a sondar os mitos da nossa cultura, nomeadamente o diálogo que os mitos estabelecem com as várias épocas. O ensaio principal desta obra foi escrito para a revista Raiz e Utopia (n.º 5-6, 1978).

Para lá das facetas já aqui abordadas, há também o EL do empenhamento político. Data de 1958 o primeiro texto onde manifesta a sua oposição ao Estado Novo, com o título “O Exército ou a Cortina da Ordem”. Nos dois anos seguintes volta a publicar em jornais brasileiros textos de carácter político e a favor da instauração de um regime democrático em Portugal. A seguir à revolução de Abril de 1974, quando a liberdade se instala com a queda do império, tenta compreender e pensar Portugal em textos de intervenção política dispersos por jornais e revistas. A residir em França, pensou com olhar distanciado o complexo e contraditório processo revolucionário que haveria de nos conduzir à democracia e à integração na União Europeia. Derramou esse olhar distanciado em páginas da imprensa, mas também em livros como Os Militares e o Poder, Ocasionais, A Esquerda na Encruzilhada ou Fora da História?, O Complexo de Marx, Do Colonialismo como Nosso Impensado, O Fascismo Nunca Existiu e Nós e a Europa, ou as duas razões.

Finalmente, encontramos também em EL a vincada faceta do esteta. Ora em textos publicados em O Tempo e o Modo e Colóquio/Artes ou reflectida em livros como O Espelho Imaginário – Pintura, Anti-Pintura, Não Pintura (1961), Tempo da Música, Música do Tempo (2012), Da Pintura (2017) e  Segundo Paraíso: Do Cinema como Ficção do nosso Sobrenatural, uma recolha de ensaios, artigos, recensões, notas de agenda e manuscritos que se encontravam dispersos, com títulos como estes: “Edgar Morin ou o Homem como Cinema”, “Marilyn no Céu”, “Charlot, Mito Ambíguo ou Mito Nefasto?”, “Bergman e a Entropia”, “Insólito João de Deus”, ou “A Paixão (Portuguesa) segundo Manoel de Oliveira”.

Estamos a falar de alguém que sempre insistiu em querer compreender  as imagens que os portugueses foram historicamente construindo de si mesmos, o país que somos, o “navio-nação a que chamamos Portugal”, mas com uma visão desencantada e pessimista dos tempos que aí vêm, como transparece da leitura de Nós como Futuro: ao afirmar que “nenhuma barca europeia é mais carregada de passado do que a nossa” e que “simbolicamente nenhum povo vive no passado como Portugal”, EL quer-nos dizer que Portugal vive o presente em função de imagens do passado, imagens essas construídas com a finalidade de perpetuar as ortodoxias reinantes. E será essa nossa maneira tão peculiar de incorporar e viver o passado que acaba por constituir “um sério obstáculo para conceber o futuro”. Um futuro de Portugal que foi desde cedo “o lá fora, a distância nossa ou alheia”.

O consabido pessimismo deste dissidente da sua própria geração e “fascinado escalpelizador da nossa pequenez” (Eugénio Lisboa dixit) também é reconhecível em O Esplendor do Caos, ao sublinhar que “assistimos, sem nenhuma espécie de espanto e ainda menos pânico intelectual, ao sucesso e à glorificação do conceito de caos”. Ou quando afirma: “Nós incorporámos o inferno no quotidiano do mais fascinante e atroz dos séculos (…) num mundo onde o horror se tornou invisível, consumido como pura virtualidade”. José Gil e Fernando Catroga, dois especialistas em história das ideias, classificam este recuo do inteligível, esta forma de EL perscrutar o futuro, de “ensaísmo trágico”. Um olhar trágico sobre a época que lhe foi dado viver, sobre o desencanto do mundo patente no desmoronar da racionalidade programática, em que se assiste ao enfraquecimento da ideia religiosa e metafísica da verdade.

Galardoado com os Prémios Camões e Pessoa, dois dos poetas que mais admirava, consagrado à esquerda e à direita, o autor de O Labirinto da Saudade não morria de amores por um certo anel de ferro do unanimismo que se foi apertando – seguramente com alguns equívocos e alguma ignorância da sua obra à mistura – em torno do seu nome. Aquando do seu desaparecimento o Jornal de Letras dedicou-lhe um número especial onde praticamente todos os textos afinavam pelo diapasão do consenso laudatório. Bastou um texto não alinhado, saído da pena de Eugénio Lisboa, para o verniz estalar. Sentindo-se visado pelas farpas lançadas no editorial, bateu com a porta e acrescentou, na carta de despedida: “José Carlos de Vasconcelos, quero comunicar-lhe que não volto a colaborar no JL. Enquanto o fiz, procurei sempre dizer (…) aquilo que penso: com admiração, quando ela é devida, mas sem idolatrias próprias de ditaduras de terceiro mundo”.

No essencial, o texto de Eugénio Lisboa limitava-se a assinalar uma evidência na prosa de EL: um certo culto da obscuridade, tributário da moderna escola francesa com a qual estava familiarizado. A isso contrapunha Eugénio Lisboa autores como António Sérgio ou José Régio, que nos oferecem “uma prosa limpa, intrepidamente descascada, alheia a floretti e a maneirismos gongorizantes, que só servem para atravancar o fluir asseado das ideias”. Esta crítica em nada abala a consideração que EL lhe merece, apesar de sabermos que não partilha algumas das suas teses. Essa consideração intelectual está bem patente num texto publicado em Maio de 1984 na revista Prelo, onde podemos ler, a propósito de Heterodoxia I, que “aquele jovem inquieto, inteligente e autónomo” teve o mérito de “tentar rasgar a cortina triunfalista e monolítica dos asfixiantes anos 40 (…) os monolíticos centros de decisão que faziam e desfaziam as reputações, em função de bom comportamento ideológico do candidato à glória” (p. 23).

Não será temerário afirmar que talvez ninguém como EL tenha construído uma obra ensaística tão livre de imposições, que tenha abalado tanto, nas décadas de 60 e 70, as consciências da crítica literária portuguesa. Muito poucos terão pensado, de forma tão arguta e profunda, a cultura portuguesa da segunda metade do século XX, cruzando os planos da literatura, da filosofia, do simbólico e do mítico. A vasta e sólida cultura que connosco partilhou foi sempre mais um cais de partida que um ponto de chegada. Ninguém como ele terá ajudado a desconstruir o discurso ortodoxo que é o estrume de todos os mitos, apesar de saber que os manes tutelares da certeza se ofendem com a dúvida e não deixariam de descarregar sobre ele a sua fúria, apostados que sempre estiveram em expurgar heterodoxias.

Ora o debate sobre a vasta obra que EL nos legou, profunda, complexa e provocatória, nada terá a ganhar com o unanimismo acrítico das claques aquiescentes que hoje o veneram. Do que verdadeiramente a sua obra anda carecida não é da sociedade de corte que a idolatra nos habituais espaços de hagiografia. É de crítica construtiva. É que sobre ela recaia a atenção dos que de algum modo o continuam, fascinados com a dúvida e a interrogação permanente.


Consultas:
Ana Cristina Ferreira Assunção Marrucho, “Presença ou a Contra-Revolução do Modernismo Português”. Dissertação de Mestrado, Lisboa, 2008 (consulta electrónica)
António Guerreiro, “O espírito da heterodoxia”, Actual (Expresso), 17.12.2011, p. 30
Eduardo Lourenço, Heterodoxia, Ed. Assírio & Alvim, 1987
Eduardo Lourenço, Tempo e Poesia, (Relógio D’Água, s/d)
Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Publicações Dom Quixote, 1988
José Gil/Fernando Catroga, O Ensaísmo Trágico de Eduardo Lourenço (Relógio D’Água)
Miguel Real, Eduardo Lourenço. Os Anos da Formação (1945-1958), IN-CM, 2003
Miguel Real, O Essencial sobre Eduardo Lourenço (IN-CM)
PRELO (Número especial sobre Eduardo Lourenço), Maio, 1984

Da poesia (versão “prosa fatiada”)

Na revista Sábado escreveu Susana Lúcio, no dia 30 de Janeiro:

“Uma sobrevivente não uma vítima/ E viva para contar a história real”. Foi assim, com um poema, que Pamela Anderson anunciou a sua autobiografia”.

“Com um poema” – enfatizou a jornalista. Afinal, ser poeta não é assim tão difícil como parece. Não é preciso “ser mais alto” (pode ser gente de baixa estatura, desde que se coloque em bicos de pés) nem ter “asas de condor” (pode ser gente que voa baixinho, como as andorinhas em voo rasante à procura dos insectos de que se alimentam). Qualquer um, mesmo com asas de granito, pode ser poeta. Ou pelo menos poetastro, se não for capaz de sair dos andaimes da construção poética.

Essa ideia de Adorno, segundo a qual não é possível escrever poesia depois de Auschwitz, tem muito que se lhe diga. É como acreditar, por absurdo, que podemos proibir os pássaros de cantar. Continuar a escrever e a fazer poesia depois de Auschwitz talvez seja a melhor forma de derrotar a sobranceria do pensamento.

A poesia sobreviveu aos campos de extermínio, como tinha sobrevivido antes ao gás mostarda e aos morteiros da I Guerra Mundial. Se assim não fosse, não teríamos hoje uma poesia de experiência e testemunho da guerra em África, uma memória poética da guerra colonial. A poesia não descreve – longe disso – realidades cor-de-rosa envoltas em bons sentimentos (qualquer idiota é capaz de sentir, se lhe calcarmos um pé). A poesia não rasura a dor, antes lhe dá sentido. É para isso que nos remete esta belíssima definição de Paul Celan, para quem a poesia nos provoca com uma voz diferente: “A poesia é qualquer coisa que pode significar uma mudança na respiração”.

Ouçam o que eu vos digo: seguindo o exemplo de Pamela, hoje em dia só não é poeta quem não quer. Aliás, é comum ouvirmos dizer: “És um poeta!”. A mim já mo disseram algumas vezes, já me colaram esse impiedoso rótulo quando pressentem que ando desligado da realidade ou digo coisas – sobretudo no domínio da política – com as quais não concordam. Como “o poema ensina a cair”, querem derrubar-me com esse labéu de falta de sentido prático da vida.

Para ser poeta basta fazer como a Pamela, mesmo que aquilo que ela escreve seja destituído da mais elementar graciosidade poética. O certo é que estamos a falar de uma poesia que aos poucos vai tomando conta do mundo (sobretudo o das redes sociais), indiferente à pandemia e à invasão da Ucrânia, ao caos e à destruição. Embora o segredo seja a alma do negócio, hoje sinto-me alagado em generosidade e desvendo-vos o truque:

Eu a ler “prosa fatiada” (Almada Negreiros, “Prazeres da leitura”)

Pega-se num naco de prosa (não precisa de ser generoso), envolve-se numa dose q.b. de banalidade a puxar à lágrima furtiva e acrescentam-se uns salpicos de sentimentalismo bacoco. Deixa-se a marinar durante algum tempo. Depois, aquece-se tudo no lume brando da vulgaridade. Quando o molho desta mistela começa a engrossar, retira-se a prosa do lume. Deixa-se esfriar. A seguir, corta-se em fatias de versinhos de água doce e serve-se nos murais do Facebook.

Aqui fica um exemplo, entre tantos outros possíveis, deste acto criativo que consiste em fatiar prosa e transformá-la em versos capazes de agradar a gregos e a troianos:

Prosa minha, não publicada, com data de 03.02.2004:

Conflito

Os dias passam. Mas não passa a refrega moral entre o poder criativo e o dever paternal. Chegar a casa com o fogo criativo esgotado. Angústias, sarilhos existenciais. É este o meu fado.

Poesia minha (prosa fatiada):

Conflito

Os dias passam.

Mas não passa
a refrega moral
entre o poder criativo
e o dever paternal.

Chegar a casa
com o fogo criativo
esgotado.

Angústias
sarilhos existenciais.

É este o meu fado.

Agora digam lá se não estou ao nível da Pamela Anderson. Comparem apenas o fulgor poético. Nada de surfar ondas em marés vivas, muito menos de comparações abusivas entre curvas e contracurvas capazes de endireitar um segmento de recta.

António Manuel Couto Viana (24.01.1923 – 08.06.2010) – no centenário de nascimento do “avestruz lírico”

 

António Manuel Couto Viana nasceu em Viana do Castelo, em 24 de Janeiro de 1923. Professor do ensino liceal, foi também encenador, dramaturgo e tradutor, contista e figurinista, ensaísta e gastrónomo, poeta. Era isto tudo ao mesmo tempo, mas foi sobretudo como poeta que se notabilizou no panorama cultural português, e também como pessoa com fortes ligações ao teatro: inicialmente como actor, pela mão de David Mourão-Ferreira, e mais tarde como empresário e director. A esta sua inclinação para o teatro não terá sido alheia a herança que recebeu do avô: o teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo.

Com 25 anos, publicou o primeiro livro de poemas em 1948, O Avestruz Lírico, título que concentra, segundo Fernando Pinto do Amaral, “a ressonância simbólica associada ao avestruz – animal que, como se sabe, opta por enterrar a cabeça na areia diante das dificuldades – neste caso suplementada com o adjectivo lírico e implicando, por isso, uma resposta aos problemas da vida através da simples entrega ao canto ou à poesia [sendo que] o avestruz simboliza também a profunda frustração do sujeito, que, tal como acontecia no famoso ‘albatroz de Baudelaire’, se identifica com um ser portador de uma insolúvel ambivalência, dado que, sendo uma ave e possuindo naturalmente um par de asas, não consegue elevar-se do solo e voar livremente pelo céu”.

Depois destas primícias literárias, a sua obra viria a avolumar-se com mais de uma centena de livros de diferentes géneros. A obra poética foi traduzida para o inglês, o francês, o espanhol, o alemão, o russo e até o chinês, a que não terá sido alheia a sua permanência em Macau, onde viveu entre 1986 e 1988, exercendo funções docentes no Instituto Cultural daquele antigo território português.

Na década de 1950-1960 empenhou-se na direcção e publicação de algumas revistas literárias e culturais. Entre elas contam-se os cadernos de poesia Graal e também a revista Távola Redonda (“folhas de poesia” que não enjeitavam a influência presencista e da qual se distanciavam tanto o surrealismo como o neo-realismo), que ajudou a fundar em 1950, de parceria com David Mourão-Ferreira, Ruy Cinatti, Fernanda Botelho e Alberto de Lacerda. Estamos a falar de publicações conotadas com a direita intelectual portuguesa da 2.ª metade do século XX.

Numa espécie de reacção a alguma poesia programática do neo-realismo, num evidente menosprezo pelas suas propostas de intervenção social, Couto Viana manifestava nestes oito versos a crença numa identidade muito peculiar e, como acentua Fernando Pinto do Amaral, a sua “faceta indubitavelmente solipsista”:

Podem pedir-me, em vão,
Poemas sociais,
Amor de irmão pra irmão
E outras coisas mais:

Falo de mim – só falo
Daquilo que conheço.

O resto… calo
E esqueço.

Como escreveu Manuel de Freitas: “a obra de Couto Viana nunca deixou de acreditar na biografia enquanto fundamento poético. Poder-se-ia mesmo dizer que o autor tem procurado levar às últimas consequências um conselho sábio de Montaigne: Falo de mim. Só falo/ daquilo que conheço (…). A procura de um ‘efeito de realidade’ poderá inclusivamente explicar, pelo menos em parte, o coloquialismo e a ligeireza aparente de alguns dos melhores versos de Couto Viana”. Digamos que o poeta contrapunha ao canto do social o canto de si mesmo.

Há, na obra de Couto Viana, uma patente exaltação nacionalista e patriótica de Portugal e da História. O poeta simpatizava com o Estado Novo, ao ponto de ter sido convidado pela Mocidade Portuguesa, depois de publicado O Avestruz Lírico, para suceder a Baltazar Rebelo de Sousa na direcção da revista juvenil Camarada.  Não admira, assim, que depois da revolução de Abril de 1974 tenha dado mostras de profunda desilusão por aquilo que considerava ser uma evidente decadência da pátria portuguesa. Num texto intitulado “Portugal”, esboça desta forma cáustica e amarga o fim do império português:

Este mendigo, outrora, era um menino d’oiro,
Teve um Império seu, mas deixou-se roubar.
Hoje, não sabe já́ se é castelhano ou moiro
E vai às praias ver se ainda lhe resta o mar!

É esse mesmo desencanto com uma “pátria doente” e aviltada, amputada dos seus territórios, que transparece em “De Profundis”, poema de A Face Nua e incluído posteriormente na antologia Sou Quem Fui, p. 130:

 

Agora, o meu país são dois palmos de chão
Para uma cova estreita e resignada.
Tem o formato exacto de um caixão.
Agora, o meu país é pó, é cinza, é nada.
Reduziram-no assim para caber na mão
Fechada.

 

A silicose do esquecimento que se abateu sobre o seu nome, de forma mais notória nos últimos anos de vida, terá mais a ver com a declarada ideologia conservadora, monárquica e imperialista, do que com a qualidade da vasta obra que nos legou. É isso que acontece quando, para afirmar ideologias, se embrulha no mais denso esquecimento uma obra que justifica, retrospectivamente, a vida de quem a produziu. Uma obra que algumas escolas literárias procuraram refutar ou desvalorizar, recusando-se a ver nele um poeta digno desse nome.

Da extensa obra em prosa e verso destacamos, para lá de O Avestruz Lírico (1948), também títulos como Pátria Exausta (1971), Coração Arquivista (1977), o volume Uma vez, uma voz (de 1983, que reúne a sua obra poética quase completa), Café de Subúrbio (1991), Prefiro Pátria às Rosas (1998) e Sou Quem Fui (2000), a antologia de uma obra que então se estendia já por cinco décadas, onde deparamos, segundo Manuel de Freitas, com a “delicada rememoração da infância e das suas personagens centrais [que] vai cedendo lugar às artes poéticas, aos anos da Távola Redonda e, finalmente, aos poemas sobre Macau e a melancólicas reflexões sobre a velhice”. Como acontece neste “Madrigal da terceira idade para afastar a solidão” fiel à nossa tradição lírica, que integra Disse e Repito (Averno, Lisboa, 2008), onde podemos detectar a necessidade afectiva de uma vida em idade avançada, evadida do mundo exterior e embrulhada em espessa melancolia:

É um amor discreto,
Ignorado, até.
Só um gesto de afecto,
Um sorriso secreto,
Desfeito, se alguém vê.

É um amor tranquilo,
De alguém que quer alguém
Prá solidão do asilo.
— Coração, ao senti-lo,
Nem aceleras, nem…

É um amor-amizade.
Um amor-simpatia.
Mas, mesmo assim, ele há-de
Deixar dor e saudade
E gerar poesia.

Nos últimos anos de vida o poeta viveu recluído na Casa do Artista, onde continuou a escrever e a publicar os seus trabalhos, numa espécie de combate da memória contra o esquecimento do seu nome e da sua estética, contra o esquecimento de alguém que nunca despertou consensos. Segundo Fernando Pinto do Amaral, importa avaliar a sua obra para lá das conotações políticas e ideológicas do tempo que lhe foi dado viver. Para lá disso, a sua escrita encerra virtualidades: há, nela, “uma reacção positiva que a reconcilia com o mundo (…), a atenção a um quotidiano banal e sereno, observado, por exemplo, no ambiente urbano e rotineiro de um pequeno e anónimo café/esplanada”. É essa atenção ao banal e ao rotineiro que este belo poema ilustra:

Ela está só, em mesa separada.
Bebe uma água mineral.
A aliança no dedo, a dizer que é casada.
Tem, todavia, um tique de mulher fatal.

Ele está só. Solteiro? Não tem nada
No anelar esquerdo. Bebe uma «imperial».
A mesma idade, aproximada.
A mesma classe social.

Ele encara-a, descarado. Ela, indignada,
Volta-lhe a cara, num parece-mal.
Mas, quando se levanta e abandona a esplanada,
Passa por ele num passo lento e sensual.

Ele vai-lhe, de pronto, na peugada.
E uma hora depois, numa esplanada igual,
Vejo-os à mesma mesa, de mão dada,
Como um feliz casal.

Parece ter chegado o tempo de inventariar com o rigor possível – aplacados que estão alguns ódios de estimação e algumas paixões políticas – a vasta obra, necessariamente desigual, deste poeta menorizado pela instituição literária. Uma obra com méritos e defeitos no singular panorama poético português, que sempre recusou o valor social da poesia e optou por “inflamadas versões de tipo nacionalista” (Pedro Sena-Lino). Alguma arrogância do autor – em entrevistas e até derramada num ou noutro verso, não terão ajudado ao necessário distanciamento crítico: “É estéril e seco o horizonte/ de quem ignora a minha poesia” (in Sou Quem Fui, p. 116).

Para se aferir a qualidade de uma obra não são necessárias afinidades ideológicas. É o que nos diz David Mourão-Ferreira quando se refere a Couto Viana: “Tanto no poeta como no crítico são por demais evidentes – têm-mo sido sempre com coerência admirável – determinadas opções ideológicas que, justamente porque muito distintas e distantes das minhas, nunca deixei de compreender e de respeitar”.

Se a responsabilidade do poeta consiste em escrever versos capazes de sobreviver às circunstâncias históricas do seu tempo, então precisamos de nos libertar da crosta dos preconceitos para reconhecer o talento e os méritos dos que prestam relevantes serviços à causa pública, sempre que for caso disso. Assim acontece com este poeta que muitos preferem manter arquivado.


Consultas:

Manuel de Freitas, “O avestruz lírico”, Expresso (n.º e data não identificados).
Blog “Vício da Poesia (https://viciodapoesia.com)
A.M. Couto Viana, 60 Anos de Poesia (prefácio de Fernando Pinto do Amaral)
A.M. Couto Viana, “O artista transversal”, Visão, 17.06.2010, p. 26
Pedro Sena-Lino, “A lira do real pergunta”, Público, 01.05. 2004 (Livros-Poesia, p. 14).
A.M. Couto Viana, Coração Arquivista (prefácio de David Mourão Ferreira).

Eugénio de Andrade (1923-2005) – luz, rigor, clareza

Eugénio de Andrade (retrato de Emerenciano)

Toda a poesia é luminosa,
até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar

Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, 2001

 Nasceu com o nome de baptismo José Fontinhas (19 de Janeiro de 1923, Póvoa da Atalaia-Fundão), mas usou o pseudónimo Eugénio de Andrade pela primeira vez, de forma impressa, em Adolescente (1942). Foi por esse nome que ficou conhecido um dos poetas portugueses do século XX mais lidos, estudados e traduzidos. Apartou-se do nosso convívio em 2005, aos 82 anos, na sua casa da Foz do Douro, sede da Fundação com o seu nome. Decorria o mês de Junho e parece haver nisso uma premonição, um instinto visionário, pois havia escrito: “Pela manhã de Junho é que eu iria/ pela última vez. / Iria sem saber onde a estrada leva” (O Comum da Terra, 1980).

Os primeiros poetas com quem viria a familiarizar-se foram Guerra Junqueiro e António Botto, mas de nenhum deles sentiu que a sua poesia fosse tributária. Foi ao tropeçar em Camilo Pessanha que verdadeiramente sentiu as influência do poeta de Clepsidra, um dos poucos a quem viria a reconhecer o papel de “mestre”. Fez das palavras o ofício de uma vida e da poesia uma «arte de música». António Ramos Rosa chamou-lhe rei Midas do verbo: palavra que tocasse virava ouro de lei. Assim o dizem estas palavras enxutas e cristalinas: “Colhe/ todo o oiro do dia/ na haste mais alta/ da melancolia” (Despedida, in Ostinato Rigore, 1984).

As Mãos e s Frutos (1948) é considerado um dos livros fundadores da poesia portuguesa contemporânea. Para o autor, então com 25 anos, esta é a sua verdadeira obra de estreia, apesar de já ter publicado outras: viria a excluir Adolescentes (1942) da sua bibliografia, e a renegar também Pureza (1945), recuperando destas obras apenas dez Primeiros Poemas, que funcionou como lançamento de uma primeira pedra da sua obra. Personalidades literárias como Vitorino Nemésio, Óscar Lopes, Jorge de Sena ou Eduardo Lourenço perceberam de imediato que As Mãos e os Frutos, o grande livro da exaltação do corpo físico e do desejo – ambos vulneráveis à passagem do tempo – anunciava o nascimento de um grande e luminoso poeta português.

Para Luis Miguel Nava, “as mãos são as partes do corpo de que nos servimos para colher os frutos e os levar à boca (e também) susceptíveis de ser tocadas, acariciadas”. Eugénio de Andrade deleitava-se com a celebração pagã do esplendor do corpo e fez dele o centro da sua poesia. Ficaria reconhecido como “poeta do corpo”, do erotismo e da natureza, na exacta medida em que a beleza dos corpos se aproxima da natureza dos deuses. Também lhe chamaram “poeta dos elementos” (ar, água, terra e fogo), alguém capaz de sacrificar tudo pela construção obsessiva e enxuta de um verso, numa dedicação quase monástica ao labor poético. Luz, concisão e clareza caracterizam a poesia que nos legou, depois de a despir de tudo o que é supérfluo. Idioma rigoroso que apenas consente o que se afeiçoa à pureza da língua e da gramática: “Toda a manhã procurei uma sílaba/ É pouca coisa, é certo: uma vogal”.

Alguém que burilava de forma paciente as palavras, na rigorosa busca da linguagem exacta, até se tornarem nuas de impureza, para assim atingirem a limpidez do cristal. Desse ofício de paciência nos dá conta, na abertura de Os Amantes Sem Dinheiro:

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Uma verdadeira estética da simplicidade, de fidelidade à terra, de desprezo pelo enfático e da presença melódica da palavra. Sílabas leves de um poeta fascinado pela transparência. Assim o confessou a Eduardo Lourenço: “Tu sabes, Eduardo, do meu horror às rimas previstas, à cantilena, à banalidade sentimental (detestando igualmente as cintilações ‘para raros’) e sabes também como amo excessivamente (não sei amar sem excesso!) a claridade, a sobriedade expressiva, a palavra exacta, se possível unívocas”.

Palavras do corpo e da alma, redondas como frutos maduros com sabor a sol e laranjas.  Diz-nos António Guerreiro: “quando, em poemas diferentes, se fala de uma cabra, de uma laranja ou de um limoeiro (três exemplos escolhidos quase arbitrariamente, entre tantos outros), esses elementos surgem desde logo associados a uma linguagem onde se dá o triunfo da perfeição da arte – da poesia – sobre a contingência da realidade”.

Para lá destes frutos também encontramos, no jardim perfumado do poeta nascido no ambiente campestre das Beiras, jacarandás, figueiras, girassóis, palmeiras, rosas e amoras. Ao analisar a influência intertextual de autores como Byron, Keats, Shelley e Whitman na obra de Eugénio de Andrade, o poeta e escritor João de Mancelos anota: “As experiências do escritor reflectidas pelo seu imaginário levam-no a encontrar sentidos pessoais para a figueira e para a amora (…). Em verdade, o pólen e as sementes de escritores antigos encontraram nos versos de Eugénio um solo fértil, sempre aberto ao sopro de antigas vozes, à luz de outras leituras, e às águas mais puras da inspiração”.

As amoras
O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
(O Outro Nome da Terra, 1988)

Outras obras merecem destaque: Os Amantes Sem Dinheiro (1950), As Palavras Interditas (1951), Mar de Setembro (1961), Ostinato Rigore (1964), Os Afluentes do Silêncio (1968) Obscuro Domínio (1971), Véspera da Água (1973), Escrito da Terra (1974), Limiar dos Pássaros (1976), Memória doutro Rio (1978), Rosto Precário (1979), Matéria Solar (1980), O Peso da Sombra (1982), Branco no Branco (1984), Vertentes do Olhar (1986), Rente ao dizer (1992), À Sombra da Memória (1993), Ofício de Paciência (1994), O Sal na Língua (1995), Os lugares do lume (1998).

Em todas elas encontramos belíssimos poemas, que mais não são do que a respiração e o pulsar natural das coisas; ou prosa de fino quilate, limpa e sem atalhos, que lhe permitia uma respiração diferente dos versos e onde a fidelidade temática e essa espécie de música a que aludem Óscar Lopes e Eduardo Lourenço estão sempre presentes. Há um trabalho de filigrana por detrás de cada poema, até que as metáforas pousem na folha de papel. Poeta que fez do rigor a sua norma, ao ponto de lhe dedicar um livro, precisamente Ostinato Rigore. Poesia depurada, onde se manifesta o amor pela exactidão. Assim desejava o poeta que fossem os seus livros: “aspiram a uma simplicidade natural, cujo modelo supremo é a música de Bach”. Bernardo Pinto do Amaral, aquando da reedição de O Outro Nome da Terra, dá-nos um esboço da sua poética ao falar de uma realidade acessível, uma beleza concreta, uma tendência para o silêncio, um amor do mundo.

O ano de 1956 é uma data marcante na vida do poeta. Assinala a morte da mãe, a confidente de uma dedicação sem intervalos, a figura incontornável da sua vida e também da sua obra:

Poema à mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal…

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.
(Eugénio de Andrade, Os Amantes Sem Dinheiro, 1950)

É este o património que fica. Do poeta com uma tão aguda inteligência da alma (Lobo Antunes dixit) sobrevivem as palavras, afinal o que nos resta quando o corpo se degrada. Alguns dos melhores poemas escritos em português, mas também prosa, livros infantis, antologias (de Lorca, Safo e Borges, entre outras) e traduções que organizou. Tudo com posteridade garantida, capaz de devolver ao poeta a parcela de eternidade a que tem direito e a que de algum modo todos aspiram. O poeta sobrevive na obra que deixa. É dos livros: na morte, como na vida, os poetas arranjam sempre maneira de se salvar. E em Eugénio de Andrade o essencialismo verbal nunca deixou de andar atrelado à ideia de salvação.

Era avesso a poderes, luxos e honrarias. Detestava concursos, fossem eles literários ou outros. Durante 35 anos teve emprego burocrático no Estado, com a categoria de inspector administrativo. Recusou sempre submeter-se a concursos de promoção. No dizer de Agustina, “Eugénio não se rendeu nunca aos medíocres, era uma coisa que acendia a sua cólera”. Mostrou sempre “desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação”. Numa entrevista a José Carlos de Vasconcelos (Visão, Novembro de 1998), confessa: “Não tenho, nem quero ter nenhuma relação com o poder, qualquer poder. As coisas mundanas são-me cada vez mais insuportáveis (…) continuo a fugir ao contacto com as coisas públicas, a entrevistas. Sinto-me mal diante de câmaras e microfones, tenho horror ao exibicionismo”.

Dado ao silêncio e ao recato, compreende-se que o poeta tenha confessado viver “forrado em silêncio”. Silêncio quando fala “a propósito de nascentes, de um quadro de Morandi, de duas ou três sílabas, de uma cidade do Sul, de palmeiras, cujo silêncio é hirto, de espelhos, cujo silêncio é baço, da fonte de Pascoaes, do barro ainda quente, da poesia japonesa, dos mortos que nos deixam “sentados no silêncio”, ou dessas casas (e ele sente tanta pena dessas casas) onde não é possível ouvir o silêncio correr” (José Tolentino Mendonça). Avesso ao ruído e ao tumulto do mundo, justificava as raras aparições públicas com “essa debilidade do coração que é a amizade”. Um cultor – digamos assim – do espaço purificado do silêncio.

Assim era aquele que um dia escreveu em Poesia, Terra de Minha Mãe, obra editada no âmbito dos 50 anos de vida literária: “desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água”. Mas como nos diz de forma particularmente lúcida e objectiva Gastão Cruz no estudo introdutório à reedição integral da sua obra pela Assírio & Alvim, nem tudo é transparência e luminosidade na sua obra: “em Eugénio há matéria solar, mas igualmente obscuro domínio; daí encontrarmos várias elegias que lamentam as palavras gastas, o amor volátil”.

Notícias do seu desaparecimento dão conta que morreu tranquilo, de madrugada, durante o sono. Com flores frescas por perto, orquídeas e frésias. E já que falamos de flores, nada melhor do que fechar este texto com uma história deliciosa que a sua grande amiga Agustina Bessa-Luis – parceira de viagens à Grécia e a Maiorca – costumava contar. Quando chegava a casa dela, Eugénio dizia-lhe: Maria Agustina, que flores maravilhosas são aquelas no lago da entrada?  E ela respondia: são nenúfares, Eugénio, e você está farto de os mencionar na sua poesia…

Ler ou reler hoje Eugénio de Andrade, uma poesia que é, ao mesmo tempo, hidrografia do corpo e carta dos afluentes do silêncio, é meio caminho andado para alcançar as verdades primordiais. (Re)visitar cada verso, cada frase, cada palavra, mais do que rasgar clareiras de deslumbramento e do mais puro deleite, é seguramente a melhor forma de o homenagearmos.


Consultas:

  • Luis Miguel Nava, O essencial sobre Eugénio de Andrade
  • Alexandra Lucas Coelho, “Despedida à entrada do Verão”. Público, 14.06.2005, p. 22.
  • “Eugénio de Andrade. O bem-amado”, Sol, 19.01.2017.
  • António Guerreiro, “À distância, tão longe daqui”. Expresso (Cartaz), 12.12.2001, p. 28.
  • João de Mancelos, O Marulhar de Versos Antigos. A intertextualidade em Eugénio de Andrade. Lisboa, Edições Colibri, 2009.
  • Luis Miguel Queirós, “Poeta de um obstinado rigor”, Público, 14.06.2005.
  • Valdemar Cruz, “Eugénio de Andrade”, Expresso (Revista Única), 18.06.2005.
  • Relâmpago (Revista de Poesia), n.º 15, Outubro 2004.
  • Sílvia Souto Cunha, “O silêncio de Eugénio”. Visão, 18.06.2005.
  • Gastão Cruz, “Transparência e sombra em Eugénio de Andrade”. Mil Folhas (suplemento do Público), 25.06.2005.
  • Fernando Assis Pacheco, “Eugénio de Andrade: fogo, claridade, música”.  Suplemento de O Jornal, 29.05.1987.
  • Ana Marques Gastão, “Eugénio de Andrade, o culto do corpo”. Diário de Notícias, 24.12.2000, p. 34.
  • Fernando Pinto do Amaral, “Redescobrir o poeta”. Jornal de Letras, 29.11.2000, p. 14.
  • José Tolentino Mendonça, “Ouvir o silêncio correr”. Mil Folhas (suplemento do Público), 18.11. 2000, p. 4.
  • Carta de Eugénio de Andrade a Eduardo Lourenço, 08.04.1953 (in Colóquio Letras, n.º 171, Maio/Agosto 2009, p. 393).

Natal – contos, poesia e o maravilhoso infantil

Uma das mais apreciadas obras de Ruben A. (Ruben Alfredo Andresen Leitão) é O Mundo à minha procura, livro autobiográfico onde se descarna e auto-flagela, numa exigência de sinceridade que não faz qualquer tipo de concessões ao medalhão ou ao elogio fácil. É nesta obra que o originalíssimo escritor nos dá a conhecer como era o Natal no Porto nos anos 30 do século XX, na Quinta do Campo Alegre, onde hoje se encontra instalado o Jardim Botânico. Foi lá que passou boa parte da infância. Aqui ficam alguns trechos que espelham a forma como interiorizou essas noites de Natal, tempos felizes vividos no seio de uma abastada burguesia portuense.

“Se pensar bem, vejo que nada encontrei na vida que se compare ao Natal do Campo Alegre. Era um Natal nórdico, alimentado pela combustão germânica e dinamarquesa da família de meus avós, aperfeiçoado pelos requintes trazidos ao seu brilho pelas minhas tias que, através do casamento ou por feitio, capricharam mais em festejar a data do nascimento de Cristo sob a forma tradicional das antigas lendas do Reno, do que segundo os cânones da consoada portuguesa (…).

Era uma festa de mil cores, pantagruélica, ampliada de generosidade que começava no dia em que a tia Teodora ia à mata com o Sezé escolher cuidadosamente qual seria o pinheiro a deitar abaixo para se colocar no centro do átrio do Campo Alegre (…). O pinheiro, aquela devoção da árvore, fazia muita confusão ao Sezé. O Natal para ele era uma rija bacalhoada, missa do galo e filhós bem encharcadas numa calde de açúcar com canela (…).

Havia açafates de fruta cristalizada, castanhas, nozes, amêndoas, uvas passas habitando as taças do estupendo serviço azul e branco de Sèvres, fruta do Douro colocadas para natureza-morta em fruteiras de cristal (…). A mesa grande da casa de jantar sentava uns quarenta e oito (…). Estabelecia-se o silêncio e o bacalhau era servido em segunda edição. E bacalhau assado como aquele nunca mais comi. Dá-me a lembrança que começava a perder sal uns quatro a cinco dias. Revelava—se em posta do alto, julgo que uma mão travessa de espessura, bacalhau do autêntico da Noruega. Coberto a seguir com uma camada de cebola às rodelas e coroado por broa de milho, tudo isto mergulhado até meia altura em banho de azeite, com batatas novas a rodear, ia ao forno e saía tostado de encantar um morto. Ao lado uns grelos e uma penca do Douro coloriam de verdura este monstro gastronómico que se servia em silêncio de grande ocasião. Ao mesmo tempo – e isto é extraordinário – do outro lado da mesa, os criados apresentavam o célebre bacalhau esfiado com um creme no meio que fazia as delícias aos mais desdentados da família”.

O que não falta na literatura são belos contos de Natal. Na estrangeira, entre tantos outros, os de Dickens – que nos dá a conhecer Scrooge, personagem da época vitoriana que só a muito custo recupera a humanidade perdida – e os de Agatha Christie. Na portuguesa, basta pegar na antologia de Vasco Graça Moura, Gloria in Excelsis, para saborear, entre a trama religiosa e a laicidade, suculentos nacos de prosa natalícia. Contos de Jorge de Sena, José Régio, Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, José Saramago, Manuel da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues, Raul Brandão e outros. Segundo Vasco Graça Moura, “praticamente nenhum dos grandes nomes da nossa ficção deixou de abordar o tema”, reconhecendo também que “há um tom de desgraça nalguns contos de Natal portugueses”. Apetece acrescentar: Pudera! Nem todos os lares conheciam pelo Natal – e fora dele – a abastança da Quinta do Campo Alegre descrita por Ruben A. Sempre houve e haverá Natais de ricos e de pobres.

Não é só na prosa portuguesa sobre o Natal que deparamos com amargura ou desalento. Na poesia esses elementos também estão presentes, ou não fossem os poetas sensíveis à pobreza, à miséria e aos azares de tantas existências viúvas de alegrias. É desses estados de alma que resultam da oposição profana entre tempo feliz e tempo de amargura que nos fala este tocante poema “Noite de Natal”, de António Feijó:

Bairro elegante, – e que miséria!
Roto e faminto, à luz sidérea,
O pequenito adormeceu…

Morto de frio e de cansaço,
As mãos no seio, erguido o braço
Sobre os jornais, que não vendeu.

A noite é fria; a geada cresta;
Em cada lar, sinais de festa!
E o pobrezinho não tem lar…

Todas as portas já cerradas!
Ó almas puras, bem formadas,
Vede as estrelas a chorar!

Morto de frio e de cansaço,
As mãos no seio, erguido o braço
Sobre os jornais, que não vendeu,

Em plena rua, que miséria!
Roto e faminto, à luz sidérea,
O pequenito adormeceu…

Sonha talvez, pobre inocente!
Ao frio, à neve, ao luar mordente,
Com o presépio de Belém…

Do céu azul, às horas mortas,
Nossa Senhora abriu-lhe as portas
E aos orfãozinhos sem ninguém…

E todo o céu se lhe apresenta
Numa grande Árvore que ostenta
Coisas dum vívido esplendor,

Onde Jesus, o Deus Menino,
Ao som dum cântico divino,
Colhe as estrelas do Senhor…

E o pequenito extasiado,
Naquele sonho iluminado
De tantas coisas imortais,

– No céu azul, pobre criança!
Pensa talvez, cheio de esp’rança,
Vender melhor os seus jornais…

Regresso à literatura estrangeira e a um livro que também já serviu de inspiração a uma belíssima série televisiva. Refiro-me a Reviver o Passado em Brideshead, do escritor britânico Evelyn Waugh. Há nesta obra um momento inesquecível, quando Charles Ryder pergunta ao católico Sebastian como pode acreditar no nascimento de Cristo, nos Reis Magos e até na Estrela de Belém que terá anunciado a chegada do Messias. A resposta de Sebastian é surpreendente: “- Oh, mas acredito! É uma ideia maravilhosa”.

Por respostas destas e por outras é que não devemos retirar a crença no Pai Natal ao imaginário infantil. Dizer às crianças que o Pai Natal não existe, como o Peter Pan não existe, é cortar-lhes o fio do sonho, impedi-las de caminhar nas veredas do imaginário. Um dia vão fingir que não sabem que ele não existe, porque não é fácil mergulhar no poço de desencantamento do mundo nem renunciar ao mundo mágico da fantasia da infância. Também nesse momento nos cabe fingir que não sabemos que já eles sabem. Mentir por amor é que é falar verdade.

É preciso continuar a alimentar o imaginário dos mais pequenos, recusando a morte dos mitos da infância. Pouco importa saber se havia burro ou vaca no Presépio ou o dia certo em que Jesus nasceu, ou se a celebração antiga do Natal foi uma forma de combate às celebrações pagãs. É preciso respeitar esse mundo mágico a que têm direito e tentar mantê-lo intocado. Isso requer de nós que valorizemos mais a maravilha da ideia do que o verosímil da história. É isso que faz o poeta David-Mourão Ferreira em “Surdina de Natal para os meus netos”:

Ó David Ó Inês
vamos ver o Menino
inda mais pequenino
que vocês

Vamos vê-lo tapado
sob o céu do futuro
com a sombra de um muro
a seu lado

Vamos vê-lo nós três
novamente a nascer
Vamos ver se vai ser
Desta vez

Meu querido Pai Natal, vou confessar-te uma coisa: tenho setenta anos e gostava tanto de receber uma prenda tua. Como no tempo em que tudo fazia para manter-me acordado, para não adormecer à noite, com o calor a amornar os corpos, à sonolência da lareira. Dava tudo para te ver chegar, receber e agradecer as prendas. Sempre te esquivaste ao tão ansiado encontro. Acordar cedo, alvoroçado, levantar-me de um pulo, sentir qualquer coisa a cintilar dentro de mim e correr para a lareira, ver o que tinha no sapatinho. E como era feliz com uns simples rebuçados coloridos. Ainda mais com uma pomba de chocolate, por mais oca que fosse. Sempre ficava mais barato, como dizia o O’Neill a propósito das três sílabas de plástico…

CARLOS BRAGA (1952 –         )

Calma! Ainda não é o que estavam a pensar. Isso seria, por agora, uma notícia manifestamente exagerada. Espero não vos ter deixado de coração alvoroçado, só porque ando, há praticamente um ano, afastado das massas (e, confesso, às vezes também dos hidratos…). A inspiração para o título deste texto foi pedida de empréstimo ao escritor Gonçalo M. Tavares. Transcrevo, do Jornal de Letras n.º 1356, de 21 de Setembro:

“Todos os vivos em parte são isto: uma data, para já, e um traço ali, no meio, que parece tremer como o solo que espera. Quando? Quando? A mão espera – a mão de quem, não sei – mas espera ansiosa, mas também paciente, para escrever à frente do meu nome, e do nome de todos os vivos, essa segunda data, esse segundo número. A natureza tem horror ao vazio e depois do traço da data de nascimento há um espaço enormemente vazio e natural.”

Por enquanto quero continuar a dizer, como o poeta: “estou vivo e escrevo sol”. Aqui ficam algumas razões (as menos íntimas) para este retiro prolongado e tão enrodilhado em silêncio, um silêncio que nem sequer pingou ou se derramou como os conhecidos relógios de Dali:

Não faz o meu estilo frequentar com assiduidade um espaço no qual pouco ou nada se debate e onde muito se insulta. Onde deambulam o narcisismo exibicionista (que apenas os vendedores de espelhos agradecem), os caçadores furtivos de opiniões divergentes e as falazes aparências. Escasseia a pachorra para os pregoeiros de trivialidades, para alguns textos virtuais, mas tão pouco virtuosos. Basta de digitalizar a saudade, em vez de a exercitar com os amigos em redor da mesa fraterna. Sem tempo para os moralistas descabelados, para os pelotões de execução da liberdade dos outros, para os que antecipam o cinzentismo das ideias ao grisalho dos cabelos.

Sinto fascínio pela diferença e aprecio o debate de ideias, porque o que nos enriquece é a parcela de verdade que também existe nos outros. Disse um dia Picasso: “se apenas houvesse uma única verdade, não poderiam pintar-se cem telas sobre o mesmo tema”. O problema é que há sempre quem não mereça a honra de uma boa polémica, quem não seja capaz de discutir ideias, sobretudo porque as não tem.

Quando tropeçamos com gente desta, tentar discutir ideias é como aceitar jogar xadrez com um pombo: ele pousa, derruba as peças (argumentos), agita as asas da falácia, caga no tabuleiro e levanta voo, a cantar vitória. A abertura mental para o diálogo tende a encurtar à medida que o ódio vai invadindo a caixa craniana E daí às provocações vai um passo muito curto, ou não fossem elas o biombo da ignorância. Como não pensamos todos da mesma maneira, o entendimento só é possível sem ódio e se formos capazes de exercitar a tolerância.

Fica aqui exarado: as polémicas estéreis, as baixas intrigas e a torpe calúnia – tão inúteis, mas tão portuguesas! – ficam para quem nelas se compraz. Nada de gastar cera com tão ruins defuntos, sobretudo os de perfis falsos, com os quais somos arrastados para os combates de lama em que tanto gostam de chafurdar. Quem desconhece um princípio básico de carpintaria, que consiste em saber usar o nível, só pode exibir como resultado o bilhete de identidade da sua própria incompetência.

Apesar de tudo isto (e isto não é tudo!) prometo voltar. Enquanto, é claro, o espaço vazio colocado à direita do traço que o separa da data de nascimento não for preenchido (quem me dera, quando tal acontecer, que o desenlace possa ser atribuído a uma muito improvável síncope de felicidade). Um regresso sem regularidades cronometradas. Os gritos de alma, as confissões ou opiniões sobre o que quer que seja, não têm de acontecer a horas certas nem em dias previamente assinalados no calendário.

Do que se trata, afinal, é de recusar a ideia de que a vida se espraia à nossa frente com a pontualidade cronometrada de um relógio de cuco. A nossa vida não é nada disso: tem intermitências, altos e baixos, picos de ansiedade, planícies de acalmia. Pode ser inesperada e incerta, contraditória. Ora navega em regatos mansos, ora irrompe, tumultuosa, em golfadas de paixão ou desespero.

Valorizar a lentidão parece ser cada vez mais condição de qualidade naquilo que produzimos. Pensar e reflectir são coisas que requerem um processo mental lento. Regressar à lentidão é recusar o estado doentio de hiperactividade do tempo presente, de uma velocidade a qualquer preço imposta pelas novas tecnologias. As coisas passam ao nosso lado sem as experienciarmos, sem as habitarmos. É tempo, pois, de iniciar o combate ao “demónio” da velocidade.

É assim que quero continuar por aqui. Sem pressas aturdidas. Sem submissão aos comités de vigilância dos bons costumes, recusando o aplauso das carpideiras do moralismo de vão de escada. Apenas a perfilar e a alinhavar palavras que não atraiçoem o pensamento. Palavras simples, mas honradas.

Boas Festas para os meus amigos.

Boas Festas e … comam chocolates!

Não, não sou como o Barnabé, que tem qualquer coisa que o torna diferente dos outros.  Sim, como tantos outros, também escrevi sobre a imagem de João Rendeiro em pijama, por entender que não há verdadeira liberdade sem uma esfera de intimidade que proteja os cidadãos das interferências abusivas do Estado, dos meios de comunicação social ou de outros poderes instituídos. Escrevi, mas não publiquei. Não quis oferecer aos meus amigos um presente de Natal com sabor a tabaco mascado por muitas bocas. No essencial, o texto não difere muito destes “Sinais” de Fernando Alves que ecoaram na TSF, na manhã do dia 13 de Dezembro:

“Não quero ver um homem de pijama, ainda que seja um canalha,
se isso significar que o estarei a ver de pijama contra a sua vontade.
Não quero ver um homem de pijama contra a sua vontade, ainda que seja um canalha”.

Neste Natal, troco de bom grado o pijama de Rendeiro por chocolates. E sinto-me bem acompanhado: no poema “Tabacaria”, Álvaro de Campos não deixa de propor isso mesmo: Come chocolates, pequena / Come chocolates!

Sigamos os conselhos do poeta, que – ironia das ironias – também viveu em Durban durante nove anos da sua infância. Quanto a João Rendeiro, começou por sucumbir aos encantos da estética, ao ponto de ludibriar o próprio Estado para salvar as pinturas verdadeiras, trocando-as por quadros falsos (e já que estamos a falar de arte, convém separar o critério artístico do critério moral). A seguir rumou a Durban, local que viria a transformar-se em refúgio de perdição. Escapou-lhe este pequeno pormenor, a provar que o diabo, às vezes, está nos detalhes: o poeta dos heterónimos continua vivo. E sendo ao mesmo tempo uno e múltiplo, desdobrando-se em várias personalidades, pode muito bem tê-lo topado numa esquina e alertado as autoridades.

O presente que aqui vos deixo tem a ver com chocolates, mas não foi confecionado por mim. Comam chocolates à vontade, sem recear a diabetes, embora não possa afiançar, com segurança, que Deus aprova ou desaprova tão pecaminosa gulodice. Em verdade vos digo: a diabetes até pode funcionar como diploma de estatuto social. Ora leiam esta passagem do livro Mandriões no Vale Fértil, de Albert Cossery, onde uma alcoviteira tenta convencer a família de uma rapariga de 16 anos a deixá-la casar com o velho Hafez, que exibia no currículo, para lá da idade avançada, também uma hérnia de dimensões consideráveis, e ainda… diabetes que não tinha:

“Estavam hesitantes. Mas eu, para os convencer, segredei-lhes por fim que tens diabetes.
– E eles, que te disseram eles? interrogou o velho Hafez, sem se ofender com a doença que tão generosamente lhe era imputada.
– Primeiro ficaram de cara a brilhar, depois sorriram e disseram-me: “Se é verdade o que dizes, então é porque é mesmo um homem muito abastado”. Respondi-lhes: “Viram vocês alguma vez pedintes com diabetes? Caramba! De que mais precisam?” E ficaram logo concordantes.”

Vamos então à prenda para os meus amigos. É um texto de Eduardo Cintra Torres, que saiu no Público, edição de 15 de Fevereiro de 1999. Tem por título “O Ambrósio também é maroto” e fala de chocolates, claro. Um dos melhores textos que li, sobre um dos melhores anúncios publicitários que conheço. Um anúncio que se repete todos os anos, publicidade omnipresente nesta altura do Natal. A análise do anúncio é primorosa, suportada por uma irrepreensível utilização da semiótica, um saber antigo que tem a ver com os modos como o homem significa tudo aquilo que o rodeia. Há muitas leituras possíveis para a postura discreta e eficiente do motorista Ambrósio (um nome que remete para o mito do mel de ambrósia, alimento dos deuses gregos, que ao ser ingerido era garante de imortalidade). Assim como há muitas leituras possíveis para o “apetecia-me tomar algo” balbuciado pela suposta proprietária balzaquiana do luxuoso carro que Ambrósio conduz. Algo que pertence ao domínio do não dito, mas que está implícito. Algo polissémico e ambíguo, uma qualquer pulsão que a senhora parece desconhecer (ou não quer dar objectivamente a conhecer) e que o imaginário de cada um de nós gosta de adivinhar. Aqui fica o texto:

“Num artigo sobre televisão, António Pinto Leite debruçou-se sobre a publicidade erótica que viu nos intermináveis intervalos dum filme de violência gratuita passado na SIC: “Margarinas, carros, champôs, perfumes, bilhas de gás, tudo se vende com mulheres nuas.” E acrescentava o meu amigo e articulista do “Expresso” (“Revista”, 05.12.98): “Qualquer dia, esse paradigma da moral que é o anúncio da Ferrero Rocher, onde há uma senhora decente no banco de trás de um carro, ainda acaba com o Ambrósio desgrenhado.»

Ó António, então tu não percebeste que esse anúncio da Ferrero Rocher é o mais erótico de todos os que passam na televisão?! Que entre o Ambrósio e a “senhora decente” se adivinha uma pulsão secreta? Eu sei que os outros anúncios são mais, ou muito, explícitos, vêem-se corpos, gestos de carícias e mesmo alguma actividade sexual propriamente dita. Mas, afinal, mostram muito e não “prometem” nada. Ao contrário, o Ambrósio todo fardado, de chapéu e tudo, e a senhora toda decentemente vestida, de chapéu e tudo, intrinsecamente balzaquiana, são um universo de promessas que o espectador subentende.

Olhemos o espaço que eles ocupam: móvel, porque é um automóvel, e em andamento; imóvel, porque eles quase não se mexem, deixando para os diálogos e os minúsculos, subtis movimentos do corpo toda a explosão de significados que outros, noutros anúncios, precisam de mostrar com ginásticas esforçadas de corpos contorcionistas. E o que significa este espaço? O carro é um espaço de evasão do lar; um espaço de liberdade adentro do qual se passam muito coisas! O cinema, a televisão e a publicidade não só aproveitam a imagem “viril” do automóvel, mas muito em especial essa simbologia de lugar de libertação dos constrangimentos dos lugares habituais do quotidiano. Eu lembro-me de ver, naquele cinema de zinco sobre areia na Praia das Maçãs, o “Rolls Royce Amarelo”, filme de Anthony Asquith (GB, 1964), com Jeanne Moreau, Ingrid Bergman, Shirley McLaine, Alain Delon e Omar Shariff. As coisas que, dono após dono, aquele Rolls Royce não viu (e nós também!). Não será este anúncio um remake? A “senhora decente” e o Ambrósio estão igualmente adentro dum Rolls Royce — e o Ambrósio não é o marido ou o noivo, nem sequer o irmão mais velho. Já temos espaço e personagens, agora vamos à estória. A “senhora decente” diz: “Ambrósio, apetecia-me tomar algo”. Repare-se: ela tem um apetite que partilha com o motorista do seu Rolls! Será por ter assumido a democracia nas relações sociais com os seus servidores? Ela tem de facto um ar de balzaquiana “decente”, mas não tanto. E mais: ela diz que lhe apetece “algo”. Ora este “algo” é mais do que “uma coisa qualquer”. Ela quer “algo” e o motorista, com impecável elegância e profissionalismo, pergunta: “paramos para a senhora tomar alguma coisa?”. O tom e a cara do Ambrósio denotam, todavia, que ele sabe antecipadamente a resposta: ele sabe que a senhora não quer sair do carro, ele sabe muito bem o que a senhora quer! E é isso que a resposta confirma: “Não, o que eu queria era algo… Bom?” A “senhora decente” continua a desejar “algo” que não diz (e porque não diz? por vergonha? porque há coisas que se querem e não se dizem?) E ela quer algo “bom” – que não chega a explicar pois o Ambrósio, que, entretanto, trocara olhares com a senhora pelo espelho retrovisor e mostrara adivinhar o que ela não consegue exprimir em palavras, diz enigmaticamente: “compreendo, senhora”. Como o Ambrósio compreende os desejos reprimidos da senhora!

Nessa altura, a “senhora decente” assume o desejo e abre-se ao motorista: “Apetecia-me Ferrero Rocher”. Respeitou-se o relacionamento entre as classes sociais: foi a “senhora decente” que tomou a iniciativa. Estabelecida a insinuação, criado em nós o desejo de saber qual o desejo secreto da senhora, eis que o “algo”, o nome da coisa, já pode ser dito: Ferrero Rocher! E que nome! Formado por duas palavras, cada qual duma libidinosa língua latina: o italiano e o francês!

Mas o anúncio, que podia bem terminar aqui, quando a senhora “se abre ” ao motorista dizendo o que realmente quer, o anúncio tem ainda uma longa estória para contar: confirma-se que o Ambrósio já sabia antecipadamente o que a senhora desejava! Diz ele: “Tomei a liberdade de pensar nisso, senhora!” Mas que motorista espectacular! E, “tomando a liberdade” de adivinhar o desejo íntimo da senhora, o Ambrósio abre, desvenda, mostra o objecto do desejo: brilhando como barras de ouro, as bolas de Ferrero Rocher surgem de dentro do carro quando o Ambrósio acciona uma porta secreta, como nas Mil e Uma Noites. Abre-te, Sésamo!

“Oh, Bravo, Ambrósio!”, diz a “senhora decente”, que não cabe em si de contente e que já quase não controla os seus actos: pela primeira e única vez, dá-se o contacto físico entre os dois. A senhora decente toca ao de leve com a mão direita no ombro protector do motorista e leva um Ferrero Rocher à boca, consumando o desejo. Tudo é sugerido, até, digo eu, a sugestão felaciana implícita nas sílabas e vogais abertas na frase “Oh, bravo Ambrósio!” (duas vezes br, duas vezes ó, etc: quase uma onomatopeia!)

O novo Ambrósio e a nova Senhora da Ferrero Rocher

Extraordinário anúncio este, onde nada há de explícito, onde tudo é elegante. Mas, ao invés do que sucede em três dos spots que referes (Peugeot 106, água-de-colónia Calvin Klein e o “perfume macho” Denim), neste há contacto físico. Os jovens do Peugeot despem-se (ó António, nem sequer se vê nada) mas não se tocam, enquanto aqui a “senhora decente” toca no Ambrósio! Claro que não toca de qualquer maneira, até porque, diz a voz “off”, Ferrero Rocher “satisfaz o desejo de requinte”. O anúncio, que começara com o Rolls vindo em nossa direcção e passara depois para os interiores secretos do automóvel de luxo, termina com o Rolls afastando-se de nós depois de partilhar um dos seus mais íntimos segredos. As coisas que se passam no interior dum carro! Tu bem o adivinhas quando escreves que a “senhora decente” está “no banco de trás dum carro”: a separação do banco da frente não a impede de trocar olhares com o Ambrósio, de lhe tocar. Dizes que o filme que a SIC ia passando no meio dos intervalos era “ideal para ver sem ver”. Mas, se me estiveres a seguir, não poderás reencontrar o maroto do Ambrósio no ecrã sem pensar que aquele anúncio, além de ser para ver, também é para ler. Com prazer.”

 

 

Aristides de Sousa Mendes: um católico, monárquico, conservador, no Estado Novo

“Mesmo que me destituam, só posso agir como cristão, como me dita a minha consciência; se estou a desobedecer a ordens, prefiro estar com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus.”
– Aristides Sousa Mendes
“O Eterno (…) guiar-me-á nas veredas da justiça por amor do Seu Nome”
– Salmo de David sobre os justos

A recente consagração da memória de Aristides de Sousa Mendes no Panteão Nacional está longe de ser consensual. Uns aplaudem, outros aproveitam para achincalhar o diplomata, vincando a desobediência a Salazar e, pior do que isso, agravando a sua memória, ao insinuarem que terá passado vistos a troco de quantias avultadas. Digo insinuarem, porque nunca provaram nada. A esses – os mesmos que têm a lata de dizer que os judeus não corriam perigo de vida… – convém lembrar que é importante fundamentar a preferência que atribuímos a uma interpretação, relativamente a outras possíveis, pois a sua veracidade comprova-se com a dificuldade em e refutar.

Casa do Passal (Cabanas de Viriato)

Carreguemos nos pedais da memória.  Cavaco Silva recusou apoio governamental à recuperação da Casa do Passal porque o cônsul… desobedeceu! Abel Matos Santos, na altura vogal da comissão executiva do CDS-PP, entre referências elogiosas a Salazar, apelidou o cônsul de Portugal em Bordéus de ser “agiota dos judeus”, apesar de ele não ter salvo apenas judeus (entre muitos outros vistos, passados a refugiados não judeus, contam-se a família real Habsburgo, membros da família banqueira Rothschild e todo o governo belga no exílio). Mais não fez este cruzado democrata-cristão que dar voz a uma visão alternativa da História propagandeada pelos nostálgicos da velha portugalidade, que sustentam ter o cônsul passado vistos aos judeus a troco de dinheiro e o consideram um “traidor”, por ter quebrado a neutralidade imposta por Salazar ao seu corpo diplomático, equilibrando poderes entre sectores pró-germânicos e pró-britânicos da sua governação.

Nesta visão alternativa da História invocam-se, amiúde, pormenores irrelevantes – tão ao gosto das biografias de cariz positivista – manobras de diversão que apenas servem para deslocar o eixo central daquilo que é essencial num debate desta natureza. Dou apenas um exemplo desse tipo de manobras: alguém que convoca o avô materno, supostamente frequentador do palacete de Sousa Mendes na Casa do Passal, em Cabanas de Viriato, para dizer que a cidadã francesa com quem o cônsul casara em segundas núpcias, “após haver isolado seu marido da parentela que tinha na aldeia, trilhava-lhe os dedos nas portas de pau da casa, para o pressionar a vender as terras e os bens móveis do palacete e enviar o dinheiro para França”.[1] Como era de esperar, este tipo de argumentação – conhecido como falácia de relevância, uma vez que não acrescenta nada de essencial ao que se está a discutir – só podia ser rebatido no campo da ironia: “Coitado do homem que teve a coragem de salvar milhares de Judeus e, depois, foi tão despoticamente dominado à força de braços pela esposa!”.[2]

Do que li e do que sei em relação ao processo que lhe foi movido por ter salvo judeus sem a autorização de Salazar, recusando-se a cumprir a tristemente célebre “Circular 14”, que impunha que os vistos portugueses aos refugiados de guerra fossem suspensos, retenho o seguinte:

Salazar não perdoava aos que desafiavam a sua autoridade. Os vistos não eram legais? Claro que não! Mas será que devemos cumprir leis que em contextos específicos atentam contra princípios fundamentais da dignidade humana? Perante a situação trágica de seres humanos perseguidos como cães raivosos, só os burocratas da submissão cega a todas as ordens e hierarquias, a impressos e formulários, se predispõem à aplicação rigorosa e estrita de uma lei que, ao condenar cidadãos à morte, passa a ser vista como iníqua. O que choca, nisto tudo, é a vingança mesquinha como resposta à nobreza de gestos que salvaram a vida a tantos seres humanos. Como dizia Camus: uma vida nada vale, mas nada vale uma vida.

O intemerato cônsul não desconhecia os riscos que corria. Segundo depoimento do filho Sebastião Mendes, terá dito, na presença da mulher e dos filhos: “Não sei o que é que o futuro reserva para vossa mãe, para vocês e para mim mesmo. Materialmente, a vida não será tão boa para nós como tem sido até agora. Contudo, sejamos corajosos e tenhamos em mente que, ao dar a esses refugiados a possibilidade de viverem, teremos uma possibilidade mais de entrar no Reino dos Céus, porque, ao fazê-lo, não faremos mais do que praticar os mandamentos de Deus”.[3]

O drama económico que se abateu sobre Sousa Mendes (com 12 filhos vivos quando lhe foi reduzido o vencimento) nem é a questão central. Central é saber que o processo disciplinar não passou de uma farsa. Dois dias antes de ter mandado instaurar o processo disciplinar, Salazar envia telegrama a Armindo Monteiro onde diz o seguinte: “Vistos concedidos em Bordéus foram-no, em contravenção de instruções expressas do Ministério por cônsul que já afastei do serviço”.[4] Como se vê, primeiro a sentença, depois o julgamento. O processo disciplinar funcionou como mera formalidade administrativa, escamoteando o essencial de qualquer processo: apurar a verdade. Mas há mais. Pedro Tovar de Lemos[5] era o relator do processo, nomeado por Salazar. E era, também, membro do Conselho Disciplinar que julgava todos os processos. Portanto Tovar era, ao mesmo tempo – pasme-se! – acusador e juiz.

Muito mais haveria a dizer sobre o cinismo do regime e a hipocrisia de Salazar – “um indivíduo insuportável”, assim o classificou Churchill em 1943 – neste processo: depois de fazer o que fez a Sousa Mendes, não deixou de enviar um cartão de condolências à família, aquando do seu passamento. Nada de estranhar, se tivermos em conta que, apesar de fazer constar que tudo sacrificava à política de neutralidade perante a guerra, não hesitou – quando Hitler se suicida, em 30 de Abril de 1945 – em enviar telegramas de condolências e mandar colocar em Lisboa as bandeiras a meia-haste, durante dois dias. O cinismo não acaba aqui. Alguns dias depois, Salazar desabafa, em plena Assembleia Nacional: “Bendigamos a paz. Bendigamos a vitória”[6] (dos aliados, contra o nazismo, entenda-se).

A tragédia que se abateu sobre o nosso cônsul em Bordéus é um dos muitos exemplos paradigmáticos da desonestidade histórica do regime. Dito isto, o que interessa reter é se valorizamos mais a obediência cega às leis ou o sentido profundamente humano da desobediência do nosso cônsul em Bordéus, ao recusar ser cúmplice dos crimes de guerra nazis. E aqui não pode haver meias-tintas. O ditame da consciência, em casos de vida ou de morte, pode e deve sobrepor-se ao dever da disciplina.

Manda a verdade dizer, também, o seguinte: quanto à política de refugiados, Salazar foi evoluindo ao longo dos anos. Ao contrário do que sucedeu durante a Guerra Civil de Espanha (1936-1939), no decurso da II Guerra Mundial Portugal acolheu-os e não os recambiou ou entregou aos seus perseguidores. O nosso país serviu-lhes de porto e abriu-lhes as portas da esperança, apesar do acolhimento ser muito restritivo. Aos judeus chegados a Portugal, por exemplo, só eram emitidos documentos de trânsito de curta duração, rumando depois a outras paragens, como Estados Unidos e Brasil.

No início, Salazar mostrou-se relutante a esse acolhimento. Via nos refugiados um sério problema de Estado: ou porque os países a que pertenciam o colocavam sobre forte pressão, ou com receio de que esse acolhimento pudesse ser visto como um sinal inequívoco do posicionamento de Portugal no conflito. Percebe-se o incómodo, se tivermos em conta a sua tão apregoada – mas nem sempre cumprida – política de neutralidade. Quando a guerra começa a inclinar-se para o lado dos “aliados” então sim, Salazar (que na ânsia de controlo absoluto do poder chegou a acumular as funções de Presidente do Conselho de Ministros com as dos ministérios das Finanças, da Guerra e dos Negócios Estrangeiros) deixa de admoestar os diplomatas rebeldes e facilita a concessão de vistos.

Em 1943 a sorte da guerra começa a mudar, com a derrota do exército alemão em Estalinegrado. E em 1944, com a cada vez mais anunciada derrota do eixo Berlim-Roma, Salazar já não reúne condições para perseguir Sampaio Garrido como o fez em 1940 com Aristides Sousa Mendes. Assim se entendem as instruções que dá em 1944 à legação em Budapeste, para “proceder à semelhança do ministro (embaixador) da Suécia” no salvamento de judeus, acentuando mesmo que “deve ser feito esforço no sentido de salvar o maior número possível de refugiados”.[7]

Uma palavra final para outros dois portugueses em funções diplomáticas durante a II Grande Guerra (1939-1945). O ministro plenipotenciário Sampaio Garrido (com funções de embaixador) e Carlos Branquinho (encarregado de negócios na Hungria), sobre os quais pesa ainda hoje um silêncio injusto. Ambos foram responsáveis, em 1944, pela embaixada portuguesa em Budapeste. Foi aí que concederam vistos, passaportes provisórios e asilo diplomático a um número indeterminado de judeus húngaros, que rondaria os 1000.

Tal como Aristides Sousa Mendes, também eles escancararam as portas da liberdade a muita gente ameaçada pelo regime nazi. Eram, diga-se, tal como o cônsul em Bordéus, homens integrados no Estado Novo, personalidades de destaque da União Nacional, monárquicos convictos e admiradores confessos de Salazar. Também o republicano Veiga Simões, ministro dos Negócios Estrangeiros em 1921 e chefe da Legação de Portugal na Alemanha em 1933, que Salazar mandou colocar na disponibilidade, teve acção meritória no apoio aos judeus perseguidos pelo nazismo, como o comprovam os diferentes relatórios que dirigiu ao então Presidente do Conselho de Ministros.[8]

Embora estejamos a falar de situações distintas (os vistos de Sousa Mendes irritavam muito mais o poder do que os “passaportes provisórios” de Garrido e Branquinho), todos estes nomes representam casos exemplares e por isso merecedores do respeito público. E já agora acrescento um outro, que nada tem a ver com diplomacia em tempos de Holocausto. Refiro-me ao general Vassalo e Silva, irmão da escritora Maria Lamas e último governador-geral da Índia.

Também ele não acatou a ordem de Salazar – que preferia heróis mortos a prisioneiros vivos – para resistir até à morte do último soldado. O lema era: “Resistir até ao fim, até ao limite das nossas forças”. Apesar de conhecer a enorme desproporção de militares no terreno – pouco mais de 3 000 portugueses para fazer frente a 30 000 da União Indiana, apoiados por aviões, artilharia pesada, blindados e bases navais – Salazar apelava ao “sacrifício total”. Vassalo e Silva percebeu que esse “sacrifício total” redundaria numa tragédia, que resistir seria auto-imolarem-se e, tal como Sousa Mendes, desobedeceu. Assinou o termo de rendição às forças indianas, o qual lhe permitia trazer para casa, sãos e salvos, os homens que comandava. À rendição seguiu-se quase meio ano de cativeiro, com Vassalo e Silva a fazer questão de ser libertado apenas depois de todos os outros militares sob o seu comando.

Como era de prever, foi acusado de “traidor” assim que chegou ao aeroporto de Lisboa, foi banido do Exército e ficou impedido de trabalhar em cargos públicos, passando a ser vilipendiado pelos serventuários do regime. Também os militares que comandou foram enxovalhados no regresso a Portugal. Muitos acabaram expulsos das Forças Armadas. Outros foram recambiados para os teatros de guerra mais perigosos do continente africano.

Em 17 de Dezembro de 1961 Portugal começava a perder a sua “jóia da Coroa”. E também começava, territorialmente, a encolher (tinha perdido o minúsculo enclave de S. João Baptista de Ajudá em Julho do mesmo ano). Nessa noite de 17 de Dezembro, Sophia de Mello Breyner gizava um poema para sempre interrompido pela notícia da entrada dos soldados indianos em Goa, que pôs fim a uma presença portuguesa com mais de quatro séculos:

PRANTO PELO INFANTE D. PEDRO DAS SETE PARTIDAS[9]

Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte

Placa num passeio (Viena de Áustria)

Regressemos a Aristides de Sousa Mendes, para dizer que nunca saberemos ao certo quantas pessoas salvou. A urgência da fuga (a desobediência a Salazar começou em Maio de 1940, Paris capitulara a 14 de Junho e as tropas alemãs chegam a Bordéus a 27 desse mês) levou-o o a desprezar a anotação e o registo de muitos nomes, ganhando tempo precioso para a prioritária emissão de vistos. O que sabemos é que ele e os outros diplomatas aqui citados eram profundamente católicos, pelo que se lhes aplica na perfeição estas palavras de Anabela Mota Ribeiro a propósito de um avião da TAP que ostenta o nome do cônsul em Bordéus: “assim que puder, ando nele e volto a pensar em anjos que fazem da Humanidade um lugar melhor”.

Não podemos deixar de admirar estes homens raros, que fizeram no momento certo o que devia ser feito. Só os grandes homens são capazes de arriscar a carreira e às vezes a própria vida, ao colocarem a vida dos outros acima da sua. Tal como a fé ou a crença, também a bondade e a nobreza de carácter que ajudam a salvar vidas humanas não são apanágio da esquerda ou da direita política. Evitemos, pois, a agressividade (inútil, mas tão portuguesa!), o fanatismo ideológico, os rótulos políticos apressados, o espírito de vingança.

A conduta exemplar destes diplomatas do Estado Novo, bem como a do general Vassalo e Silva no caso de Goa – homens que em circunstâncias excepcionais responderam de forma excepcional – mostra bem como algumas facetas humanas não são um feudo de ninguém, pois transcendem as ideologias.


[1] Eduardo Proença-Mamede, “À volta da figura de Salazar”, Jornal da Bairrada, n.º 1491, 12.08.1999, p. 16.

[2] Paulo Carvalho, “A ganga e o ouro”, Jornal da Bairrada, 09.09.1999, p. 15.

[3] Rui Afonso, Um Homem Bom. Aristides de Sousa Mendes, o Wallenberg Português”, Lisboa, Editorial Caminho, 1995, p. 100.

[4] Rui Afonso, Injustiça. O caso Sousa Mendes, p. 158.

[5] Pedro Tovar de Lemos (1888-1961), pró-germânico assumido, substituiu no cargo Veiga Simões, ministro dos Negócios Estrangeiros em 1921, chefe da Legação de Portugal na Alemanha em 1933. Era um crítico declarado do regime alemão, que Salazar mandou colocar na disponibilidade. Veiga Simões também teve acção meritória no apoio aos judeus perseguidos pelo nazismo, como o comprovam os diferentes relatórios que dirigiu a Salazar.

[6] José-Alain Fralon, Aristides de Sousa Mendes. Um Herói Português, Editorial Presença, 1999, p. 91.

[7] Ver Carlos Albino, “Diplomatas salvaram 250 mil”, Diário de Notícias, 03.04.2000, p. 21.

[8] Ver Avraham Milgram, “Potencial de salvação”, revista História, n.º 15, Junho de 1999.,

[9] Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, Editorial caminho, 2003, p. 58.

Queira vender-me a sua lucidez , s.f.f.!

Ilustração: André Boligan

Com este título, escreve o meu amigo Paulo de Carvalho:

“Nuno Severiano Teixeira, na Antena 1,
sobre o facto de à direita haver, agora,
mais dois partidos bem distintos do CDS:
“O CDS tem de perceber que há mais dois
na disputa do mercado eleitoral.”
Portanto, a ver se percebi bem…
Os políticos são empresários,
os partidos, empresas,
os cidadãos, oportunidades financeiras.
Competitividade, em lugar de representatividade.
Nada de debate de ideias sobre a melhor forma
de conduzir um país, apenas um produto atractivo,
capaz de converter o eleitor em consumidor.
Convenhamos que é um passo adiante
àquele que já há muito se deu,
quando em campanhas eleitorais
se quer fisgar a ignorância do cidadão
de preferência à sua competência crítica.
É de aplaudir o inovador!
Burros, com antolhos, que comam a palha
que o mais esperto lhes ponha à frente,
assim nos querem certos políticos.
Escrevi lucidez no título. É condição de, a lucidez.
Deveria ter escrito liberdade.
Pois é a liberdade que nos querem comprar,
quando o pensamento político se converte
em linguajar de empreendedor…””

Agora digo eu:

Ilustração: Gerhard Haderer

É exactamente este o deplorável “estado da arte” política que o Paulo descreve. Só falta, mesmo, apropriarem-se da nossa lucidez, alienarem a nossa liberdade. Parecem preferir súbditos de mente aprisionada, treinados para a obediência, a cidadãos livres e actuantes. Querem-nos medíocres e desprovidos de imaginação, para assim criarem uma vasta área de mercado onde possam babar-se (sem receio de virem a ser penalizados) da sua própria mediocridade.

Quero crer que os meios de comunicação social – com os diferentes canais de televisão à cabeça – têm grande responsabilidade neste estado de coisas: bombardeiam-nos com quase-notícias e não-notícias, com a repetição indecorosa de imagens até à náusea, com directos imprevistos de tudo quanto seja pontapé na bola, com rodapés salpicados de frivolidade, com enlatados de gosto duvidoso, com debates agressivos onde se interrompe de forma sistemática o oponente (o que transforma qualquer debate de ideias num improvável circo romano), com factos banais transformados em “acontecimentos históricos”. A competição entre canais privilegia a divulgação do escândalo. Quanto mais escândalo, mais sucesso comercial. Parece haver de tudo, nesta sementeira do mal. Mas falta qualquer coisa, para a qual o texto do Paulo exemplarmente remete: uma verdadeira ética dos cuidados.

Contra este insulto à inteligência, recordo alguns avisos já divulgados em livro. Um, mais antigo, de 1995, é de Karl Popper e John Condry e chama-se “Televisão: um perigo para a democracia”. Diz Popper: “a democracia não pode subsistir de uma forma duradoura enquanto o poder da televisão não for totalmente esclarecido”. Resta saber se quem detém o poder não deixa degradar de forma deliberada a qualidade da televisão, para melhor a controlar. O outro livro é de Pierre Bourdieu, “Sobre a Televisão”, e nele se pode ler que a televisão “faz correr um perigo muito grande às diferentes esferas da produção cultural” e “faz correr um não menor risco à vida política e à democracia”. Estou em crer que se estes textos-tese fossem lidos e seguidos como merecem, talvez desse húmus cultural pudessem brotar as raízes de um futuro mais inteligente, mais humano e solidário.

Infelizmente, e descontando o teórico da “sociedade aberta”, o liberal Popper, citar alguns textos avisados de Bourdieu, nos tempos que correm, significa correr o sério risco de virmos a ser acusados de “marxismo cultural” pelos cultores da dialéctica rasteira do pró e do contra, que seguramente nunca leram “O Poder Simbólico” e pouco ou nada sabem da teoria do campo de forças na sociologia e dos agentes (refiro-me ao poder político, seja ele de esquerda ou de direita) sempre predispostos a dominá-lo em seu proveito. O que pessoas desse calibre secretamente desejam, para entretenimento das massas, é que mil televisões privadas floresçam, em nome do seu muito peculiar conceito de liberdade, de concorrência, de crença inabalável nas virtudes do capital e do deus-mercado. Querem lá saber das preocupações de Popper ou Bourdieu!… Ao triunfo da cultura e dos padrões de decência preferem os picos de audiência nos reality-shows, à potência do acto criativo preferem a evasão e o adormecimento dos espectadores alienados e subsumidos no homem-massa.

Contra este lodaçal, este vale tudo mediático, contra os pugilistas da palavra manietados nas suas certezas de granito, contra esta peixeirada que nos dá o circo em vez da tribuna honrada, apetece arremessar a lúcida frase de Antoni Tàpies, retirada de “A Prática da Arte”, p. 59:

“Não facilitando verdadeiramente a difusão e o ensino da autêntica cultura formativa, e continuando com a ideia hipócrita de que convém dar o que o vulgo pede, nunca se formará, naturalmente, a sensibilidade necessária”.

Caro Paulo: para terminar, e já que este texto gira em torno dos malefícios da televisão, a melhor forma que encontrei para te agradecer tanta (e tão necessária!) lucidez é, para lá do abraço grande de inteira amizade, este “Ensaio sobre o quotidiano”, de Luis Filipe Castro Mendes, inserido em “A Misericórdia dos Mercados“, p. 24:

O quotidiano não cega:
Nós é que estamos distraídos.
Não pensamos, ouvimos falar na televisão
Pessoas que pensam que estão a pensar
E assim ganham a sua vida.
Dói-nos a vida, mas dizem-nos que merecemos,
Porque pensámos em viver do mesmo modo
Que as pessoas que pensam que estão a pensar
E falam na televisão.
Agora as pessoas que pensam que estão a pensar
E ganham a vida na televisão
Dizem-nos que perdemos a nossa
E é bem feito
E ainda devia doer mais!

O quotidiano não cega: nós
É que estamos distraídos.

Sondagens e qualidade da democracia

Temos hoje empresas de sondagens que se mostram mais falíveis que as pitonisas, adivinhos e oráculos da mitologia antiga. Assim acertassem nelas com a mesma precisão com que Tirésias, o profeta cego, acertou ao predizer que Édipo assumiria o trono de Tebas e tomaria a mão de Jocasta.

Quando pedimos uma garrafa de vinho e o conteúdo não corresponde ao rótulo, é costume dizer-se que estão a vender-nos gato por lebre. O mesmo se passa com as sondagens e com quem as paga e se vê a braços com uma autêntica zurrapa informativa. As sondagens divulgadas nos últimos dois meses eram praticamente unânimes: Medina ganhava folgadamente a Moedas. Sondagens e comentários baseados em sondagens, das quais só os ingénuos pensam que o marketing político está ausente.

Só que… sentado em frente da televisão para escutar as primeiras projecções, assim que ouvi falar em empate técnico, pensei para com os meus botões: Carlos Moedas já ganhou. Depois, já passava das duas da matina, viria a confirmação desse triunfo em que muito poucos acreditavam. Quem o anunciou foi António Costa, ao resolver falar antes de Rui Rio.

Depois de tamanho descalabro profético, importa perguntar, tendo presente o elevado nível de abstenção que muitos se esforçam por branquear: até que ponto estas sondagens não são responsáveis por milhares de potenciais votantes não se terem deslocado às mesas de voto? Uns, (apoiantes de Carlos Moedas), porque se convenceram que a eleição estava irremediavelmente perdida; outros, (simpatizantes de Fernando Medina), por entenderem que a eleição estava no papo, que eram favas contadas. Se as sondagens se tivessem aproximado mais dos resultados que hoje conhecemos, que poderia ter acontecido: uma votação mais expressiva em Medina, ou ainda mais expressiva em Moedas?

Eis as perguntas de quem duvida, por estar sinceramente convencido que o caminho de resgate passa pela interrogação em busca de possíveis certezas e não de mitos. De duas uma: ou os portugueses são exímios na arte de dissimulação do voto, sempre que questionados em quem tencionam votar; ou, hipótese também a ter em conta, há incompetência manifesta na forma como os responsáveis pelas sondagens seleccionam os eleitores de uma amostra que se pretende fiável e representativa.

No actual estado comatoso em que se encontram, as sondagens parecem representar mais um perigo do que um benefício para a qualidade da nossa democracia. As coisas só podem piorar  quando alguns papagaios do pluralismo se servem delas como alguém que, depois de emborcar uns tintos em demasia, se encosta aos candeeiros públicos: mais para conseguir amparo do que para se deixar iluminar.