Boas Festas e … comam chocolates!

Não, não sou como o Barnabé, que tem qualquer coisa que o torna diferente dos outros.  Sim, como tantos outros, também escrevi sobre a imagem de João Rendeiro em pijama, por entender que não há verdadeira liberdade sem uma esfera de intimidade que proteja os cidadãos das interferências abusivas do Estado, dos meios de comunicação social ou de outros poderes instituídos. Escrevi, mas não publiquei. Não quis oferecer aos meus amigos um presente de Natal com sabor a tabaco mascado por muitas bocas. No essencial, o texto não difere muito destes “Sinais” de Fernando Alves que ecoaram na TSF, na manhã do dia 13 de Dezembro:

“Não quero ver um homem de pijama, ainda que seja um canalha,
se isso significar que o estarei a ver de pijama contra a sua vontade.
Não quero ver um homem de pijama contra a sua vontade, ainda que seja um canalha”.

Neste Natal, troco de bom grado o pijama de Rendeiro por chocolates. E sinto-me bem acompanhado: no poema “Tabacaria”, Álvaro de Campos não deixa de propor isso mesmo: Come chocolates, pequena / Come chocolates!

Sigamos os conselhos do poeta, que – ironia das ironias – também viveu em Durban durante nove anos da sua infância. Quanto a João Rendeiro, começou por sucumbir aos encantos da estética, ao ponto de ludibriar o próprio Estado para salvar as pinturas verdadeiras, trocando-as por quadros falsos (e já que estamos a falar de arte, convém separar o critério artístico do critério moral). A seguir rumou a Durban, local que viria a transformar-se em refúgio de perdição. Escapou-lhe este pequeno pormenor, a provar que o diabo, às vezes, está nos detalhes: o poeta dos heterónimos continua vivo. E sendo ao mesmo tempo uno e múltiplo, desdobrando-se em várias personalidades, pode muito bem tê-lo topado numa esquina e alertado as autoridades.

O presente que aqui vos deixo tem a ver com chocolates, mas não foi confecionado por mim. Comam chocolates à vontade, sem recear a diabetes, embora não possa afiançar, com segurança, que Deus aprova ou desaprova tão pecaminosa gulodice. Em verdade vos digo: a diabetes até pode funcionar como diploma de estatuto social. Ora leiam esta passagem do livro Mandriões no Vale Fértil, de Albert Cossery, onde uma alcoviteira tenta convencer a família de uma rapariga de 16 anos a deixá-la casar com o velho Hafez, que exibia no currículo, para lá da idade avançada, também uma hérnia de dimensões consideráveis, e ainda… diabetes que não tinha:

“Estavam hesitantes. Mas eu, para os convencer, segredei-lhes por fim que tens diabetes.
– E eles, que te disseram eles? interrogou o velho Hafez, sem se ofender com a doença que tão generosamente lhe era imputada.
– Primeiro ficaram de cara a brilhar, depois sorriram e disseram-me: “Se é verdade o que dizes, então é porque é mesmo um homem muito abastado”. Respondi-lhes: “Viram vocês alguma vez pedintes com diabetes? Caramba! De que mais precisam?” E ficaram logo concordantes.”

Vamos então à prenda para os meus amigos. É um texto de Eduardo Cintra Torres, que saiu no Público, edição de 15 de Fevereiro de 1999. Tem por título “O Ambrósio também é maroto” e fala de chocolates, claro. Um dos melhores textos que li, sobre um dos melhores anúncios publicitários que conheço. Um anúncio que se repete todos os anos, publicidade omnipresente nesta altura do Natal. A análise do anúncio é primorosa, suportada por uma irrepreensível utilização da semiótica, um saber antigo que tem a ver com os modos como o homem significa tudo aquilo que o rodeia. Há muitas leituras possíveis para a postura discreta e eficiente do motorista Ambrósio (um nome que remete para o mito do mel de ambrósia, alimento dos deuses gregos, que ao ser ingerido era garante de imortalidade). Assim como há muitas leituras possíveis para o “apetecia-me tomar algo” balbuciado pela suposta proprietária balzaquiana do luxuoso carro que Ambrósio conduz. Algo que pertence ao domínio do não dito, mas que está implícito. Algo polissémico e ambíguo, uma qualquer pulsão que a senhora parece desconhecer (ou não quer dar objectivamente a conhecer) e que o imaginário de cada um de nós gosta de adivinhar. Aqui fica o texto:

“Num artigo sobre televisão, António Pinto Leite debruçou-se sobre a publicidade erótica que viu nos intermináveis intervalos dum filme de violência gratuita passado na SIC: “Margarinas, carros, champôs, perfumes, bilhas de gás, tudo se vende com mulheres nuas.” E acrescentava o meu amigo e articulista do “Expresso” (“Revista”, 05.12.98): “Qualquer dia, esse paradigma da moral que é o anúncio da Ferrero Rocher, onde há uma senhora decente no banco de trás de um carro, ainda acaba com o Ambrósio desgrenhado.»

Ó António, então tu não percebeste que esse anúncio da Ferrero Rocher é o mais erótico de todos os que passam na televisão?! Que entre o Ambrósio e a “senhora decente” se adivinha uma pulsão secreta? Eu sei que os outros anúncios são mais, ou muito, explícitos, vêem-se corpos, gestos de carícias e mesmo alguma actividade sexual propriamente dita. Mas, afinal, mostram muito e não “prometem” nada. Ao contrário, o Ambrósio todo fardado, de chapéu e tudo, e a senhora toda decentemente vestida, de chapéu e tudo, intrinsecamente balzaquiana, são um universo de promessas que o espectador subentende.

Olhemos o espaço que eles ocupam: móvel, porque é um automóvel, e em andamento; imóvel, porque eles quase não se mexem, deixando para os diálogos e os minúsculos, subtis movimentos do corpo toda a explosão de significados que outros, noutros anúncios, precisam de mostrar com ginásticas esforçadas de corpos contorcionistas. E o que significa este espaço? O carro é um espaço de evasão do lar; um espaço de liberdade adentro do qual se passam muito coisas! O cinema, a televisão e a publicidade não só aproveitam a imagem “viril” do automóvel, mas muito em especial essa simbologia de lugar de libertação dos constrangimentos dos lugares habituais do quotidiano. Eu lembro-me de ver, naquele cinema de zinco sobre areia na Praia das Maçãs, o “Rolls Royce Amarelo”, filme de Anthony Asquith (GB, 1964), com Jeanne Moreau, Ingrid Bergman, Shirley McLaine, Alain Delon e Omar Shariff. As coisas que, dono após dono, aquele Rolls Royce não viu (e nós também!). Não será este anúncio um remake? A “senhora decente” e o Ambrósio estão igualmente adentro dum Rolls Royce — e o Ambrósio não é o marido ou o noivo, nem sequer o irmão mais velho. Já temos espaço e personagens, agora vamos à estória. A “senhora decente” diz: “Ambrósio, apetecia-me tomar algo”. Repare-se: ela tem um apetite que partilha com o motorista do seu Rolls! Será por ter assumido a democracia nas relações sociais com os seus servidores? Ela tem de facto um ar de balzaquiana “decente”, mas não tanto. E mais: ela diz que lhe apetece “algo”. Ora este “algo” é mais do que “uma coisa qualquer”. Ela quer “algo” e o motorista, com impecável elegância e profissionalismo, pergunta: “paramos para a senhora tomar alguma coisa?”. O tom e a cara do Ambrósio denotam, todavia, que ele sabe antecipadamente a resposta: ele sabe que a senhora não quer sair do carro, ele sabe muito bem o que a senhora quer! E é isso que a resposta confirma: “Não, o que eu queria era algo… Bom?” A “senhora decente” continua a desejar “algo” que não diz (e porque não diz? por vergonha? porque há coisas que se querem e não se dizem?) E ela quer algo “bom” – que não chega a explicar pois o Ambrósio, que, entretanto, trocara olhares com a senhora pelo espelho retrovisor e mostrara adivinhar o que ela não consegue exprimir em palavras, diz enigmaticamente: “compreendo, senhora”. Como o Ambrósio compreende os desejos reprimidos da senhora!

Nessa altura, a “senhora decente” assume o desejo e abre-se ao motorista: “Apetecia-me Ferrero Rocher”. Respeitou-se o relacionamento entre as classes sociais: foi a “senhora decente” que tomou a iniciativa. Estabelecida a insinuação, criado em nós o desejo de saber qual o desejo secreto da senhora, eis que o “algo”, o nome da coisa, já pode ser dito: Ferrero Rocher! E que nome! Formado por duas palavras, cada qual duma libidinosa língua latina: o italiano e o francês!

Mas o anúncio, que podia bem terminar aqui, quando a senhora “se abre ” ao motorista dizendo o que realmente quer, o anúncio tem ainda uma longa estória para contar: confirma-se que o Ambrósio já sabia antecipadamente o que a senhora desejava! Diz ele: “Tomei a liberdade de pensar nisso, senhora!” Mas que motorista espectacular! E, “tomando a liberdade” de adivinhar o desejo íntimo da senhora, o Ambrósio abre, desvenda, mostra o objecto do desejo: brilhando como barras de ouro, as bolas de Ferrero Rocher surgem de dentro do carro quando o Ambrósio acciona uma porta secreta, como nas Mil e Uma Noites. Abre-te, Sésamo!

“Oh, Bravo, Ambrósio!”, diz a “senhora decente”, que não cabe em si de contente e que já quase não controla os seus actos: pela primeira e única vez, dá-se o contacto físico entre os dois. A senhora decente toca ao de leve com a mão direita no ombro protector do motorista e leva um Ferrero Rocher à boca, consumando o desejo. Tudo é sugerido, até, digo eu, a sugestão felaciana implícita nas sílabas e vogais abertas na frase “Oh, bravo Ambrósio!” (duas vezes br, duas vezes ó, etc: quase uma onomatopeia!)

O novo Ambrósio e a nova Senhora da Ferrero Rocher

Extraordinário anúncio este, onde nada há de explícito, onde tudo é elegante. Mas, ao invés do que sucede em três dos spots que referes (Peugeot 106, água-de-colónia Calvin Klein e o “perfume macho” Denim), neste há contacto físico. Os jovens do Peugeot despem-se (ó António, nem sequer se vê nada) mas não se tocam, enquanto aqui a “senhora decente” toca no Ambrósio! Claro que não toca de qualquer maneira, até porque, diz a voz “off”, Ferrero Rocher “satisfaz o desejo de requinte”. O anúncio, que começara com o Rolls vindo em nossa direcção e passara depois para os interiores secretos do automóvel de luxo, termina com o Rolls afastando-se de nós depois de partilhar um dos seus mais íntimos segredos. As coisas que se passam no interior dum carro! Tu bem o adivinhas quando escreves que a “senhora decente” está “no banco de trás dum carro”: a separação do banco da frente não a impede de trocar olhares com o Ambrósio, de lhe tocar. Dizes que o filme que a SIC ia passando no meio dos intervalos era “ideal para ver sem ver”. Mas, se me estiveres a seguir, não poderás reencontrar o maroto do Ambrósio no ecrã sem pensar que aquele anúncio, além de ser para ver, também é para ler. Com prazer.”

 

 

Aristides de Sousa Mendes: um católico, monárquico, conservador, no Estado Novo

“Mesmo que me destituam, só posso agir como cristão, como me dita a minha consciência; se estou a desobedecer a ordens, prefiro estar com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus.”
– Aristides Sousa Mendes
“O Eterno (…) guiar-me-á nas veredas da justiça por amor do Seu Nome”
– Salmo de David sobre os justos

A recente consagração da memória de Aristides de Sousa Mendes no Panteão Nacional está longe de ser consensual. Uns aplaudem, outros aproveitam para achincalhar o diplomata, vincando a desobediência a Salazar e, pior do que isso, agravando a sua memória, ao insinuarem que terá passado vistos a troco de quantias avultadas. Digo insinuarem, porque nunca provaram nada. A esses – os mesmos que têm a lata de dizer que os judeus não corriam perigo de vida… – convém lembrar que é importante fundamentar a preferência que atribuímos a uma interpretação, relativamente a outras possíveis, pois a sua veracidade comprova-se com a dificuldade em e refutar.

Casa do Passal (Cabanas de Viriato)

Carreguemos nos pedais da memória.  Cavaco Silva recusou apoio governamental à recuperação da Casa do Passal porque o cônsul… desobedeceu! Abel Matos Santos, na altura vogal da comissão executiva do CDS-PP, entre referências elogiosas a Salazar, apelidou o cônsul de Portugal em Bordéus de ser “agiota dos judeus”, apesar de ele não ter salvo apenas judeus (entre muitos outros vistos, passados a refugiados não judeus, contam-se a família real Habsburgo, membros da família banqueira Rothschild e todo o governo belga no exílio). Mais não fez este cruzado democrata-cristão que dar voz a uma visão alternativa da História propagandeada pelos nostálgicos da velha portugalidade, que sustentam ter o cônsul passado vistos aos judeus a troco de dinheiro e o consideram um “traidor”, por ter quebrado a neutralidade imposta por Salazar ao seu corpo diplomático, equilibrando poderes entre sectores pró-germânicos e pró-britânicos da sua governação.

Nesta visão alternativa da História invocam-se, amiúde, pormenores irrelevantes – tão ao gosto das biografias de cariz positivista – manobras de diversão que apenas servem para deslocar o eixo central daquilo que é essencial num debate desta natureza. Dou apenas um exemplo desse tipo de manobras: alguém que convoca o avô materno, supostamente frequentador do palacete de Sousa Mendes na Casa do Passal, em Cabanas de Viriato, para dizer que a cidadã francesa com quem o cônsul casara em segundas núpcias, “após haver isolado seu marido da parentela que tinha na aldeia, trilhava-lhe os dedos nas portas de pau da casa, para o pressionar a vender as terras e os bens móveis do palacete e enviar o dinheiro para França”.[1] Como era de esperar, este tipo de argumentação – conhecido como falácia de relevância, uma vez que não acrescenta nada de essencial ao que se está a discutir – só podia ser rebatido no campo da ironia: “Coitado do homem que teve a coragem de salvar milhares de Judeus e, depois, foi tão despoticamente dominado à força de braços pela esposa!”.[2]

Do que li e do que sei em relação ao processo que lhe foi movido por ter salvo judeus sem a autorização de Salazar, recusando-se a cumprir a tristemente célebre “Circular 14”, que impunha que os vistos portugueses aos refugiados de guerra fossem suspensos, retenho o seguinte:

Salazar não perdoava aos que desafiavam a sua autoridade. Os vistos não eram legais? Claro que não! Mas será que devemos cumprir leis que em contextos específicos atentam contra princípios fundamentais da dignidade humana? Perante a situação trágica de seres humanos perseguidos como cães raivosos, só os burocratas da submissão cega a todas as ordens e hierarquias, a impressos e formulários, se predispõem à aplicação rigorosa e estrita de uma lei que, ao condenar cidadãos à morte, passa a ser vista como iníqua. O que choca, nisto tudo, é a vingança mesquinha como resposta à nobreza de gestos que salvaram a vida a tantos seres humanos. Como dizia Camus: uma vida nada vale, mas nada vale uma vida.

O intemerato cônsul não desconhecia os riscos que corria. Segundo depoimento do filho Sebastião Mendes, terá dito, na presença da mulher e dos filhos: “Não sei o que é que o futuro reserva para vossa mãe, para vocês e para mim mesmo. Materialmente, a vida não será tão boa para nós como tem sido até agora. Contudo, sejamos corajosos e tenhamos em mente que, ao dar a esses refugiados a possibilidade de viverem, teremos uma possibilidade mais de entrar no Reino dos Céus, porque, ao fazê-lo, não faremos mais do que praticar os mandamentos de Deus”.[3]

O drama económico que se abateu sobre Sousa Mendes (com 12 filhos vivos quando lhe foi reduzido o vencimento) nem é a questão central. Central é saber que o processo disciplinar não passou de uma farsa. Dois dias antes de ter mandado instaurar o processo disciplinar, Salazar envia telegrama a Armindo Monteiro onde diz o seguinte: “Vistos concedidos em Bordéus foram-no, em contravenção de instruções expressas do Ministério por cônsul que já afastei do serviço”.[4] Como se vê, primeiro a sentença, depois o julgamento. O processo disciplinar funcionou como mera formalidade administrativa, escamoteando o essencial de qualquer processo: apurar a verdade. Mas há mais. Pedro Tovar de Lemos[5] era o relator do processo, nomeado por Salazar. E era, também, membro do Conselho Disciplinar que julgava todos os processos. Portanto Tovar era, ao mesmo tempo – pasme-se! – acusador e juiz.

Muito mais haveria a dizer sobre o cinismo do regime e a hipocrisia de Salazar – “um indivíduo insuportável”, assim o classificou Churchill em 1943 – neste processo: depois de fazer o que fez a Sousa Mendes, não deixou de enviar um cartão de condolências à família, aquando do seu passamento. Nada de estranhar, se tivermos em conta que, apesar de fazer constar que tudo sacrificava à política de neutralidade perante a guerra, não hesitou – quando Hitler se suicida, em 30 de Abril de 1945 – em enviar telegramas de condolências e mandar colocar em Lisboa as bandeiras a meia-haste, durante dois dias. O cinismo não acaba aqui. Alguns dias depois, Salazar desabafa, em plena Assembleia Nacional: “Bendigamos a paz. Bendigamos a vitória”[6] (dos aliados, contra o nazismo, entenda-se).

A tragédia que se abateu sobre o nosso cônsul em Bordéus é um dos muitos exemplos paradigmáticos da desonestidade histórica do regime. Dito isto, o que interessa reter é se valorizamos mais a obediência cega às leis ou o sentido profundamente humano da desobediência do nosso cônsul em Bordéus, ao recusar ser cúmplice dos crimes de guerra nazis. E aqui não pode haver meias-tintas. O ditame da consciência, em casos de vida ou de morte, pode e deve sobrepor-se ao dever da disciplina.

Manda a verdade dizer, também, o seguinte: quanto à política de refugiados, Salazar foi evoluindo ao longo dos anos. Ao contrário do que sucedeu durante a Guerra Civil de Espanha (1936-1939), no decurso da II Guerra Mundial Portugal acolheu-os e não os recambiou ou entregou aos seus perseguidores. O nosso país serviu-lhes de porto e abriu-lhes as portas da esperança, apesar do acolhimento ser muito restritivo. Aos judeus chegados a Portugal, por exemplo, só eram emitidos documentos de trânsito de curta duração, rumando depois a outras paragens, como Estados Unidos e Brasil.

No início, Salazar mostrou-se relutante a esse acolhimento. Via nos refugiados um sério problema de Estado: ou porque os países a que pertenciam o colocavam sobre forte pressão, ou com receio de que esse acolhimento pudesse ser visto como um sinal inequívoco do posicionamento de Portugal no conflito. Percebe-se o incómodo, se tivermos em conta a sua tão apregoada – mas nem sempre cumprida – política de neutralidade. Quando a guerra começa a inclinar-se para o lado dos “aliados” então sim, Salazar (que na ânsia de controlo absoluto do poder chegou a acumular as funções de Presidente do Conselho de Ministros com as dos ministérios das Finanças, da Guerra e dos Negócios Estrangeiros) deixa de admoestar os diplomatas rebeldes e facilita a concessão de vistos.

Em 1943 a sorte da guerra começa a mudar, com a derrota do exército alemão em Estalinegrado. E em 1944, com a cada vez mais anunciada derrota do eixo Berlim-Roma, Salazar já não reúne condições para perseguir Sampaio Garrido como o fez em 1940 com Aristides Sousa Mendes. Assim se entendem as instruções que dá em 1944 à legação em Budapeste, para “proceder à semelhança do ministro (embaixador) da Suécia” no salvamento de judeus, acentuando mesmo que “deve ser feito esforço no sentido de salvar o maior número possível de refugiados”.[7]

Uma palavra final para outros dois portugueses em funções diplomáticas durante a II Grande Guerra (1939-1945). O ministro plenipotenciário Sampaio Garrido (com funções de embaixador) e Carlos Branquinho (encarregado de negócios na Hungria), sobre os quais pesa ainda hoje um silêncio injusto. Ambos foram responsáveis, em 1944, pela embaixada portuguesa em Budapeste. Foi aí que concederam vistos, passaportes provisórios e asilo diplomático a um número indeterminado de judeus húngaros, que rondaria os 1000.

Tal como Aristides Sousa Mendes, também eles escancararam as portas da liberdade a muita gente ameaçada pelo regime nazi. Eram, diga-se, tal como o cônsul em Bordéus, homens integrados no Estado Novo, personalidades de destaque da União Nacional, monárquicos convictos e admiradores confessos de Salazar. Também o republicano Veiga Simões, ministro dos Negócios Estrangeiros em 1921 e chefe da Legação de Portugal na Alemanha em 1933, que Salazar mandou colocar na disponibilidade, teve acção meritória no apoio aos judeus perseguidos pelo nazismo, como o comprovam os diferentes relatórios que dirigiu ao então Presidente do Conselho de Ministros.[8]

Embora estejamos a falar de situações distintas (os vistos de Sousa Mendes irritavam muito mais o poder do que os “passaportes provisórios” de Garrido e Branquinho), todos estes nomes representam casos exemplares e por isso merecedores do respeito público. E já agora acrescento um outro, que nada tem a ver com diplomacia em tempos de Holocausto. Refiro-me ao general Vassalo e Silva, irmão da escritora Maria Lamas e último governador-geral da Índia.

Também ele não acatou a ordem de Salazar – que preferia heróis mortos a prisioneiros vivos – para resistir até à morte do último soldado. O lema era: “Resistir até ao fim, até ao limite das nossas forças”. Apesar de conhecer a enorme desproporção de militares no terreno – pouco mais de 3 000 portugueses para fazer frente a 30 000 da União Indiana, apoiados por aviões, artilharia pesada, blindados e bases navais – Salazar apelava ao “sacrifício total”. Vassalo e Silva percebeu que esse “sacrifício total” redundaria numa tragédia, que resistir seria auto-imolarem-se e, tal como Sousa Mendes, desobedeceu. Assinou o termo de rendição às forças indianas, o qual lhe permitia trazer para casa, sãos e salvos, os homens que comandava. À rendição seguiu-se quase meio ano de cativeiro, com Vassalo e Silva a fazer questão de ser libertado apenas depois de todos os outros militares sob o seu comando.

Como era de prever, foi acusado de “traidor” assim que chegou ao aeroporto de Lisboa, foi banido do Exército e ficou impedido de trabalhar em cargos públicos, passando a ser vilipendiado pelos serventuários do regime. Também os militares que comandou foram enxovalhados no regresso a Portugal. Muitos acabaram expulsos das Forças Armadas. Outros foram recambiados para os teatros de guerra mais perigosos do continente africano.

Em 17 de Dezembro de 1961 Portugal começava a perder a sua “jóia da Coroa”. E também começava, territorialmente, a encolher (tinha perdido o minúsculo enclave de S. João Baptista de Ajudá em Julho do mesmo ano). Nessa noite de 17 de Dezembro, Sophia de Mello Breyner gizava um poema para sempre interrompido pela notícia da entrada dos soldados indianos em Goa, que pôs fim a uma presença portuguesa com mais de quatro séculos:

PRANTO PELO INFANTE D. PEDRO DAS SETE PARTIDAS[9]

Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte

Placa num passeio (Viena de Áustria)

Regressemos a Aristides de Sousa Mendes, para dizer que nunca saberemos ao certo quantas pessoas salvou. A urgência da fuga (a desobediência a Salazar começou em Maio de 1940, Paris capitulara a 14 de Junho e as tropas alemãs chegam a Bordéus a 27 desse mês) levou-o o a desprezar a anotação e o registo de muitos nomes, ganhando tempo precioso para a prioritária emissão de vistos. O que sabemos é que ele e os outros diplomatas aqui citados eram profundamente católicos, pelo que se lhes aplica na perfeição estas palavras de Anabela Mota Ribeiro a propósito de um avião da TAP que ostenta o nome do cônsul em Bordéus: “assim que puder, ando nele e volto a pensar em anjos que fazem da Humanidade um lugar melhor”.

Não podemos deixar de admirar estes homens raros, que fizeram no momento certo o que devia ser feito. Só os grandes homens são capazes de arriscar a carreira e às vezes a própria vida, ao colocarem a vida dos outros acima da sua. Tal como a fé ou a crença, também a bondade e a nobreza de carácter que ajudam a salvar vidas humanas não são apanágio da esquerda ou da direita política. Evitemos, pois, a agressividade (inútil, mas tão portuguesa!), o fanatismo ideológico, os rótulos políticos apressados, o espírito de vingança.

A conduta exemplar destes diplomatas do Estado Novo, bem como a do general Vassalo e Silva no caso de Goa – homens que em circunstâncias excepcionais responderam de forma excepcional – mostra bem como algumas facetas humanas não são um feudo de ninguém, pois transcendem as ideologias.


[1] Eduardo Proença-Mamede, “À volta da figura de Salazar”, Jornal da Bairrada, n.º 1491, 12.08.1999, p. 16.

[2] Paulo Carvalho, “A ganga e o ouro”, Jornal da Bairrada, 09.09.1999, p. 15.

[3] Rui Afonso, Um Homem Bom. Aristides de Sousa Mendes, o Wallenberg Português”, Lisboa, Editorial Caminho, 1995, p. 100.

[4] Rui Afonso, Injustiça. O caso Sousa Mendes, p. 158.

[5] Pedro Tovar de Lemos (1888-1961), pró-germânico assumido, substituiu no cargo Veiga Simões, ministro dos Negócios Estrangeiros em 1921, chefe da Legação de Portugal na Alemanha em 1933. Era um crítico declarado do regime alemão, que Salazar mandou colocar na disponibilidade. Veiga Simões também teve acção meritória no apoio aos judeus perseguidos pelo nazismo, como o comprovam os diferentes relatórios que dirigiu a Salazar.

[6] José-Alain Fralon, Aristides de Sousa Mendes. Um Herói Português, Editorial Presença, 1999, p. 91.

[7] Ver Carlos Albino, “Diplomatas salvaram 250 mil”, Diário de Notícias, 03.04.2000, p. 21.

[8] Ver Avraham Milgram, “Potencial de salvação”, revista História, n.º 15, Junho de 1999.,

[9] Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, Editorial caminho, 2003, p. 58.

Queira vender-me a sua lucidez , s.f.f.!

Ilustração: André Boligan

Com este título, escreve o meu amigo Paulo de Carvalho:

“Nuno Severiano Teixeira, na Antena 1,
sobre o facto de à direita haver, agora,
mais dois partidos bem distintos do CDS:
“O CDS tem de perceber que há mais dois
na disputa do mercado eleitoral.”
Portanto, a ver se percebi bem…
Os políticos são empresários,
os partidos, empresas,
os cidadãos, oportunidades financeiras.
Competitividade, em lugar de representatividade.
Nada de debate de ideias sobre a melhor forma
de conduzir um país, apenas um produto atractivo,
capaz de converter o eleitor em consumidor.
Convenhamos que é um passo adiante
àquele que já há muito se deu,
quando em campanhas eleitorais
se quer fisgar a ignorância do cidadão
de preferência à sua competência crítica.
É de aplaudir o inovador!
Burros, com antolhos, que comam a palha
que o mais esperto lhes ponha à frente,
assim nos querem certos políticos.
Escrevi lucidez no título. É condição de, a lucidez.
Deveria ter escrito liberdade.
Pois é a liberdade que nos querem comprar,
quando o pensamento político se converte
em linguajar de empreendedor…””

Agora digo eu:

Ilustração: Gerhard Haderer

É exactamente este o deplorável “estado da arte” política que o Paulo descreve. Só falta, mesmo, apropriarem-se da nossa lucidez, alienarem a nossa liberdade. Parecem preferir súbditos de mente aprisionada, treinados para a obediência, a cidadãos livres e actuantes. Querem-nos medíocres e desprovidos de imaginação, para assim criarem uma vasta área de mercado onde possam babar-se (sem receio de virem a ser penalizados) da sua própria mediocridade.

Quero crer que os meios de comunicação social – com os diferentes canais de televisão à cabeça – têm grande responsabilidade neste estado de coisas: bombardeiam-nos com quase-notícias e não-notícias, com a repetição indecorosa de imagens até à náusea, com directos imprevistos de tudo quanto seja pontapé na bola, com rodapés salpicados de frivolidade, com enlatados de gosto duvidoso, com debates agressivos onde se interrompe de forma sistemática o oponente (o que transforma qualquer debate de ideias num improvável circo romano), com factos banais transformados em “acontecimentos históricos”. A competição entre canais privilegia a divulgação do escândalo. Quanto mais escândalo, mais sucesso comercial. Parece haver de tudo, nesta sementeira do mal. Mas falta qualquer coisa, para a qual o texto do Paulo exemplarmente remete: uma verdadeira ética dos cuidados.

Contra este insulto à inteligência, recordo alguns avisos já divulgados em livro. Um, mais antigo, de 1995, é de Karl Popper e John Condry e chama-se “Televisão: um perigo para a democracia”. Diz Popper: “a democracia não pode subsistir de uma forma duradoura enquanto o poder da televisão não for totalmente esclarecido”. Resta saber se quem detém o poder não deixa degradar de forma deliberada a qualidade da televisão, para melhor a controlar. O outro livro é de Pierre Bourdieu, “Sobre a Televisão”, e nele se pode ler que a televisão “faz correr um perigo muito grande às diferentes esferas da produção cultural” e “faz correr um não menor risco à vida política e à democracia”. Estou em crer que se estes textos-tese fossem lidos e seguidos como merecem, talvez desse húmus cultural pudessem brotar as raízes de um futuro mais inteligente, mais humano e solidário.

Infelizmente, e descontando o teórico da “sociedade aberta”, o liberal Popper, citar alguns textos avisados de Bourdieu, nos tempos que correm, significa correr o sério risco de virmos a ser acusados de “marxismo cultural” pelos cultores da dialéctica rasteira do pró e do contra, que seguramente nunca leram “O Poder Simbólico” e pouco ou nada sabem da teoria do campo de forças na sociologia e dos agentes (refiro-me ao poder político, seja ele de esquerda ou de direita) sempre predispostos a dominá-lo em seu proveito. O que pessoas desse calibre secretamente desejam, para entretenimento das massas, é que mil televisões privadas floresçam, em nome do seu muito peculiar conceito de liberdade, de concorrência, de crença inabalável nas virtudes do capital e do deus-mercado. Querem lá saber das preocupações de Popper ou Bourdieu!… Ao triunfo da cultura e dos padrões de decência preferem os picos de audiência nos reality-shows, à potência do acto criativo preferem a evasão e o adormecimento dos espectadores alienados e subsumidos no homem-massa.

Contra este lodaçal, este vale tudo mediático, contra os pugilistas da palavra manietados nas suas certezas de granito, contra esta peixeirada que nos dá o circo em vez da tribuna honrada, apetece arremessar a lúcida frase de Antoni Tàpies, retirada de “A Prática da Arte”, p. 59:

“Não facilitando verdadeiramente a difusão e o ensino da autêntica cultura formativa, e continuando com a ideia hipócrita de que convém dar o que o vulgo pede, nunca se formará, naturalmente, a sensibilidade necessária”.

Caro Paulo: para terminar, e já que este texto gira em torno dos malefícios da televisão, a melhor forma que encontrei para te agradecer tanta (e tão necessária!) lucidez é, para lá do abraço grande de inteira amizade, este “Ensaio sobre o quotidiano”, de Luis Filipe Castro Mendes, inserido em “A Misericórdia dos Mercados“, p. 24:

O quotidiano não cega:
Nós é que estamos distraídos.
Não pensamos, ouvimos falar na televisão
Pessoas que pensam que estão a pensar
E assim ganham a sua vida.
Dói-nos a vida, mas dizem-nos que merecemos,
Porque pensámos em viver do mesmo modo
Que as pessoas que pensam que estão a pensar
E falam na televisão.
Agora as pessoas que pensam que estão a pensar
E ganham a vida na televisão
Dizem-nos que perdemos a nossa
E é bem feito
E ainda devia doer mais!

O quotidiano não cega: nós
É que estamos distraídos.

Sondagens e qualidade da democracia

Temos hoje empresas de sondagens que se mostram mais falíveis que as pitonisas, adivinhos e oráculos da mitologia antiga. Assim acertassem nelas com a mesma precisão com que Tirésias, o profeta cego, acertou ao predizer que Édipo assumiria o trono de Tebas e tomaria a mão de Jocasta.

Quando pedimos uma garrafa de vinho e o conteúdo não corresponde ao rótulo, é costume dizer-se que estão a vender-nos gato por lebre. O mesmo se passa com as sondagens e com quem as paga e se vê a braços com uma autêntica zurrapa informativa. As sondagens divulgadas nos últimos dois meses eram praticamente unânimes: Medina ganhava folgadamente a Moedas. Sondagens e comentários baseados em sondagens, das quais só os ingénuos pensam que o marketing político está ausente.

Só que… sentado em frente da televisão para escutar as primeiras projecções, assim que ouvi falar em empate técnico, pensei para com os meus botões: Carlos Moedas já ganhou. Depois, já passava das duas da matina, viria a confirmação desse triunfo em que muito poucos acreditavam. Quem o anunciou foi António Costa, ao resolver falar antes de Rui Rio.

Depois de tamanho descalabro profético, importa perguntar, tendo presente o elevado nível de abstenção que muitos se esforçam por branquear: até que ponto estas sondagens não são responsáveis por milhares de potenciais votantes não se terem deslocado às mesas de voto? Uns, (apoiantes de Carlos Moedas), porque se convenceram que a eleição estava irremediavelmente perdida; outros, (simpatizantes de Fernando Medina), por entenderem que a eleição estava no papo, que eram favas contadas. Se as sondagens se tivessem aproximado mais dos resultados que hoje conhecemos, que poderia ter acontecido: uma votação mais expressiva em Medina, ou ainda mais expressiva em Moedas?

Eis as perguntas de quem duvida, por estar sinceramente convencido que o caminho de resgate passa pela interrogação em busca de possíveis certezas e não de mitos. De duas uma: ou os portugueses são exímios na arte de dissimulação do voto, sempre que questionados em quem tencionam votar; ou, hipótese também a ter em conta, há incompetência manifesta na forma como os responsáveis pelas sondagens seleccionam os eleitores de uma amostra que se pretende fiável e representativa.

No actual estado comatoso em que se encontram, as sondagens parecem representar mais um perigo do que um benefício para a qualidade da nossa democracia. As coisas só podem piorar  quando alguns papagaios do pluralismo se servem delas como alguém que, depois de emborcar uns tintos em demasia, se encosta aos candeeiros públicos: mais para conseguir amparo do que para se deixar iluminar.

 

 

 

O escorpião (Marcelo) e a rã “lelé da cuca” (Balsemão)

Era uma vez um escorpião, de nome Marcelo, e uma rã chamada Balsemão. O escorpião pediu à rã para o ajudar a atravessar com segurança o rio da política. A rã, desconfiada, perguntou:

– Mas como é que eu sei que não me vais picar a meio do rio?

Responde o escorpião:

– Não tens quer ter medo, se te morder vamos os dois ao fundo.

Convencido da bondade do escorpião, a rã aceitou carregá-lo até à outra margem da política. A meio do rio, o escorpião – como era de prever – não resistiu a picar a rã. Incrédula, esta fitou-o e ele limitou-se a responder:

– Desculpa, está-me na massa do sangue, faz parte da minha natureza.

Ao contrário do que acontece na fábula, nesta história pouco exemplar nenhum dos dois morreu afogado. A rã, a quem um dia o escorpião chamou lelé da cuca – tornou-se o todo-poderoso patrão dos media em Portugal e o venenoso escorpião traidor, como lhe chamou a rã, conseguiu chegar a Presidente da República.

O escorpião não deixou de marcar presença na recente homenagem prestada à rã lelé da cuca. Num exercício do mais puro contorcionismo político, em vez de voltar a ferrá-la com o seu veneno, resolveu tão só picar o ponto, embora não tenha assistido à cerimónia.

Uma rã pode desempenhar múltiplas tarefas. Se, por exemplo, faz cópias, podemos chamar-lhe… a rã que xerox! (Mia Couto, “Cronicando”, p. 130). Se, mesmo lelé da cuca, consegue escrever as suas memórias, podemos encontrar aí coisas engraçadas. Quando o escorpião traidor é chamado para integrar o governo da rã – uma forma airosa desta se livrar de novas ferroadas no semanário espesso – os amigos mais fiéis não deixam de a avisar: “Estás a aproximar-te do escorpião da fábula, e tu serás a rã”.

O escorpião é um aracnídeo venenoso que se esconde debaixo das pedras e que em algumas regiões de Portugal é conhecido por lacrau. Para se perceber melhor o que é um verdadeiro escorpião ou lacrau da política – e na esperança de que os meus amigos não venham a ser picados por nenhum deles – aqui fica o retrato de corpo inteiro do lacrau político, em excertos dum texto delicioso que tem precisamente por título “Os Lacraus”, da autoria de Frederico de Moura e publicado no semanário aveirense Litoral, de 10.10.1980:

“Macia, gelatinosa, de palavras mansas, hesitantes e entrecortadas, existe aí uma casta de sujeitos que, cumprimentando suavemente à direita e à esquerda, metendo surdina nas palavras e tornando bambos os gestos, procura metodicamente uma lura no chão ou a penumbra projectada por uma pedra do caminho para espreitar, de olho esgazeado, o momento oportuno para erguer a cauda, usar do esporão e inocular a peçonha.

Inimigos jurados das atitudes claras e frontais e da lealdade de processos, não contestam opiniões de cara levantada, não se pronunciam nas controvérsias e, pastosamente, alojam-se como bichos-da-seda, moles, sinuosos, frios, atentos a uma nesga de pele onde possam injectar o veneno.

Todos nós os encontramos no caminho, mas só damos conta deles quando a ferroada imprevista nos vem alertar que há escorpiões na vereda que pisamos.

Tipos inferiores, cadinhos de rancores recalcados, superam as inferioridades encapotados em sombras coniventes e são, frequentemente, usados por sujeitos sem escrúpulos, vocacionados para atirar a pedra e esconder a mão.

Estes lacraus têm o dom da ubiquidade (..). Respiram da mesma forma a metana dos pântanos e o incenso das sacristias e entram com o mesmo à-vontade pelas portas escancaradas da hospitalidade mais leal e insinuam-se pelas frinchas dos subterrâneos donde, aproveitando a moleza da sua constituição, lançam, para fora, pseudópodes empeçonhados (…).

Cristo, quando por cá andou, topou-os em profusão nos caminhos duros que percorreu (…). Para essa fauna só é lícito usar um argumento, e esse localiza-se na sola da bota capaz de lhe esmagar a compleição gelatinosa nas luras em que se lhe processam as metamorfoses que lhe garantem o polimorfismo e lhe permitem surgir, em todas as contingências ideológicas e em todos os caminhos políticos, a poluir a letra de forma, a sugar o suor honrado dos tipógrafos e, até, a sujar a oratória das tribunas quando a fala lhes é correntia e há dez réis de massa cinzenta que, ao menos, lhe permita alinhar meia dúzia de palavras (…).

Por isso é que mandei pôr meias solas bem grossas nas botas para esmagar os que puder da ninhada dos que, no nosso tempo, pululam à nossa roda.

Não trago, como é evidente, nenhuma cabacinha de antídoto presa à cintura, mas, ao menos, sempre deixo o aviso de que…  há lacraus no caminho.”

Ao contrário das Memórias de Adriano, em que Marguerite Yourcenar se afundou em séculos de um tempo morto para nos dar a conhecer um imperador que por vezes agia de forma brutal, estas “Memórias” de Francisco Pinto Balsemão remexem no baú de histórias e acontecimentos que ajudaram a definir a história política portuguesa do último meio século. Aqui não há brutalidade impune, apenas alguns ajustes de contas com um passado ainda presente na memória de muitos.

Ainda não li, nem sequer comprei o livro. Mas, a avaliar pela amostra do que se vai escrevendo sobre ele, é bem capaz de nos dar a ver até que ponto a suposta grandeza (ou pequenez) de certas personagens se harmoniza (ou não) com a grandeza (ou a pequenez) que outros homens vêm nelas, porque nada é definitivo na análise de uma época, de um acontecimento, de uma vida.

 

 

Larvas, grilos e gafanhotos: admirável mundo novo gastronómico

 

Neste tempo de ananases, capaz de derreter os untos – como escrevia Eça de Queirós n’A Correspondência de Fradique Mendes – poucos terão dado conta da autorização do governo que permite novas iguarias no prato dos portugueses: duas espécies de grilos, uma de besouro, duas de larvas e duas de gafanhotos.

Habituado a ter a carteira no fio, comi, durante muitos anos, em cantinas. É esse saber de experiência feito que me permite discursar com manifesto à-vontade sobre a importância das teses de Lavoisier na gestão das cantinas portuguesas. Tomemos, como exemplo, o croquete (e quando digo tomemos, isso não significa que tenhamos, necessariamente, de o beber): o croquete não é um alimento qualquer (na verdade, chego a duvidar que seja um alimento). À luz dos ensinamentos de Lavoisier (“na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”), o croquete é neto afastado do bife. Se observarmos com mais rigor, verificamos que uma cantina que num dia serve bifes, serve invariavelmente nos dias seguintes hambúrgueres e almôndegas – formas intermédias entre o bife e o croquete, mas compostos mais ricos em carne do que este – e só depois os famigerados croquetes. Em matéria de cantinas fico-me por aqui, embora também pudesse dissertar (passe a imodéstia) sobre temas tão aliciantes como: 1 – “Alheira: alimento ou arma de guerra”; 2 – “Carnes frias: a influência do surrealismo nos acepipes variados”.

Perguntam os simpáticos leitores: a que se deve este arrazoado? Respondo: à necessidade de mostrar, à luz dos ensinamentos adquiridos numa longa frequência de cantinas (enquanto estudante, no serviço militar e na vida profissional), que não é fácil darem-me a volta à cabeça e convencer-me a manducar larvas e percevejos.
Como há mais vida para lá das cantinas, também conheci o sabor de iguarias que os portugueses de ordenados minguados e pensões que envergonham a democracia raramente cheiram no prato: a chanfana de chibo velho, assado na caçoila de barro preto, o ensopado de borrego, o leitão assado no espeto de pau de loureiro, o cabrito no forno de lenha aquecido com vides, a caldeirada de enguias (Fialho de Almeida aludia às “caldeiradas patrícias, inverosimilmente celestes, do Gamelas de Aveiro”) ou as enguias de escabeche, a lampreia à moda do Minho, a sapateira recheada, o caril de gambas, o bacalhau com batatas a murro e o polvo à lagareiro. Quem já teve a sorte de ser brindado com estas e outras honrarias que acariciam o palato e estimulam as papilas gustativas, dificilmente adere ao admirável mundo novo que se avizinha: o do triunfo generalizado da nova culinária à base duma gama variada de larvas e insectos.

Pode a gastronomia tradicional estar condenada a fazer parte de um passado morto, que paulatinamente se dilui nas brumas da memória, mas sem passado que nos ilumine o presente é uma sombra do que fomos e o futuro uma incerteza larvar de besouros, grilos, escorpiões e gafanhotos. Anuncia-se, pois, um tempo novo, em que as prateleiras dos supermercados nos vão seduzir com barras nutritivas de insectos, ou uns snacks de larvas, temperadas com sal e pimenta. Não é receita que me redima da agrura dos dias, me faça levitar ou me liberte das insónias.

Tenho de o confessar, correndo embora o risco de ser acusado do mais puro conservadorismo gastronómico e desconhecendo, até, se a hierarquia dos anjos e arcanjos aprova ou desdenha das minhas escolhas: prefiro, de longe, um simples arroz de miúdos, ao que de novo por aí se anuncia, convenientemente embrulhado no celofane garrido da sustentabilidade ambiental e das fontes nutricionais alternativas. Prefiro, repito, um singelo arroz de miúdos, mesmo que se trate da variante que um dia foi servida aos patuscos confrades de S. Gonçalo: uma espécie de arroz andante, adubado, em vez das miudezas, com uma grande e encantadora variedade de patas de galináceo, só possível em boutiques da especialidade. Patas grandes, patas pequenas, patas com dedos, patas sem dedos, dedos sem patas, dedos com unhas pintadas e envernizadas (Confraria de S. Gonçalo, “Aveirismos Gastronómicos”, p. 19).

Uns conformam-se com as regras sociais dominantes e com a comidinha tradicional, outros não. Uns são vegetarianos, outros comem carne, outros ainda larvas e insectos. O que penso e digo não tem qualquer valor normativo: o que menos desejo é interferir nos hábitos alimentares dos meus semelhantes. Como defendia o nutricionista Emílio Peres, todos temos direito à nossa indigestão. Empanturrem-se à vontade e, se não são capazes de distinguir um Barca Velha (uma garrafa por dia, nem sabem o bem que vos fazia) de um corriqueiro vinho dos mortos, de Boticas, sugiro que acompanhem o repasto com um soberbo vinho de cobra (parece que evita a queda do cabelo e da caspa e garante a virilidade). Para rebater, nada melhor que um saké de lagarto (clubismos à parte…).  No final, refastelado na chaise longue da sua irreprimível gula insecticida, se duas horas depois de digerir uma grelhada mista de escorpiões e gafanhotos (polvilhada com farelo de larvas de mosca negra) e de emborcar três garrafas de vinho (isto é: depois de beber como sete bois com sede) se sentir a desfalecer, ficar nervoso, com asma, alergia ou reacções cutâneas, não ligue. Emborque outro saquê e logo verá que fica melhor.

Surgindo vem ao longe a nova pirâmide alimentar. Viva a diversidade. Abaixo o fascismo gastronómico e a monotonia dos cardápios. Se um franguinho caseiro, que se alimenta com minhocas do chão, é tão saboroso e nutritivo, por que razão não mastigar directamente as minhocas e poupar o franguinho?  A propósito: já há cursos que ensinam a não ter nojo de comer larvas e insectos. Inscreva-se, mas depois não se admire se um dia destes der consigo a confessar, extasiado: que delícia, um bicho na salada!

Grandes estômagos! Bom proveito, à barriga e ao peito. E boas férias!

 

 

Vinte e cinco anos sem David Mourão-Ferreira

Apartou-se do nosso convívio num dia 16 de Junho, há precisamente vinte e cinco anos. Poeta, romancista, crítico literário e ensaísta, considerava-se sobretudo poeta do amor e dos sentidos. Mestre de vários géneros literários, manteve sempre uma relação muito próxima com as mulheres, a quem olhava como arte e como música, talvez como reacção à ameaça constante do informe. A imagem do sedutor colou-se-lhe à pele. Ele ripostava, dizendo que não, que os homens não seduzem, acabam sempre seduzidos.

Muitos viram nele o poeta do amor e da sensibilidade, como acontece neste poema magistral sobre a mulher:

ILHA

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

In Cem Sonetos Portugueses.
Edição Terramar, 2002.

Em boa hora Agostinho da Silva o encaminhou para a Literatura, pela qual viria a sentir uma avassaladora paixão e um genuíno amor, num tempo em que o pai desejava que optasse por Direito. Um eterno sedutor, com o prazer constante de ensinar: “Há duas coisas que não dispenso – estar com uma mulher e ensinar”.

Lisboeta dos quatro costados e poeta de Lisboa, era também um viajante inveterado, capaz de voar para as sete partes do mundo. Nos lugares por onde passou captou ritmos e imagens, exprimiu emoções, engendrou metáforas. Amantíssimo dos clássicos, cultivava no poema a divina proporção, num virtuosismo sem falhas. Uma poesia capaz de triunfar sobre a desordem e de impor regras ao caos precário da existência. Uma poesia capaz de transformar o caos em cais de aventuras sempre renovadas.

“Um Amor Feliz”, título do seu último romance que venceu o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, assim se poderia condensar a sua vida. Um amante da vida e dos seus prazeres: “o que acho cada vez mais extraordinário é a vida, a maravilha que é estarmos vivos”.

CASA

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

In Antologia Poética.
Publicações D. Quixote, 1983, p. 97.

Poeta em viagem sem regresso há vinte e cinco anos, continuamos a reter no écran da memória, para lá da sua obra, também aquela presença envolta numa nuvem branca de tabaco de cachimbo. Uma vida que ele desejou reduzida a um monumento de palavras. Escasseiam as palavras para exprimir a vida e a falta que David Mourão-Ferreira ainda hoje nos faz.

Memória e louvor da editora Cotovia

Há pelo menos duas editoras que sempre associei a pássaros: A Minerva, que nos remete para a coruja, e a Cotovia. Mas os pássaros são imprevisíveis: uns regressam, como as andorinhas em seus voos rasantes. Outros desaparecem de vez, como aconteceu agora a esta prestigiada editora.

A coruja de Minerva está associada à sabedoria. O filósofo idealista Hegel, de quem Marx é tributário, escreveu que a coruja de Minerva só voa à noitinha. Queria com isto dizer que uma civilização só atinge a sabedoria quando se aproxima do crepúsculo. A sabedoria necessária para a salvar aparece, por assim dizer, tarde de mais. Mas a coruja de Minerva também pode ser vista, como acontecia no antigo folclore romano, como arauta da morte.

Harper Lee tem um livro com um título premonitório: Não Matem a Cotovia, que trata da desigualdade racial nos anos 30, no sul dos Estados Unidos, e pode funcionar aqui como metáfora do desigual tratamento entre editores e livreiros no preciso momento em que a Cotovia deixou de entoar o mavioso canto. Já voava baixinho desde Fevereiro, altura em que ficou amputada do seu espaço físico. À meia-noite de 30 de Novembro – o dia da morte de Fernando Pessoa – finou-se de vez. 

A cultura e as artes sofrem mais um rude golpe com o desaparecimento desta apreciada editora de autores clássicos, de livros de teatro, de poesia contemporânea e de outras preciosidades. Porque os livros continuam a ser um bem cultural insubstituível. A visão de uma utopia generosa foi apagada pelas cataratas da indiferença de quem poderia ter feito alguma coisa para a salvar. Nunca por nunca os dinossáurios que gerem a seu bel-prazer os grandes grupos editoriais estariam dispostos a franquear as portas do seu Parque Jurássico a editoras independentes como a Cotovia. Nas capelinhas do elogio mútuo – onde pontificam os que tiveram a sorte de não ser excluídos dessa coisa a um tempo ambígua e complexa que é o cânone literário, uma escolha de autores condenada a discussões intermináveis – prevalecem as afinidades políticas e as amizades pessoais.

Num país em que poucos compram, lêem ou oferecem livros e onde parece que se gasta mais dinheiro em cápsulas Nespresso do que em livros;  em que outros tantos tudo fazem para transformar a cultura em mercadoria e comércio; em que para muitos “as letras são tretas”, incapazes de perceberem “a utilidade do inútil”, pois só vêem útil no que gera lucro; em que ainda temos gente que frequentou a universidade a dizer que o familiar ou amigo que estuda “anda em românticas” (em vez de românicas) ou “anda em antigas” (numa alusão à literatura clássica), as corujas e cotovias da cultura tendem a desaparecer de vez do nosso convívio, ameaçadas pelos pesticidas da ignorância generalizada.

Vivemos cada vez mais imersos na era do vazio e no império do efémero de que fala Lipovetsky. Vivemos um tempo de suposta relação objectiva entre a felicidade e o consumo, de hedonismo generalizado, mas onde – estranho paradoxo – nunca foi tão grande como hoje a corrida às farmácias para comprar antidepressivos. Também sociedade do cansaço, do desaparecimento dos rituais e da expulsão do outro, como nos mostra o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han. Um tempo em que quem manda nas televisões domésticas substitui, em generosos tempos de antena, escritores e poetas por cozinheiros, fazendo tábua-rasa dos ensinamentos de Natália Correia, que n’A defesa do poeta lembra aos subalimentados do sonho que a poesia é para comer.

Relembro que a Poetria, a primeira livraria de poesia do País, foi em tempos notificada do encerramento das Galerias Lumière, no Porto, onde se encontra instalada desde 2003. Cada vez mais editoras fecham portas. Cada vez menos livrarias, menos cinemas, menos espaços afectivos de pensamento, sociabilidade e convívio com a cultura. Sobre a cabeça dos pequenos e médios editores e livreiros rodopia, ameaçador, o cutelo da devastação iminente. Os ditos grandes editores asfixiam de forma insidiosa os mais pequenos, fazendo lembrar o Sermão de Santo António aos Peixes onde, no dizer do Padre António Vieira, um peixe grande se alimenta de muitos pequenos, quando o contrário é que estaria mais conforme com as leis da Natureza. 

É frágil o nosso ecossistema cultural, assente em pequenas tiragens. A paisagem literária e cultural encolhe e afunila a cada dia que passa. Até quando, esta apagada e vil tristeza? Agora, é tempo de os abutres rondarem os despojos da Cotovia. Foi isso que disse Fernanda Mira Barros, a gerente da editora: “os urubus dos espólios, desde Agosto (se não antes) que os avistamos”. Restam as edições cuidadas. Fica a sobriedade na textura das capas, a qualidade do grafismo, o bom gosto da escolha dos autores.

Resta-me o (fraco) consolo de continuar a ter a Cotovia aqui pelas estantes, em merecido repouso ou a saltitar de umas prateleiras para as outras.

Rui Knopfli, poeta extraterritorial

Rui Knopfli (caricatura de Vasco)

(Dedico este texto à estimada amiga Maria Teresa Mota, que tem trazido aqui alguns poetas da minha predilecção – cito apenas, entre os mais recentes, Rui Knopfli e Pedro Tamen – os quais, por razões circunstanciais e outros imponderáveis, não tenho podido comentar em tempo útil, como desejava e ela bem merece).

“O poeta não se vende, não se compra, não se emenda” – Rui Knopfli

Considero Rui Knopfli um dos melhores poetas contemporâneos de língua portuguesa. Tenho-o alinhado, na estante, ao lado de outro Ruy que muito prezo – o Cinatti, poeta e antropólogo apaixonado por Timor, que cruzou vários continentes – e de braço dado, também, com a Memória Indescritível, de Pedro Tamen.

 Nascido em Inhambane (Moçambique), abandonou o país em 1975 por “mal-entendidos e amargas circunstâncias”. Viria a fixar-se em Londres durante vinte e dois anos, onde foi assessor de imprensa da embaixada portuguesa. Em 1997 passa a residir de vez em Portugal, onde acaba os seus dias, contava então 65 anos de idade: “Agora Portugal será, graças a Deus, um ponto de fixação, onde acabarei os meus dias no meio de gente que tanto estimo”.[1]

Não admira, assim, que a sua poesia depurada e concisa – mas também com sinais de presságio, angústia e ironia – atravesse os continentes africano e europeu. Sem uma terra a que verdadeiramente pudesse chamar sua, o poeta sentia-se estrangeirado n’O País dos Outros, título do primeiro livro (1959). Encharcado em saudade e melancolia, minado pela nostalgia irremediável da terra amada que, em sentido territorial, foi deixando de ter – “é só a língua em que me digo” – deixou todo esse caldeirão de emoções retratado no longo e belíssimo poema Pátria, de O Escriba Acocorado[2]de que aqui deixo apenas alguns excertos:

Um caminho de areia solta conduzindo a parte
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nomes por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal

e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios

entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso

obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma

remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.

(…)

O poeta que não escrevia por encomenda acabou maltratado na sua terra pelos militantes da poesia. Precisamente aqueles que escreviam “de um ponto de vista totalmente subordinado a preconceitos de ordem político-ideológica, suprimindo, rasurando, autênticos valores literários em favor de todas as mediocridades que erguiam hinos coxos e tortos (risíveis?) em favor da libertação, com muito molho e esparregado de culatra de AK-47. Na época levantei um tímido protesto: choveu-me bravamente em cima e fui acusado de insidioso e potencial aliado do colonialismo, apesar de ter diariamente a ‘pide à perna’ e os meus críticos beneficiarem da sombra protectora da Sorbonne”.[3]

Foi o preço que pagou pelo não alinhamento ideológico que se seguiu a um período de aproximação ao neo-realismo. Um “eu” individual estilhaçado por acontecimentos colectivos que o levaram a abandonar Moçambique com amargura e desencanto, como se depreende destes versos extraídos de O Monhé das Cobras:[4]

Aeroporto

É o fatídico mês de Março, estou
no piso superior a contemplar o vazio.
Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon
e olha-me, obliquamente, nos olhos:
Não voltas mais? Digo-lhe só que não.

Não voltarei, mas ficarei sempre,
algures em pequenos sinais ilegíveis,
a salvo de todas as futurologias indiscretas,
preservado apenas na exclusividade da memória
privada. Não quero lembrar-me de nada,

só me importa esquecer e esquecer 
o impossível de esquecer. Nunca
se esquece, tudo se lembra ocultamente.
Desmantela-se a estátua do Almirante,
peça a peça, o quilómetro cem durando

orgulhoso no cimo da palmeira esquiva.
Desmembrado, o Almirante dorme no museu,
o sono do bronze na morte obscura das estátuas
inúteis. Desmantelado, eu sobreviverei
apenas no precário registo das palavras.

Falei acima de uma poesia de presságio, porque é disso que se trata quando deparamos com o primeiro poema de O País dos Outros, o primeiro livro que publicou:[5]

Lírica para uma ave

Num céu de chumbo e baionetas
caladas,
sobre uma floresta de sono
e demência,
tonta, esvoaça perdida
uma ave sangrenta.
Na turva e opressa manhã
se anuncia a cólera
do tempo.

Na hora
da aurora,
gemem ventos,
fluem surdos rios.

Cerra os olhos,
cala na garganta
a voz,
acorda audível
o pensamento:

No escuro cerne da floresta,
com sorrisos dependurados à entrada,
degola-se uma ave.
Por enquanto mais nada, senão
o torvo tinir dos talheres
no banquete da morte impossível.

E também é de presságio que se fala no poema “Preto no Branco”, escrito em 1962 e inserido em Mangas Verdes Com Sal, onde a guerra pela independência se anunciava já envolta em pólvora, ferro e fogo:

O PRETO NO BRANCO

Da granada deflagrada no meio
de nós, do fosso aberto, da vala
intransponível, não nos cabe
a culpa, embora a tua mão,
armada pelo meu silêncio,
lhe tenha retirado a espoleta.
De um lado o teu dedo indicador,
de outro a minha assumida neutralidade.
Entre os dois, ocupando o espaço
que vai do teu dedo acusador
à minha mudez feita de medo e simpatia,
tudo quanto não quisemos, nem urdimos,
tudo quanto a medonha zombaria
de ódios estranhos escreve a sangue
e, irredutivelmente, nos separa e distancia.
Tudo quanto há-de gravar o meu nome
numa das balas da tua cartucheira.
Nessa bala hipotética, nessa bala possível
que se vier, quando vier (ela há-de vir)
melhor dirá o que aqui fica por dizer.

Nunca foi fácil, aos romancistas e poetas das antigas colónias portuguesas, chamar a atenção dos críticos continentais e muito menos ocupar um lugar de destaque nos escaparates das livrarias da metrópole. Talvez por isso Rui Knopfli seja, ainda hoje, um poeta algo distante do reconhecimento que a sua obra requer e tanto merece. Uma obra construída em torno das lembranças da infância e da juventude – das mangas verdes com sal – das paisagens com a sua largueza de horizontes, da vegetação árida ou luxuriante, das savanas e das águas tépidas do Índico e daqueles poentes com céus de fogo deslumbrantes em finais de tarde que parecem não ter fim. Coisas que deixam traços indeléveis de nostalgia na alma e na memória de quem lá tem as raízes ou por lá passou ou assentou arraiais.

Poeta da perda e do desterro, mas também cronista e ensaísta de méritos firmados – estou a lembrar-me de uma notável polémica em torno de Shakespeare, travada com Eduardo Lourenço, que não hesitou em chamar-lhe “honorable man” – Rui Knopfli sublimou na poesia o luto de “ser arrancado da terra com as raízes a sangrar, para ser transplantado noutro lugar”.

Por tudo o que nos legou (e foi tanto!) é proibido esquecer Rui Knopfli! 


[1] Entrevista à Visão, em Outubro de 1997.

[2] Rui Knopfli, O Escriba Acocorado, Lisboa, Moraes Editores, 1978, pp. 13-14. Muita da sua dor, provocada pela ruptura com um mundo encantatório, foi exorcizada em O Escriba Acocorado (ver Maria Leonor Nunes, “Rui Knopfli, a diáspora de um escriba, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 18.01.1995, p. 12).

[3] Rui Knopfli, “O grande equívoco”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 428, 18.09.1970, p. 32.

[4] Rui Knopfli, O Monhé das Cobras, Lisboa, Editorial caminho, 1997, p. 56.

[5] Poema inserido na colectânea Nada Tem Já Encanto – Poemas Escolhidos. Edições Tinta-da-china, Lisboa, 2017 (1.ª edição), p. 23.

“Vestido” para homem, ou como fintar a castração

Este vestido para homem, da marca italiana Gucci (custa apenas 1900 euros…), não podia vir em melhor altura. Já encomendei um exemplar. Vá lá: não esbugalhem os olhos nem abram desmesuradamente a boca de espanto. Tenham calma, já vão perceber porquê.

Parece que o vestido se destina a combater a masculinidade tóxica. Não é por isso que o compro, até porque não sou de modas: tanto se me dá que rosa seja cor de menina e azul de menino, já que os significados das cores vão variando entre culturas e antes do século XX o padrão oficial até funcionava ao contrário do que hoje se considera certo para cada género. Se recorro a esta indumentária… é pura e simplesmente para que não me cortem os tomates. Assim mesmo. Passo a explicar, para evitar mal-entendidos. 

Sorte a das mulheres, já que não vingou a proposta de remoção dos ovários às que ousem abortar. Quanto aos homens, falo apenas por mim. Embora não seja dado a comer criancinhas ao pequeno almoço, as minhas noites nunca mais foram as mesmas. Tremo como varas verdes, só de pensar que pode surgir alguém a acusar-me de pedofilia, à semelhança do que se passava com as denúncias insidiosas contra os cristãos-novos ou as acusações de feitiçaria e bruxaria contra as mulheres – supostas noivas de Satanás – que entre os séculos XV e XVII acabavam invariavelmente a arder como tochas nas labaredas da intolerância.

Em tempo de Convenção, um partido político da nossa praça procura reintroduzir a pena de Talião na sociedade portuguesa contemporânea, porventura (e por Ventura) inspirado na conduta ética do Deus do Antigo Testamento: olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe (Êxodo, 21. 23-25). Transpondo o raciocínio milenar para uma possível revisão da Constituição no século XXI, o que se propõe é nem mais nem menos do que a castração física – presumo que sem anestesia – para os condenados por abuso e violação de menores.

Tudo isto me provoca pesadelos, suores gelados, convulsões e espasmos, urticária e unhas encravadas. Aqui fica o que retive de um sonho tenebroso: estou numa sala a frequentar formação obrigatória para castradores a soldo do Estado. Ao meu lado, alguns médicos, aprendizes de talhantes, obrigados a mandar às malvas o juramento de Hipócrates. O monitor dispara catilinárias contra as teorias médicas, gabando-se de ser alguém com saber de experiência feito. Não deixa de ter alguma razão: à falta de gente do ramo com experiência no corte de genitais, o Estado recorrera a um velho alveitar, tirocinado a capar porcos nos currais das aldeias recônditas de Portugal.

O pior viria a seguir. Não houve castrações ao vivo, com figurantes de carne e osso, como se estivéssemos numa daquelas aulas de anatomia onde, subrepticiamente, alguém coloca uma parte do corpo retalhado no bolso da bata branca de uma caloira, candidata a exercer medicina ou a embrenhar-se nos meandros da justiça. Em vez disso, o monitor-capador projecta alguns vídeos, onde o som e a imagem não deixam de suscitar reacções de horror, como se dum cenário real se tratasse. 

Num deles, um homem condenado à castração tenta auto-mutilar-se – embora sem sucesso, por lhe faltar a coragem necessária– numa tentativa desesperada de evitar a humilhação pública às mãos dos algozes, à boa maneira dos autos de fé da Santa Inquisição.

Noutra imagem, mulheres nuas aparecem num prado verdejante a pendurar, com aparente deleite, genitais cortados pela raiz, como se colocassem roupa a secar e ainda pudessem retirar deles algum proveito. 

De repente, acordo. Aturdido e com o coração alvoroçado. Levanto-me de um pulo, e porque há sonhos que podem tornar-se realidade, decido: vou mesmo usar o vestido como disfarce. Pode ser que não me topem e desse modo escape aos novos inquisidores com complexos de Torquemada. E para reforçar ainda mais a segurança, resolvi também usar, por baixo do vestido, um cinto de castidade. O mesmo cinto que no tempo das cruzadas as mulheres usavam ao pescoço, enquanto os maridos iam para longes terras ajudar à dilatação da fé e do império (outras davam-lhe o uso adequado, mas só até ao momento em que um ferreiro mais atrevido arranjava a chave da salvação, aliviando-as do tédio que representava passarem anos a fio a olhar para os campos de milho ou de trigo…).

Pelo sim pelo não, e enquanto não chega a encomenda, tenho aproveitado para ir depilando as pernas…

(Nota: algumas imagens procuram retratar, com a fidelidade possível, a espessura do sonho que partilhei convosco).